Irã diz que navios atravessam Estreito de Ormuz mesmo com bloqueio dos EUA
Mídia estatal também apontou para a passagem de embarcações sujeitas a sanções norte-americanas; EUA rejeitam alegações


Camila Stucaluc
Pelo menos dois navios iranianos furaram o bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos e cruzaram o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas. A afirmação foi feita nesta quarta-feira (15) pela agência estatal iraniana Fars, que fez o balanço com base na plataforma de análise Kpler.
Rota marítima de cerca de 20% do petróleo mundial, o Estreito de Ormuz está na disputa entre Estados Unidos e Irã desde 28 de fevereiro, quando Washington lançou uma operação coordenada com Israel contra Teerã. A rota chegou a ser fechada parcialmente pelo regime iraniano, mas foi reaberta após os países acordarem um cessar-fogo de 14 dias.
Na segunda-feira (13), no entanto, o presidente norte-americano Donald Trump impôs um novo bloqueio no Estreito após as negociações de paz entre os países acabarem sem um acordo definitivo. A medida, que também engloba a costa e os portos iranianos, é um meio de pressionar Teerã a acordar com os termos de Washington no acordo, incluindo sobre o programa nuclear.
Segundo o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês), o bloqueio é aplicado contra embarcações estrangeiras que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras do Irã, incluindo todos os portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã. Os navios que não estiverem viajando para as regiões, por sua vez, podem passar livremente pelo Estreito.
Apesar do bloqueio, a mídia iraniana afirma que petroleiros iranianos ou navios com destino ao Irã estão conseguindo passar pelo Estreito. De acordo com a Fars, isso inclui um petroleiro de grande porte, capaz de carregar 2 milhões de barris de petróleo, e um navio graneleiro, carregado com produtos alimentícios.
A estatal ainda apontou para a passagem de embarcações sujeitas a sanções dos Estados Unidos por negociarem com o Irã. É o caso do petroleiro Handy Murlikishan, que está a caminho do Iraque para carregar óleo combustível, e o navio-tanque Rich Starry.
As alegações são negadas pelo Centcom, que afirma que nenhum navio conseguiu furar o bloqueio desde a sua implementação. “Em menos de 36 horas desde a implementação do bloqueio, as forças dos EUA interromperam completamente todo o comércio econômico que entra e sai do Irã por via marítima", disse o almirante Brad Cooper, em um comunicado nas redes sociais.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos ainda escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, pressionando a economia.









