Pequenas empresas devem se preparar para fim da escala 6x1
Redução da jornada exige mudanças na operação, nos preços e no planejamento financeiro; futura lei poderá amenizar impactos sobre pequenos negócios

Protestos pelo país pediram o fim da escala de trabalho 6x1 Divulgação Tomaz Silva Agência Brasil.png
Com a aprovação da proposta que acaba com a escala 6x1, o empresário brasileiro precisa começar a fazer contas. A redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, representa uma mudança importante nas relações de trabalho. Para os trabalhadores, significa mais tempo de descanso e qualidade de vida. Para as empresas, especialmente as pequenas e médias, significa a necessidade de reorganizar operações e se preparar para um provável aumento de custos.
A mudança ainda depende da promulgação e terá um período de transição. Mas esperar a nova regra entrar em vigor para começar a planejar pode comprometer o caixa de muitos negócios. + 6x1 tem aprovação maior que Lula e Flávio, diz especialista
O impacto será diferente para cada setor. Empresas que já funcionam cinco dias por semana poderão ter mais facilidade para redistribuir as horas de trabalho. O desafio será maior para restaurantes, farmácias, supermercados, lojas de shopping, prestadores de serviços e outras atividades que dependem de atendimento durante seis ou sete dias.
🤳Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! Clique aqui. Nesses casos, o empresário terá basicamente três caminhos. Contratar mais pessoas para manter a operação, aumentar a produtividade da equipe ou reduzir os dias e horários de funcionamento. Nenhuma dessas alternativas é necessariamente simples ou gratuita.
Uma das consequências possíveis será o fechamento de empresas aos sábados. Para muitos pequenos negócios, especialmente aqueles em que o movimento nesse dia não compensa o custo de manter uma equipe adicional, fechar as portas poderá ser financeiramente mais viável do que contratar novos funcionários.
Isso significa que parte das empresas poderá reduzir sua disponibilidade de atendimento e, consequentemente, perder oportunidades de faturamento. A medida que pretende ampliar o descanso dos trabalhadores também poderá alterar os hábitos de consumo e a dinâmica de funcionamento do comércio e dos serviços.
Outra consequência provável será a revisão dos preços. Empresas que não conseguirem reduzir horários ou aumentar a produtividade terão de avaliar quanto do custo adicional poderá ser absorvido pela margem e quanto precisará ser repassado aos consumidores.
Na prática, parte dessa conta poderá chegar ao bolso do cliente, por meio de produtos e serviços mais caros.
Vamos considerar uma simulação simples. Uma empresa com 12 funcionários, salário médio de R$ 2.500 e custo total estimado de R$ 4.250 por trabalhador desembolsa aproximadamente R$ 51 mil mensais com sua equipe. Se precisar contratar mais dois funcionários para manter os mesmos horários de atendimento, sua despesa mensal passará para R$ 59.500. São R$ 8.500 adicionais por mês, ou R$ 102 mil por ano, sem qualquer garantia de aumento no faturamento. Para uma empresa que fatura R$ 200 mil mensais e possui R$ 110 mil em outros custos e despesas, o resultado operacional simplificado cairia de R$ 39 mil para R$ 30.500. Uma redução de quase 22%.
Essa é uma simulação hipotética. A necessidade de contratação dependerá da jornada atual, dos horários de atendimento e da capacidade de reorganização de cada negócio. Mas ela demonstra como uma mudança aparentemente pequena na jornada pode produzir um impacto significativo sobre a margem de lucro. E existe um detalhe importante. Uma empresa que já opera com margem de 5% ou menos poderá enfrentar dificuldades muito maiores. Dependendo do aumento efetivo de custos, a operação poderá deixar de ser lucrativa.
A redução da jornada também pode proporcionar mais descanso aos trabalhadores, contribuindo para o aumento da produtividade, a redução das faltas e a menor rotatividade. O tempo livre adicional pode ainda estimular o consumo em setores como lazer, turismo e gastronomia. Entretanto, esses benefícios não são automáticos e podem levar tempo para se concretizar, enquanto os custos adicionais para as empresas tendem a aparecer imediatamente na folha de pagamento.
O aumento da despesa pode ser imediato. O ganho de produtividade ainda precisa ser construído.
O texto aprovado contempla mecanismos de flexibilização que poderão ajudar nessa adaptação. A negociação coletiva poderá permitir a distribuição das folgas ao longo do mês, respeitadas as condições legais de descanso. Isso oferece alguma margem de reorganização para empresas que enfrentam períodos de maior movimento ou precisam manter atendimento contínuo.
Mas há outro ponto que merece atenção especial dos pequenos empresários.
A proposta abre espaço para uma futura lei complementar destinada a amenizar os impactos sobre micro e pequenas empresas, com medidas associadas à preservação dos empregos.
Essa possibilidade representa uma perspectiva importante para o setor. O Congresso poderá estabelecer tratamentos diferenciados, inclusive mecanismos que reduzam o peso financeiro da transição. Entretanto, ainda será necessário definir quais medidas serão adotadas, quem terá direito aos benefícios e quando eles poderão entrar em vigor.
A previsão de uma lei complementar oferece uma possibilidade de alívio, mas não significa que já exista uma compensação financeira garantida.
Por isso, o empresário não deveria montar seu planejamento contando antecipadamente com incentivos que ainda não foram regulamentados.
O caminho mais prudente é começar agora a simular os diferentes cenários. Quanto custará manter a operação atual? Será necessário contratar? O movimento de sábado justifica permanecer aberto? Existe espaço para redistribuir turnos, automatizar processos ou renegociar contratos? Qual reajuste de preços seria necessário para preservar a margem?
Essas decisões exigem análise financeira, conhecimento da operação e acompanhamento jurídico e contábil. Também será importante observar a regulamentação e os instrumentos de negociação coletiva que poderão ser utilizados durante a transição.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 não precisa colocar trabalhadores e empresários em posições opostas. Melhorar as condições de trabalho é um objetivo legítimo. Preservar a capacidade das empresas de continuar operando e empregando também é fundamental.
O grande desafio cidadão, será conciliar esses dois interesses sem transferir custos de maneira desproporcional para os pequenos negócios e, consequentemente, para os consumidores.
A nova jornada poderá melhorar a qualidade de vida de milhões de trabalhadores. Mas sua sustentabilidade econômica dependerá da capacidade de adaptação das empresas e das medidas que ainda poderão ser regulamentadas.
Para o pequeno empresário, o momento é de planejamento. A lei complementar poderá trazer algum alívio, mas a revisão dos custos, das escalas, dos preços e dos horários de funcionamento não pode esperar.
Afinal, reduzir a jornada por lei é possível. Garantir que todas as empresas consigam pagar por essa mudança será o verdadeiro desafio.
Pense nisso!

























