Economia

A perda da capacidade de pagamento do brasileiro

Com inadimplência e mercado de carteira vencida que pode movimentar R$ 40 bi, o problema já não parece ser quanto o brasileiro deve, mas quanto consegue pagar

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João Kepler
Famílias brasileiras perdem capacidade de pagamento de dívidas | Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Famílias brasileiras perdem capacidade de pagamento de dívidas | Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Existe uma diferença importante entre endividamento e inadimplência.

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Ter dívida não significa necessariamente estar em dificuldade. Financiamentos, crédito e parcelamentos fazem parte da economia. A inadimplência começa quando os compromissos vencem e não são pagos. E, quando as dívidas se acumulam a ponto de a renda já não ser suficiente para honrá-las, começam a aparecer sinais de uma situação ainda mais grave: a insolvência financeira das famílias.

O Brasil está diante de um número que merece atenção. Segundo dados da Serasa, 83,9 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em julho, o maior número já registrado. É muita gente com alguma conta vencida, tentando reorganizar o orçamento e, muitas vezes, escolhendo qual compromisso financeiro conseguirá pagar primeiro.

Existe outro dado que ajuda a dimensionar o problema. A Recovery, empresa de recuperação de crédito do grupo Itaú, estima que o mercado brasileiro de venda de carteiras inadimplentes possa chegar a R$ 40 bilhões em 2026, aproximadamente 20% acima dos R$ 34 bilhões movimentados em 2025. Desconsiderando os anos excepcionais da pandemia, seria um recorde.

Mas, para mim, o dado mais preocupante não está nos R$ 40 bilhões. Está no comportamento de quem tenta pagar essas dívidas.

Há alguns anos, 35% das negociações realizadas pela Recovery eram quitadas à vista. Hoje são apenas 10%. O parcelamento passou a representar 90% dos acordos, enquanto o número médio de parcelas aumentou de seis ou sete para 11 ou 12.

Isso revela algo importante: não estamos falando apenas de pessoas que não pagam. Estamos falando de milhões de brasileiros que estão perdendo a capacidade financeira de pagar. E essa diferença é fundamental para entender o tamanho do problema.

Outro indicador reforça essa percepção. Segundo a Recovery, há quatro anos, entre 25% e 30% dos clientes presentes nas novas carteiras compradas pela empresa já apareciam em sua base de cobrança. Hoje, essa sobreposição está entre 40% e 50%. Em outras palavras, o mesmo consumidor começa a aparecer em diferentes dívidas. Antes poderia ter uma ou duas; agora pode acumular três ou quatro.

Esse cenário conversa diretamente com outro problema que venho comentando: o orçamento das famílias brasileiras está cada vez mais apertado. Juros elevados, crédito caro, aumento acumulado dos preços, comprometimento da renda e endividamento formam uma combinação difícil. Quando sobra pouco dinheiro depois das despesas essenciais, qualquer imprevisto pode transformar uma dívida administrável em inadimplência.

Por isso, também precisamos discutir a qualidade da concessão de crédito. Recentemente, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, chamou atenção para uma questão relevante: o crédito de uma instituição financeira é a dívida de alguém. Facilitar crédito pode estimular o consumo e a atividade econômica, mas concedê-lo sem avaliar adequadamente a capacidade de pagamento pode apenas empurrar o problema alguns meses para frente.

Carteiras inadimplentes

O crescimento do mercado de carteiras inadimplentes mostra exatamente essa outra ponta. Bancos, fintechs e varejistas concedem o crédito. Quando a dívida envelhece e se torna mais difícil de recuperar, essas instituições vendem as carteiras para empresas especializadas em cobrança. Ou seja, existe hoje um mercado bilionário formado justamente por dívidas que milhões de brasileiros já não conseguem pagar nas condições originalmente contratadas.

Também não podemos atribuir todo esse cenário exclusivamente à Selic. Os juros elevados dificultam renegociações, encarecem novas operações e pressionam o crédito, mas a inadimplência é resultado de vários fatores combinados: renda disponível, inflação acumulada, facilidade de acesso ao crédito, educação financeira, desemprego, comportamento de consumo e custo do dinheiro.

O que esses números mostram, no fim das contas, é uma economia funcionando com cada vez menos margem de segurança dentro das famílias.

E talvez o principal sinal não seja simplesmente que 83,9 milhões de brasileiros estão inadimplentes. O mais preocupante é perceber que, mesmo diante de descontos para quitar dívidas antigas, cada vez menos pessoas conseguem pagar à vista e precisam de quase um ano para concluir uma renegociação.

Quando o problema deixa de ser apenas ter dívidas e passa a ser não conseguir pagá-las, muda também a natureza da discussão. Não estamos mais falando somente de endividamento ou inadimplência. Estamos falando da capacidade financeira das famílias de honrar seus compromissos.

A inadimplência recorde, portanto, não é apenas uma estatística do sistema financeiro. É um retrato do orçamento das famílias brasileiras e um sinal de alerta sobre sua saúde financeira.

Crédito é importante para movimentar a economia. Consumo também. Mas existe um limite simples que nenhuma engenharia financeira consegue eliminar por muito tempo: para continuar consumindo e tomando crédito, alguém, em algum momento, precisa conseguir pagar a conta.

Pense nisso!

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