Banco Central alerta para alta da dívida e da inadimplência
Galípolo diz que prepara medidas diante do avanço do endividamento e da inadimplência mesmo com renda em alta, desemprego baixo e juros restitivos
Caio Barcellos
Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo | Divulgação/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (24) que a autoridade monetária prepara medidas para enfrentar os riscos associados ao avanço do endividamento e da inadimplência das famílias, em especial nas modalidades de crédito mais caras e sem garantias.
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“A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, questionou durante o abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo.
Na apresentação, Galípolo disse que a equipe do BC estuda medidas macroprudenciais e experiências adotadas em outros países para aproximar o risco assumido pelas instituições financeiras das exigências de provisão —os recursos que bancos e outras empresas precisam reservar para cobrir possíveis perdas.
Segundo o presidente da autarquia, a implementação deverá ocorrer de forma gradual, mas sem permitir que os problemas identificados continuem crescendo.
“É muito importante que cada instituição esteja devidamente provisionada daquilo que é o efetivo risco que ela está correndo no fornecimento daquele serviço. Ninguém quer assistir o crescimento de uma instituição no mercado a partir de uma aposta de que, se por acaso tiver algum problema ou a música parar, esse problema não vai estar no balanço dele, vai estar em algum outro lugar”, afirmou.
A apresentação de Galípolo mostrou que o endividamento das famílias equivalia a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em maio deste ano, ante 41,8% em 2020. Quando os financiamentos imobiliários são retirados da conta, a proporção passou de 25,6% para 31,1% no mesmo período. Ao mesmo tempo, a renda disponível das famílias atingiu R$ 822 bilhões em maio, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho.
Galípolo afirmou que o aumento do endividamento é uma consequência esperada quando há expansão do crédito e ressaltou que nem toda dívida representa um problema. Segundo ele, financiamentos destinados à aquisição de ativos, como um imóvel, têm características diferentes de modalidades utilizadas para financiar consumo e que não contam com bens ou outras garantias para reduzir o risco da operação.
“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu. O crédito que um banco ou uma instituição financeira dá é a dívida de alguém que tomou”, disse.
O presidente do BC afirmou que a preocupação se concentra principalmente em dívidas associadas a “consumo efêmero”, sobretudo quando contratadas a juros elevados ou por meio de linhas inadequadas ao perfil do tomador.
"O problema é você estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero e que vai virar um problema, especialmente numa taxa de juros mais elevada ou com uma linha de crédito que não é adequada", declarou no evento do setor bancário.
Segundo os dados apresentados pelo BC, as modalidades de crédito caro e com menor presença de garantias ajudam a explicar tanto o avanço do endividamento quanto o aumento da inadimplência.
O Relatório de Política Monetária de junho apontou crescimento dos atrasos no financiamento de veículos, no crédito pessoal não consignado e no consignado destinado a trabalhadores do setor privado, enquanto o Relatório de Estabilidade Financeira destacou a pressão exercida pelo cartão de crédito e pelos empréstimos pessoais sem garantia.
Consignado privado e cartão de crédito
O consignado privado foi apontado por Galípolo como o principal vetor recente da expansão do crédito às famílias. O saldo da modalidade passou de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em março deste ano, crescimento de 145%. No mesmo período de expansão, a inadimplência aumentou de 5% para 6,7%, enquanto a taxa média de juros passou de 40,9% para 57% ao ano.
O cartão também recebeu destaque na apresentação, com a informação de que, entre 2020 a 2024, 37 milhões de brasileiros passaram a utilizar essa forma de pagamento, enquanto o número de usuários que carregam dívida no rotativo ou no parcelamento com juros chegou a 52,8 milhões. O comprometimento médio da renda com gastos no cartão passou de 38,5% para 54%.
A inadimplência no rotativo, medida pela parcela do saldo em atraso, avançou de 55% para 64,5% entre janeiro e dezembro de 2025. Em junho deste ano, a taxa média do rotativo estava em 15,13% ao mês, enquanto o parcelamento com juros cobrava, em média, 9,32% ao mês.
Galípolo ressaltou que o avanço da inclusão financeira ampliou o acesso da população a diferentes serviços, mas afirmou que o próximo desafio é fazer com que esses instrumentos sejam utilizados de forma mais adequada.
“A inclusão financeira é essencial, ela ocorreu, foi um movimento muito importante. Agora é importante que a gente consiga ter o uso responsável dos serviços financeiros, que as pessoas possam conhecer melhor qual é o suitability [adequação dos produtos financeiros ao perfil e às condições de cada cliente], qual é a melhor linha adequada, como é que a gente usa de maneira adequada esses serviços que agora estão mais disponíveis”, afirmou.
Crédito sem garantia
Outro ponto de preocupação é o crédito pessoal não consignado, com crescimento de 188% no saldo desta modalidade entre março de 2020 e junho de 2026, de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões. Em maio, cerca de R$ 275 bilhões, o equivalente a 68,7% da carteira, não tinham qualquer garantia, maior proporção da série apresentada pelo BC.
A diferença também aparece no custo, com juros médios de 149,5% ao ano nos empréstimos pessoais não consignados sem garantia, ante 27,5% nas operações com algum tipo de lastro. Galípolo usou os números para destacar que, além da taxa básica de juros, o risco da operação e a existência de garantias têm peso relevante na definição do custo final do crédito.
No financiamento de veículos, em que o próprio bem serve como garantia, os juros eram menores, de 26,4% ao ano em junho. A carteira de pessoas físicas, porém, também cresceu e alcançou R$ 406 bilhões, alta de 10,6% em 12 meses, enquanto a inadimplência avançou de 4,3% em dezembro de 2024 para 6,6% em junho deste ano.
Ao encerrar a apresentação, Galípolo afirmou que reduzir esses desequilíbrios será uma das prioridades do BC no próximo período. Para ele, o comportamento recente é destoante porque o aumento das dívidas e dos atrasos ocorre apesar da melhora da renda e do emprego e de uma taxa de juros que, em condições normais, tende a desestimular novas contratações de crédito.
Banco Central alerta para alta da dívida e da inadimplência Galípolo diz que prepara medidas diante do avanço do endividamento e da inadimplência mesmo com renda em alta, desemprego baixo e juros restitivosEconomia2026-08-24T14:46:50.173ZO presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (24) que a autoridade monetária prepara medidas para enfrentar os riscos associados ao avanço do endividamento e da inadimplência das famílias, em especial nas modalidades de crédito mais caras e sem garantias. “A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, questionou durante o abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo. Na apresentação, Galípolo disse que a equipe do BC estuda medidas macroprudenciais e experiências adotadas em outros países para aproximar o risco assumido pelas instituições financeiras das exigências de provisão —os recursos que bancos e outras empresas precisam reservar para cobrir possíveis perdas. Segundo o presidente da autarquia, a implementação deverá ocorrer de forma gradual, mas sem permitir que os problemas identificados continuem crescendo. “É muito importante que cada instituição esteja devidamente provisionada daquilo que é o efetivo risco que ela está correndo no fornecimento daquele serviço. Ninguém quer assistir o crescimento de uma instituição no mercado a partir de uma aposta de que, se por acaso tiver algum problema ou a música parar, esse problema não vai estar no balanço dele, vai estar em algum outro lugar”, afirmou. A apresentação de Galípolo mostrou que o endividamento das famílias equivalia a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em maio deste ano, ante 41,8% em 2020. Quando os financiamentos imobiliários são retirados da conta, a proporção passou de 25,6% para 31,1% no mesmo período. Ao mesmo tempo, a renda disponível das famílias atingiu R$ 822 bilhões em maio, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho. Galípolo afirmou que o aumento do endividamento é uma consequência esperada quando há expansão do crédito e ressaltou que nem toda dívida representa um problema. Segundo ele, financiamentos destinados à aquisição de ativos, como um imóvel, têm características diferentes de modalidades utilizadas para financiar consumo e que não contam com bens ou outras garantias para reduzir o risco da operação. “Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu. O crédito que um banco ou uma instituição financeira dá é a dívida de alguém que tomou”, disse. O presidente do BC afirmou que a preocupação se concentra principalmente em dívidas associadas a “consumo efêmero”, sobretudo quando contratadas a juros elevados ou por meio de linhas inadequadas ao perfil do tomador. "O problema é você estar endividado com alguma coisa que não está constituindo um ativo, é um consumo efêmero e que vai virar um problema, especialmente numa taxa de juros mais elevada ou com uma linha de crédito que não é adequada", declarou no evento do setor bancário. Segundo os dados apresentados pelo BC, as modalidades de crédito caro e com menor presença de garantias ajudam a explicar tanto o avanço do endividamento quanto o aumento da inadimplência. O Relatório de Política Monetária de junho apontou crescimento dos atrasos no financiamento de veículos, no crédito pessoal não consignado e no consignado destinado a trabalhadores do setor privado, enquanto o Relatório de Estabilidade Financeira destacou a pressão exercida pelo cartão de crédito e pelos empréstimos pessoais sem garantia. Consignado privado e cartão de crédito O consignado privado foi apontado por Galípolo como o principal vetor recente da expansão do crédito às famílias. O saldo da modalidade passou de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em março deste ano, crescimento de 145%. No mesmo período de expansão, a inadimplência aumentou de 5% para 6,7%, enquanto a taxa média de juros passou de 40,9% para 57% ao ano. O cartão também recebeu destaque na apresentação, com a informação de que, entre 2020 a 2024, 37 milhões de brasileiros passaram a utilizar essa forma de pagamento, enquanto o número de usuários que carregam dívida no rotativo ou no parcelamento com juros chegou a 52,8 milhões. O comprometimento médio da renda com gastos no cartão passou de 38,5% para 54%. A inadimplência no rotativo, medida pela parcela do saldo em atraso, avançou de 55% para 64,5% entre janeiro e dezembro de 2025. Em junho deste ano, a taxa média do rotativo estava em 15,13% ao mês, enquanto o parcelamento com juros cobrava, em média, 9,32% ao mês. Galípolo ressaltou que o avanço da inclusão financeira ampliou o acesso da população a diferentes serviços, mas afirmou que o próximo desafio é fazer com que esses instrumentos sejam utilizados de forma mais adequada. “A inclusão financeira é essencial, ela ocorreu, foi um movimento muito importante. Agora é importante que a gente consiga ter o uso responsável dos serviços financeiros, que as pessoas possam conhecer melhor qual é o suitability [adequação dos produtos financeiros ao perfil e às condições de cada cliente], qual é a melhor linha adequada, como é que a gente usa de maneira adequada esses serviços que agora estão mais disponíveis”, afirmou. Crédito sem garantia Outro ponto de preocupação é o crédito pessoal não consignado, com crescimento de 188% no saldo desta modalidade entre março de 2020 e junho de 2026, de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões. Em maio, cerca de R$ 275 bilhões, o equivalente a 68,7% da carteira, não tinham qualquer garantia, maior proporção da série apresentada pelo BC. A diferença também aparece no custo, com juros médios de 149,5% ao ano nos empréstimos pessoais não consignados sem garantia, ante 27,5% nas operações com algum tipo de lastro. Galípolo usou os números para destacar que, além da taxa básica de juros, o risco da operação e a existência de garantias têm peso relevante na definição do custo final do crédito. No financiamento de veículos, em que o próprio bem serve como garantia, os juros eram menores, de 26,4% ao ano em junho. A carteira de pessoas físicas, porém, também cresceu e alcançou R$ 406 bilhões, alta de 10,6% em 12 meses, enquanto a inadimplência avançou de 4,3% em dezembro de 2024 para 6,6% em junho deste ano. Ao encerrar a apresentação, Galípolo afirmou que reduzir esses desequilíbrios será uma das prioridades do BC no próximo período. Para ele, o comportamento recente é destoante porque o aumento das dívidas e dos atrasos ocorre apesar da melhora da renda e do emprego e de uma taxa de juros que, em condições normais, tende a desestimular novas contratações de crédito.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/banco-central-alerta-para-alta-da-divida-e-da-inadimplencia