Desenrola 3.0: brasileiro endividado está mesmo enrolado?
Novo programa prevê até 90% de desconto em dívidas, mas também levanta discussões sobre o custo fiscal e o nome dado aos devedores

Desenrola 3.0 prevê compra de dívidas pela União | Reprodução
Antes de falar do novo Desenrola Brasil, versão 3.0, quero começar pelo nome.
Nem todo brasileiro endividado é ou está “enrolado”. Muita gente simplesmente passou por dificuldades, perdeu renda, ficou desempregada, enfrentou uma emergência familiar ou não conseguiu fazer o dinheiro chegar até o fim do mês. E boa parte dessas dívidas nem nasceu dentro de um banco.
Os dados ajudam a entender isso. Cerca de 55% do estoque de dívidas em atraso está relacionado a contas como água, luz, telefonia e varejo, e não a cartão de crédito ou empréstimos bancários. Cada devedor acumula, em média, quatro dívidas, com valor médio próximo de R$ 7 mil por pessoa.
Por isso, considero o nome Desenrola infeliz. Ele acaba colocando milhões de brasileiros na mesma condição de “enrolados”, quando existem histórias completamente diferentes por trás de uma conta que deixou de ser paga. Inadimplência é uma condição financeira. Não deveria virar definição sobre a pessoa.
E tem mais, se for considerar que o dinheiro de muitas famílias foram para as bets, esse nome podia até fazer mais sentido, mas ainda assim, as bets foram liberadas pelo próprio governo, que agora por medida provisoria resolve suspender.
E existe uma coincidência que torna esse anúncio e lançamento do programa ainda mais interessante. ”BRASIL SEM BETS e DESENROLA 3.0”
No mesmo dia em que anunciou o Desenrola 3.0, o governo também anunciou a Medida Provisória proibindo as bets no Brasil. Os jogos online tiveram seu marco legal ampliado em 2023 e, desde janeiro de 2025, empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podiam operar nacionalmente dentro do mercado regulado.
O próprio governo relaciona a proibição das bets à proteção das famílias e ao endividamento. Se parte do dinheiro que deveria pagar contas básicas acabou sendo direcionada para apostas, a preocupação faz sentido. Mas existe uma ironia nessa sequência. O Estado passou os últimos anos construindo e regulando um mercado de apostas e agora decide proibi-lo, entre outras justificativas, pelos efeitos que esse mercado produziu sobre as famílias.
E há outro fato que inevitavelmente entrará na discussão. O Desenrola 3.0 e a proibição das bets foram anunciados no mesmo dia, 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno das eleições.
Isso não prova que as medidas sejam eleitoreiras. Mas a intenção e o momento deixa sim interpretações. Críticos do governo questionam justamente o momento escolhido para anunciar medidas com impacto direto sobre milhões de brasileiros, enquanto o governo sustenta que está respondendo a problemas concretos de endividamento e aos danos associados às apostas.
Feita essa contextualização, vale entender o que realmente muda com o novo Desenrola.
Desta vez, o modelo é diferente. Em vez de apenas facilitar a negociação entre o cidadão e o credor, a União poderá comprar carteiras de dívidas antigas com grandes descontos e repassar esse abatimento aos devedores.
A dimensão chama atenção. O governo trabalha com um universo de até R$ 150 bilhões em dívidas a serem renegociadas. Como o desconto mínimo exigido nas carteiras será de 90%, o desembolso público estimado pode chegar a R$ 15 bilhões.
Na prática, uma dívida antiga que dificilmente seria recuperada pelo credor pode ser vendida por uma pequena fração do valor original. O governo compra essa carteira depreciada e o cidadão recebe a possibilidade de quitar ou renegociar a obrigação com um desconto muito maior.
Para quem carrega uma dívida antiga, pode ser mais uma boa oportunidade de reorganizar a vida financeira. E isso também interessa a quem empreende.
Uma pessoa muito endividada não deixa apenas de pagar contas. Ela reduz consumo, perde acesso ao crédito e compromete parte da renda administrando o passado. Quando consegue reorganizar sua situação financeira, parte dessa capacidade pode voltar para a economia, chegando ao comércio, aos serviços e às pequenas empresas.
Mas é importante não confundir os números. R$ 150 bilhões em dívidas renegociadas não significam R$ 150 bilhões entrando no consumo. Renegociar uma dívida melhora o balanço da família, mas não cria automaticamente renda nova.
Existe também o custo fiscal. O dinheiro usado para comprar essas carteiras é recurso público. O desconto recebido pelo devedor não desaparece economicamente. Parte da conta passa pelo Estado e, portanto, precisa ser considerada dentro das contas públicas.
Outro ponto merece atenção. Programas de renegociação podem ajudar famílias presas em dívidas que já se tornaram praticamente impagáveis. Ao mesmo tempo, quando esse tipo de programa começa a se repetir, surge um risco de incentivo. Quem paga suas contas em dia pode se perguntar por que não recebeu benefício semelhante, enquanto quem empresta pode começar a incorporar a expectativa de futuras renegociações ao preço do crédito.
Ajudar alguém a sair de uma dívida é importante. Ensinar essa pessoa a não voltar para ela é ainda mais.
Para quem se enquadrar nas regras, um desconto de 90% ou mais pode representar uma oportunidade difícil de ignorar. Eu aproveitaria a oportunidade, mas aproveitaria também para reorganizar orçamento, rever despesas, criar alguma reserva e entender o que levou aquela dívida a chegar até ali.
Porque limpar o nome resolve o passado. Não resolve automaticamente o futuro.
Cidadão, milhões de brasileiros poderão receber uma segunda chance financeira. Espero que recebam também educação financeira suficiente para não precisar de uma quarta versão do Desenrola daqui a alguns anos.
Renegociar a dívida pode desenrolar o passado. Organizar a vida financeira é o que impede o próximo nó.
Pense nisso!
























