Economia

E agora, empresário? O que muda após a reeleição de Lula

Queda da Bolsa, alta do dólar e pressão sobre os juros acendem um alerta para quem empreende; veja os impactos

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João Kepler

O mercado financeiro reagiu à eleição com queda acentuada da Bolsa, disparada do dólar e pressão sobre os juros. Mas o que essa turbulência significa para quem precisa continuar produzindo, investindo e gerando empregos?

A eleição terminou ontem. Hoje, segunda-feira (26), o mercado financeiro brasileiro deu sua primeira resposta.

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A Bolsa de Valores precisou interromper as negociações depois de uma queda de 10% no Ibovespa. Foi o primeiro acionamento do chamado circuit breaker desde março de 2020, quando o mundo enfrentava o início da pandemia. Ao mesmo tempo, o dólar disparou, os juros futuros subiram e investidores começaram a rever suas expectativas para a economia brasileira.

Não estamos falando apenas de uma reação emocional ao resultado eleitoral. Estamos diante de um movimento de reavaliação de riscos, expectativas e confiança.

A vitória de Lula representa a continuidade de um modelo de governo sobre o qual parte significativa do mercado manifesta preocupações, especialmente em relação à responsabilidade fiscal, à trajetória da dívida pública e à capacidade de promover um ambiente mais favorável aos investimentos privados.

É importante compreender que uma reação negativa da Bolsa não significa, necessariamente, que o país entrará em recessão. Os mercados antecipam expectativas, que podem se confirmar ou mudar diante de novas decisões.

Mas ignorar o sinal seria um erro. Principalmente para quem empreende.

Depois de tantos anos como empresário e investidor, aprendi que empresas conseguem enfrentar crises, mudanças políticas e dificuldades econômicas. O que compromete sua capacidade de crescer é a combinação de custos elevados, falta de previsibilidade e decisões tomadas sem considerar os riscos.

E é justamente isso que precisa entrar no planejamento empresarial a partir de agora.

O dólar sobe. E o problema não fica restrito aos importadores.

A primeira consequência de uma desvalorização expressiva do real é o encarecimento dos produtos, serviços e insumos negociados em moeda estrangeira.

Empresas que importam equipamentos, componentes eletrônicos, máquinas, matérias-primas ou tecnologias podem enfrentar aumentos imediatos em seus custos.

Mas os efeitos vão além.

Mesmo empresas que compram exclusivamente de fornecedores nacionais podem ser atingidas, porque parte da cadeia produtiva brasileira depende de produtos importados ou de preços internacionais.

Combustíveis, fertilizantes, equipamentos industriais e determinados componentes podem sofrer pressão de preços.

Para empresas exportadoras, por outro lado, um dólar mais alto pode aumentar a receita em reais e melhorar a competitividade internacional, desde que seus custos não subam na mesma proporção.

O impacto, portanto, não será igual para todos.

O empresário precisa compreender sua exposição cambial antes que a variação do dólar apareça na margem de lucro.

Juros elevados podem ficar ainda mais caros

A segunda preocupação está no crédito.

Quando investidores passam a exigir remuneração maior para financiar o país, os juros futuros podem subir.

Dependendo da intensidade e da duração desse movimento, o custo de captação das instituições financeiras também pode aumentar.

Isso pode chegar às empresas na forma de empréstimos mais caros, financiamentos menos acessíveis e condições de crédito mais restritivas.

Para uma grande companhia, o aumento do custo do capital pode levar ao adiamento de uma expansão.

Para uma pequena empresa, pode significar dificuldades para financiar estoques, antecipar recebíveis ou manter o capital de giro.

É importante distinguir a taxa Selic dos juros futuros. Uma elevação dos juros negociados no mercado não significa que o Banco Central tenha aumentado imediatamente sua taxa básica.

Entretanto, se a deterioração das expectativas pressionar a inflação e o câmbio, o espaço para futuras reduções da Selic poderá diminuir.

O empresário que depende de dinheiro emprestado para sustentar uma operação pouco rentável precisa redobrar a atenção.

O maior risco pode estar na perda de confiança

Existe um elemento econômico que não aparece diretamente no balanço das empresas, mas influencia praticamente todas as decisões de investimento: a confiança.

Quando um empresário decide construir uma fábrica, abrir uma unidade, contratar profissionais ou desenvolver um novo produto, está assumindo compromissos com o futuro.

Para isso, precisa acreditar que encontrará condições razoavelmente previsíveis para recuperar seu investimento.

O mesmo acontece com investidores nacionais e estrangeiros.

Quando aumentam as dúvidas sobre as contas públicas, a estabilidade das regras e a direção da política econômica, cresce também a tendência de adiar decisões.

E investimentos adiados significam oportunidades de crescimento e geração de empregos que deixam de acontecer naquele momento.

Por isso, a resposta do governo à turbulência será tão importante quanto a própria reação inicial do mercado.

O desafio do presidente reeleito não será convencer investidores por meio de discursos. Será demonstrar, com decisões concretas, que existe um plano econômico consistente e executável.

Mais impostos não podem ser a única resposta

Uma das principais preocupações empresariais para os próximos anos será a combinação entre necessidade de arrecadação, despesas públicas e mudanças tributárias.

O Brasil já enfrenta um processo de transformação de seu sistema de tributação sobre o consumo.

A reforma tributária continuará avançando independentemente do resultado eleitoral, exigindo adaptações operacionais, tecnológicas e financeiras das empresas.

O problema será maior se a necessidade de equilibrar as contas públicas resultar em novas pressões tributárias sem avanços equivalentes na eficiência do Estado.

Não se trata de defender a ausência de políticas públicas ou investimentos sociais. Trata-se de compreender que a capacidade de arrecadação depende também da capacidade de crescimento da economia.

Empresas precisam gerar resultados para investir, contratar, pagar impostos e continuar operando.

Um país não constrói prosperidade sustentável apenas aumentando a arrecadação. Precisa ampliar sua capacidade de produzir riqueza.

E o que o empresário deve fazer agora?

Minha primeira recomendação é não confundir preocupação com paralisia.

O resultado eleitoral está definido. O ambiente econômico poderá se tornar mais desafiador, mas ninguém conhece antecipadamente todas as decisões que serão tomadas nos próximos quatro anos.

O que sabemos é que empresas precisam continuar funcionando amanhã, na próxima semana e no próximo mês.

Por isso, considero fundamental revisar o planejamento financeiro, acompanhar a exposição ao dólar, avaliar o custo das dívidas e preservar a capacidade de geração de caixa.

Também será necessário reexaminar investimentos, contratos e projeções de crescimento.

Isso não significa abandonar projetos ou deixar de investir. Significa compreender melhor os riscos e exigir maior disciplina na alocação de capital.

Em momentos de incerteza, empresas mais produtivas, com boa gestão, margens saudáveis e menor dependência de financiamento externo tendem a apresentar maior capacidade de adaptação.

Tecnologia, automação, inteligência artificial e revisão de processos podem contribuir para compensar parte das pressões de custos.

E existem oportunidades mesmo em cenários adversos.

Empresas que resolvem problemas reais, apresentam diferenciais competitivos e conseguem operar com eficiência continuam encontrando espaço no mercado.

O que muda não é a necessidade de empreender. É o nível de disciplina necessário para empreender bem.

O governo precisa entender o tamanho da responsabilidade

A reação do mercado nesta segunda-feira deve ser interpretada como um alerta, não como uma sentença definitiva sobre os próximos quatro anos.

O governo terá a oportunidade de apresentar uma equipe econômica competente, demonstrar compromisso com as contas públicas, estabelecer prioridades e reconstruir a confiança dos investidores.

Também precisará dialogar com o Congresso, respeitar a segurança jurídica e compreender que o setor produtivo não pode ser tratado apenas como fonte de arrecadação.

O Brasil precisa de políticas sociais eficientes, infraestrutura, educação, saúde e oportunidades. Mas também precisa de empresas capazes de financiar seu crescimento, contratar profissionais e competir internacionalmente.

Esses objetivos não são incompatíveis.

O desafio é construir condições para que avancem juntos.

O Brasil não pode parar porque a Bolsa parou

Uma interrupção de 30 minutos nas negociações da Bolsa é um acontecimento relevante. Mas seria um erro permitir que a preocupação com os mercados se transformasse em quatro anos de imobilismo empresarial.

Empreendedores não escolhem todas as condições econômicas em que precisam operar. Entretanto, continuam responsáveis por suas decisões.

Isso não significa aceitar passivamente políticas que considerem inadequadas.

Empresários devem participar do debate público, apresentar propostas, cobrar responsabilidade fiscal, defender segurança jurídica e exigir eficiência na administração pública.

Mas precisam fazer isso sem abandonar sua principal contribuição para o país: produzir, inovar, investir e gerar oportunidades.

A eleição definiu quem governa. A reação do mercado mostrou o tamanho da desconfiança. Agora, caberá ao governo demonstrar que é capaz de recuperar a credibilidade.

E aos empresários caberá fazer aquilo que sempre fizeram diante das dificuldades: avaliar riscos, adaptar estratégias e continuar construindo.

Porque a Bolsa pode parar por 30 minutos. Mas o Brasil produtivo não pode parar por quatro anos.

Pense nisso!

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