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Se os Correios param, sua empresa também para?

Greve começa a provocar atrasos em encomendas e expõe um risco que vai muito além da logística. A dependência pode ser um perigoso passivo de uma empresa

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João Kepler
Greve dos Correios já afeta prazos de entrega de encomendas | Divulgação/Correios

Greve dos Correios já afeta prazos de entrega de encomendas | Divulgação/Correios

A greve dos trabalhadores dos Correios, iniciada no dia 10 de setembro, já começa a aparecer na rotina de consumidores e pequenos vendedores. Apesar da determinação do Tribunal Superior do Trabalho para manutenção de 80% do efetivo e das medidas de contingência anunciadas pela estatal, existem relatos de encomendas atrasadas e objetos sem atualização no rastreamento. O julgamento do dissídio coletivo no TST foi suspenso e deverá ser retomado no dia 24 de setembro.

Não vou entrar aqui no mérito da disputa entre trabalhadores e empresa. Existe uma discussão trabalhista acontecendo, mas esse episódio expõe um risco de gestão que interessa diretamente a qualquer pequeno empresário.

Se os Correios pararem, sua empresa também para?

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Imagine uma pequena loja que vende pela internet e envia praticamente todos os pedidos pelos Correios. Durante anos, aquilo funcionou perfeitamente. Até o serviço enfrentar uma dificuldade. O produto está pronto, o cliente pagou e a venda aconteceu, mas a entrega não chega. Nesse momento, o problema dos Correios também passa a ser problema da loja. Para o consumidor, pouco importa onde ocorreu a falha. Ele comprou da sua empresa.

Esse mesmo risco aparece em diferentes lugares. Uma empresa pode vender a maior parte dos seus produtos por um único marketplace até uma regra mudar ou a conta ser suspensa. Pode concentrar a aquisição de clientes em uma rede social até perder o acesso ao perfil. Pode comprar um componente essencial de apenas um fornecedor até ele deixar de entregar. Ou pode depender de uma pessoa na equipe sobre a qual todos dizem que só ela sabe fazer determinada coisa.

Essa última situação, aliás, deveria soar menos como elogio e mais como alerta. Se uma pessoa sair amanhã e uma parte importante da empresa deixar de funcionar, existe ali um risco que nunca apareceu na contabilidade.

Dependência também é dívida.

Não uma dívida financeira, com juros, parcelas e vencimento. É uma dívida operacional que permanece escondida enquanto tudo funciona. Quando aquilo de que a empresa depende falha, a conta aparece.

Isso não significa que toda pequena empresa precise ter três transportadoras, dois fornecedores para cada produto e funcionários duplicados para todas as funções. Diversificação custa dinheiro e aumenta a complexidade. Resiliência não significa ter dois de tudo. Significa saber exatamente aquilo que você não pode ter apenas um.

Vale olhar para a empresa e identificar tudo aquilo que, se parar amanhã, compromete a operação. Pode ser um fornecedor, um grande cliente, uma máquina, um sistema, um canal de vendas, uma pessoa-chave ou o operador responsável pelas entregas. Quanto maior o impacto de uma interrupção, maior deveria ser a preocupação com uma alternativa.

No caso de quem vende pela internet, não é necessário dividir permanentemente os pedidos entre várias transportadoras. Mas é importante conhecer outras opções, saber quais regiões podem ser atendidas por outros operadores, quando utilizar retirada, entrega local ou motoboy e quanto cada alternativa custaria. Contingência preparada durante a crise quase sempre custa mais caro do que contingência pensada antes dela.

Existe ainda o cliente. Quando uma dependência afeta a entrega, comunicação passa a fazer parte da solução. Se uma encomenda atrasou, atualizar o consumidor, explicar a situação e oferecer alternativas quando possível pode preservar algo que vale mais do que o frete, a confiança.

A greve dos Correios vai terminar em algum momento e as entregas deverão voltar à normalidade. O risco é esquecer a lição assim que o problema desaparecer. Na próxima vez, pode não ser o operador logístico. Pode ser seu principal fornecedor, seu maior cliente, o sistema que controla a operação, o marketplace onde você vende ou aquela pessoa que ninguém consegue substituir.

Cidadão, dívida não é apenas aquilo que você deve.

Dependência também pode ser aquilo sem o qual você não consegue funcionar.

Olhe para sua empresa e descubra o que poderia fazê-la parar amanhã. Se encontrou alguma coisa, encontrou também um risco que precisa começar a administrar hoje.

Pense nisso!

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