Reprodução assistida: entenda questões técnicas e afetivas
Relógios biológico e afetivo nem sempre andam juntos quando surge a vontade de ter filho
Brazil Health
Justiça confirma falha médica e garante indenização a gestante | Reprodução/TJSP
O desejo de ter filhos pode mudar prioridades nos relacionamentos ao longo do tempo. A Dra. Stephanie Majer, especialista em Reprodução Humana, explica como idade, fertilidade e projeto de família passam a influenciar também as escolhas afetivas.
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Aos 25 anos, poucas pessoas começam um primeiro encontro perguntando sobre reserva ovariana, congelamento de óvulos ou quanto tempo o outro pretende esperar para ter filhos. Aos 38, para quem deseja formar uma família, essas questões podem adquirir uma importância completamente diferente.
Isso não significa que escolhemos nossos parceiros com base na fertilidade. Amor, atração, afinidade, valores e projeto de vida continuam pertencendo a uma dimensão muito mais ampla do comportamento humano.
Mas existe uma realidade que observo na reprodução assistida: conforme o tempo passa, o desejo de ter filhos pode deixar de ser uma possibilidade distante e se transformar em uma questão concreta dentro dos relacionamentos. E é nesse momento que dois relógios, o afetivo e o biológico, nem sempre caminham na mesma velocidade.
Idade e fertilidade
A medicina reprodutiva conhece bem os efeitos da idade sobre a fertilidade feminina. A mulher nasce com seu estoque de óvulos, que diminui progressivamente ao longo da vida. Além da quantidade, a qualidade dos óvulos também se modifica com a idade, especialmente depois dos 35 anos e de maneira mais acentuada após os 40.
Por isso, adiar a maternidade não é simplesmente transferir a mesma chance de gravidez para alguns anos depois.
Ao mesmo tempo, a sociedade mudou profundamente. Mulheres estudam por mais tempo, constroem carreiras, conquistam independência financeira e formam relacionamentos estáveis mais tarde. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando imaginamos que a biologia reprodutiva mudou na mesma velocidade. E não mudou.
Essa diferença ajuda a explicar uma situação cada vez mais presente nos consultórios: mulheres que desejam ter filhos, mas ainda não encontraram um parceiro com quem queiram construir esse projeto.
Filho e relacionamento
Quando a parentalidade se torna uma prioridade, determinadas conversas tendem a acontecer mais cedo.
“Você quer ter filhos?” deixa de ser uma curiosidade sobre um futuro distante.
Para quem está próximo do limite reprodutivo e deseja uma gestação, descobrir depois de vários anos que o parceiro não quer filhos pode representar não apenas o fim de uma relação, mas a perda de um tempo biologicamente importante.
Isso não significa escolher alguém apenas porque essa pessoa deseja ser pai ou mãe. Significa reconhecer que compatibilidade também envolve projetos de vida.
Existem pessoas que não querem filhos e estão absolutamente realizadas com essa decisão. Outras consideram a parentalidade essencial. Nenhuma dessas escolhas é superior à outra. O conflito aparece quando duas pessoas desejam futuros incompatíveis e só descobrem isso tarde demais.
Mudanças nos consultórios
A reprodução assistida também acompanha as transformações dos relacionamentos.
Recebemos casais que adiaram a gravidez, mulheres que congelaram óvulos porque ainda não haviam encontrado um parceiro, pessoas que iniciaram novos relacionamentos em uma fase mais avançada da vida reprodutiva e mulheres que decidiram construir a maternidade sem um parceiro.
A tecnologia ampliou possibilidades que não existiam para gerações anteriores. O congelamento de óvulos, por exemplo, pode preservar uma possibilidade reprodutiva para o futuro, especialmente quando realizado em idades mais jovens. Mas não funciona como uma garantia de gravidez.
Da mesma maneira, a fertilização in vitro pode ajudar a superar diversas dificuldades reprodutivas, mas não elimina os efeitos da idade sobre os óvulos. A reprodução assistida ampliou o horizonte. Ela não parou o relógio biológico.
Talvez a principal contribuição da medicina reprodutiva para essa discussão não seja dizer quando alguém deve encontrar um parceiro, casar ou ter filhos. Essas decisões pertencem a cada pessoa.
Nossa função é oferecer informação para que escolhas afetivas e projetos de vida não sejam construídos sobre uma falsa percepção de tempo ilimitado.
Quem deseja ter filhos pode conversar sobre fertilidade antes de existir um problema. Pode discutir planejamento reprodutivo, conhecer as possibilidades de preservação da fertilidade e compreender que idade feminina e, em menor intensidade, idade masculina também participam das chances reprodutivas.
O amor não obedece a exames, calendários ou estatísticas. Felizmente.
Mas, quando ter filhos faz parte do projeto de vida, conhecer os limites da fertilidade permite que o tempo biológico seja considerado sem transformar a busca por um relacionamento em uma corrida contra o relógio.
A medicina não pode escolher com quem alguém vai dividir a vida. Pode, porém, ajudar para que essa escolha seja feita com mais informação e menos surpresas no futuro.
** Stephanie Majer é ginecologista e especialista em Reprodução Assistida na ENNE Clinic
Reprodução assistida: entenda questões técnicas e afetivasRelógios biológico e afetivo nem sempre andam juntos quando surge a vontade de ter filhoSaúde2026-08-24T14:24:24.410ZO desejo de ter filhos pode mudar prioridades nos relacionamentos ao longo do tempo. A Dra. Stephanie Majer, especialista em Reprodução Humana, explica como idade, fertilidade e projeto de família passam a influenciar também as escolhas afetivas. Aos 25 anos, poucas pessoas começam um primeiro encontro perguntando sobre reserva ovariana, congelamento de óvulos ou quanto tempo o outro pretende esperar para ter filhos. Aos 38, para quem deseja formar uma família, essas questões podem adquirir uma importância completamente diferente. Isso não significa que escolhemos nossos parceiros com base na fertilidade. Amor, atração, afinidade, valores e projeto de vida continuam pertencendo a uma dimensão muito mais ampla do comportamento humano. Mas existe uma realidade que observo na reprodução assistida: conforme o tempo passa, o desejo de ter filhos pode deixar de ser uma possibilidade distante e se transformar em uma questão concreta dentro dos relacionamentos. E é nesse momento que dois relógios, o afetivo e o biológico, nem sempre caminham na mesma velocidade. Idade e fertilidade A medicina reprodutiva conhece bem os efeitos da idade sobre a fertilidade feminina. A mulher nasce com seu estoque de óvulos, que diminui progressivamente ao longo da vida. Além da quantidade, a qualidade dos óvulos também se modifica com a idade, especialmente depois dos 35 anos e de maneira mais acentuada após os 40. Por isso, adiar a maternidade não é simplesmente transferir a mesma chance de gravidez para alguns anos depois. Ao mesmo tempo, a sociedade mudou profundamente. Mulheres estudam por mais tempo, constroem carreiras, conquistam independência financeira e formam relacionamentos estáveis mais tarde. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando imaginamos que a biologia reprodutiva mudou na mesma velocidade. E não mudou. Essa diferença ajuda a explicar uma situação cada vez mais presente nos consultórios: mulheres que desejam ter filhos, mas ainda não encontraram um parceiro com quem queiram construir esse projeto. Filho e relacionamento Quando a parentalidade se torna uma prioridade, determinadas conversas tendem a acontecer mais cedo. “Você quer ter filhos?” deixa de ser uma curiosidade sobre um futuro distante. Para quem está próximo do limite reprodutivo e deseja uma gestação, descobrir depois de vários anos que o parceiro não quer filhos pode representar não apenas o fim de uma relação, mas a perda de um tempo biologicamente importante. Isso não significa escolher alguém apenas porque essa pessoa deseja ser pai ou mãe. Significa reconhecer que compatibilidade também envolve projetos de vida. Existem pessoas que não querem filhos e estão absolutamente realizadas com essa decisão. Outras consideram a parentalidade essencial. Nenhuma dessas escolhas é superior à outra. O conflito aparece quando duas pessoas desejam futuros incompatíveis e só descobrem isso tarde demais. Mudanças nos consultórios A reprodução assistida também acompanha as transformações dos relacionamentos. Recebemos casais que adiaram a gravidez, mulheres que congelaram óvulos porque ainda não haviam encontrado um parceiro, pessoas que iniciaram novos relacionamentos em uma fase mais avançada da vida reprodutiva e mulheres que decidiram construir a maternidade sem um parceiro. A tecnologia ampliou possibilidades que não existiam para gerações anteriores. O congelamento de óvulos, por exemplo, pode preservar uma possibilidade reprodutiva para o futuro, especialmente quando realizado em idades mais jovens. Mas não funciona como uma garantia de gravidez. Da mesma maneira, a fertilização in vitro pode ajudar a superar diversas dificuldades reprodutivas, mas não elimina os efeitos da idade sobre os óvulos. A reprodução assistida ampliou o horizonte. Ela não parou o relógio biológico. Informação e escolhas Talvez a principal contribuição da medicina reprodutiva para essa discussão não seja dizer quando alguém deve encontrar um parceiro, casar ou ter filhos. Essas decisões pertencem a cada pessoa. Nossa função é oferecer informação para que escolhas afetivas e projetos de vida não sejam construídos sobre uma falsa percepção de tempo ilimitado. Quem deseja ter filhos pode conversar sobre fertilidade antes de existir um problema. Pode discutir planejamento reprodutivo, conhecer as possibilidades de preservação da fertilidade e compreender que idade feminina e, em menor intensidade, idade masculina também participam das chances reprodutivas. O amor não obedece a exames, calendários ou estatísticas. Felizmente. Mas, quando ter filhos faz parte do projeto de vida, conhecer os limites da fertilidade permite que o tempo biológico seja considerado sem transformar a busca por um relacionamento em uma corrida contra o relógio. A medicina não pode escolher com quem alguém vai dividir a vida. Pode, porém, ajudar para que essa escolha seja feita com mais informação e menos surpresas no futuro. ** Stephanie Majer é ginecologista e especialista em Reprodução Assistida na ENNE ClinicSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/reproducao-assistida-entenda-questoes-tecnicas-e-afetivas