Aeróbico e musculação: qual protege mais o coração? Entenda
Especialista explica qual exercício é melhor para quem já tem risco cardiovascular
Brazil Health
Qual é melhor para o coração: aeróbico ou musculação? | Reprodução
Durante décadas, quando se falava em exercício para proteger o coração, a imagem era quase automática: caminhar, correr, nadar ou pedalar. A musculação ficava associada principalmente ao ganho de força, aumento da massa muscular ou estética. Essa divisão, porém, vem perdendo sentido à medida que acumulamos evidências de que o treinamento de força também produz efeitos importantes sobre fatores diretamente relacionados às doenças cardiovasculares.
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Isso não significa que a musculação tenha substituído o exercício aeróbico ou que exista um vencedor nessa disputa. Na realidade, os dois provocam adaptações diferentes no organismo e podem se complementar. Para uma pessoa com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou outros fatores de risco, a pergunta mais interessante deixou de ser “qual deles devo fazer?” e passou a ser “qual combinação é mais adequada para mim?”.
Atividades aeróbicas envolvem grandes grupos musculares de maneira contínua e aumentam a demanda de oxigênio pelo organismo. Caminhada rápida, corrida, ciclismo e natação estão entre os exemplos mais conhecidos. Quando realizadas regularmente, melhoram a capacidade cardiorrespiratória e ajudam no controle da pressão arterial, do peso corporal e de diferentes fatores metabólicos.
Existe ainda um indicador particularmente importante: o condicionamento cardiorrespiratório. Uma baixa capacidade física está fortemente associada a maior risco de doença cardiovascular e mortalidade, enquanto melhorar o condicionamento está relacionado a melhores desfechos de saúde. Por isso, o exercício aeróbico continua ocupando uma posição central nas recomendações de prevenção cardiovascular.
Mas o coração não funciona isoladamente. O organismo que ele precisa abastecer também depende de músculos metabolicamente ativos, capazes de utilizar glicose, manter força e preservar autonomia ao longo dos anos. É aí que o treinamento de força ganha uma importância que durante muito tempo foi subestimada.
Quando fazemos musculação, não estamos treinando apenas bíceps, pernas ou costas. O músculo esquelético participa ativamente do metabolismo da glicose e da sensibilidade à insulina, e preservar massa muscular torna-se particularmente importante com o envelhecimento. O treinamento de força também pode contribuir para o controle da pressão arterial, da composição corporal e de outros fatores relacionados ao risco cardiovascular.
Isso é especialmente relevante para pessoas com diabetes ou resistência à insulina. O músculo é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose circulante, e aumentar ou preservar sua capacidade funcional ajuda o organismo a controlar melhor esse combustível.
A perda progressiva de massa e força muscular com a idade também não é apenas uma questão de mobilidade. Ela pode caminhar junto com pior saúde metabólica, maior fragilidade e redução da capacidade funcional. Portanto, pensar em prevenção cardiovascular sem pensar em musculatura tornou-se uma visão incompleta.
Então qual dos dois é melhor?
Para a maioria das pessoas, a resposta provavelmente é: os dois.
Estudos que comparam diferentes modalidades mostram que combinar exercícios aeróbicos e de força pode proporcionar benefícios complementares. Enquanto o aeróbico tem forte impacto sobre capacidade cardiorrespiratória, o treinamento resistido acrescenta estímulos importantes para força, massa muscular e metabolismo. Uma meta-análise publicada em 2025, por exemplo, encontrou melhora da aptidão cardiorrespiratória com diferentes modalidades de exercício em pessoas com doença cardiovascular, reforçando o valor de programas estruturados e individualizados.
As recomendações internacionais seguem essa lógica. De maneira geral, adultos devem acumular semanalmente atividade aeróbica moderada ou vigorosa e incluir exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Isso, porém, é uma orientação populacional. Para quem já apresenta risco cardiovascular elevado ou uma doença cardíaca estabelecida, a prescrição precisa ser individualizada.
Quem tem problema cardíaco pode fazer musculação?
Na maioria das vezes, sim, desde que haja avaliação adequada e uma prescrição compatível com a condição clínica. A antiga ideia de que pessoas com doença cardiovascular deveriam evitar exercícios de força de maneira generalizada foi sendo substituída por uma abordagem mais individualizada.
Isso não significa entrar em uma academia e começar a levantar grandes cargas sem orientação. Durante exercícios muito intensos, especialmente quando há retenção da respiração durante o esforço, podem ocorrer elevações importantes da pressão arterial. A carga, o número de repetições, os intervalos, a técnica e a progressão precisam ser ajustados ao indivíduo.
Uma pessoa com hipertensão controlada e sem doença cardiovascular estabelecida pode ter uma prescrição muito diferente daquela que sofreu um infarto recentemente, apresenta insuficiência cardíaca, determinadas arritmias ou doença coronariana sintomática. Em alguns pacientes, uma avaliação médica e, eventualmente, testes específicos são necessários antes de aumentar a intensidade do treinamento.
O exercício também precisa ser personalizado
A cardiologia fala cada vez mais em medicina personalizada, e o exercício não deveria ser exceção. Prescrever atividade física apenas dizendo “faça 150 minutos por semana” é importante como orientação geral, mas não responde a todas as necessidades de quem apresenta maior risco.
Idade, pressão arterial, diabetes, histórico de infarto ou AVC, presença de arritmias, uso de medicamentos e nível de condicionamento influenciam a maneira como o organismo responde ao esforço. Até o ponto de partida importa: para uma pessoa sedentária, caminhar regularmente pode representar um estímulo cardiovascular significativo; para alguém já condicionado, será necessário ajustar intensidade e volume para continuar obtendo adaptações.
Também é importante considerar aquilo que a pessoa consegue manter. Um programa teoricamente perfeito, mas incompatível com a rotina e as preferências do paciente, dificilmente produzirá benefícios em longo prazo. Regularidade continua sendo um dos componentes mais importantes do exercício.
Talvez, portanto, a velha pergunta sobre aeróbico ou musculação esteja ficando ultrapassada. O conhecimento atual aponta para uma estratégia mais completa: desenvolver o sistema cardiorrespiratório sem esquecer a força e a massa muscular, reduzir o tempo sedentário e adaptar intensidade e volume às condições de cada pessoa.
Para quem tem risco cardiovascular, exercício é uma das ferramentas mais poderosas de prevenção. E, assim como acontece com medicamentos, a melhor dose não é necessariamente a maior nem é igual para todos. É aquela capaz de produzir benefício, ser realizada com segurança e permanecer na rotina ao longo da vida.
** Carlos Alberto Pastore é cardiologista, professor livre-docente da FMUSP e membro da Brazil Health
Aeróbico e musculação: qual protege mais o coração? Entenda Especialista explica qual exercício é melhor para quem já tem risco cardiovascularSaúde2026-08-21T14:33:30.913ZDurante décadas, quando se falava em exercício para proteger o coração, a imagem era quase automática: caminhar, correr, nadar ou pedalar. A musculação ficava associada principalmente ao ganho de força, aumento da massa muscular ou estética. Essa divisão, porém, vem perdendo sentido à medida que acumulamos evidências de que o treinamento de força também produz efeitos importantes sobre fatores diretamente relacionados às doenças cardiovasculares. Isso não significa que a musculação tenha substituído o exercício aeróbico ou que exista um vencedor nessa disputa. Na realidade, os dois provocam adaptações diferentes no organismo e podem se complementar. Para uma pessoa com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou outros fatores de risco, a pergunta mais interessante deixou de ser “qual deles devo fazer?” e passou a ser “qual combinação é mais adequada para mim?”. O que o exercício aeróbico faz pelo coração? Atividades aeróbicas envolvem grandes grupos musculares de maneira contínua e aumentam a demanda de oxigênio pelo organismo. Caminhada rápida, corrida, ciclismo e natação estão entre os exemplos mais conhecidos. Quando realizadas regularmente, melhoram a capacidade cardiorrespiratória e ajudam no controle da pressão arterial, do peso corporal e de diferentes fatores metabólicos. Existe ainda um indicador particularmente importante: o condicionamento cardiorrespiratório. Uma baixa capacidade física está fortemente associada a maior risco de doença cardiovascular e mortalidade, enquanto melhorar o condicionamento está relacionado a melhores desfechos de saúde. Por isso, o exercício aeróbico continua ocupando uma posição central nas recomendações de prevenção cardiovascular. Mas o coração não funciona isoladamente. O organismo que ele precisa abastecer também depende de músculos metabolicamente ativos, capazes de utilizar glicose, manter força e preservar autonomia ao longo dos anos. É aí que o treinamento de força ganha uma importância que durante muito tempo foi subestimada. Musculação também é exercício para o coração Quando fazemos musculação, não estamos treinando apenas bíceps, pernas ou costas. O músculo esquelético participa ativamente do metabolismo da glicose e da sensibilidade à insulina, e preservar massa muscular torna-se particularmente importante com o envelhecimento. O treinamento de força também pode contribuir para o controle da pressão arterial, da composição corporal e de outros fatores relacionados ao risco cardiovascular. Isso é especialmente relevante para pessoas com diabetes ou resistência à insulina. O músculo é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose circulante, e aumentar ou preservar sua capacidade funcional ajuda o organismo a controlar melhor esse combustível. A perda progressiva de massa e força muscular com a idade também não é apenas uma questão de mobilidade. Ela pode caminhar junto com pior saúde metabólica, maior fragilidade e redução da capacidade funcional. Portanto, pensar em prevenção cardiovascular sem pensar em musculatura tornou-se uma visão incompleta. Então qual dos dois é melhor? Para a maioria das pessoas, a resposta provavelmente é: os dois. Estudos que comparam diferentes modalidades mostram que combinar exercícios aeróbicos e de força pode proporcionar benefícios complementares. Enquanto o aeróbico tem forte impacto sobre capacidade cardiorrespiratória, o treinamento resistido acrescenta estímulos importantes para força, massa muscular e metabolismo. Uma meta-análise publicada em 2025, por exemplo, encontrou melhora da aptidão cardiorrespiratória com diferentes modalidades de exercício em pessoas com doença cardiovascular, reforçando o valor de programas estruturados e individualizados. As recomendações internacionais seguem essa lógica. De maneira geral, adultos devem acumular semanalmente atividade aeróbica moderada ou vigorosa e incluir exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Isso, porém, é uma orientação populacional. Para quem já apresenta risco cardiovascular elevado ou uma doença cardíaca estabelecida, a prescrição precisa ser individualizada. Quem tem problema cardíaco pode fazer musculação? Na maioria das vezes, sim, desde que haja avaliação adequada e uma prescrição compatível com a condição clínica. A antiga ideia de que pessoas com doença cardiovascular deveriam evitar exercícios de força de maneira generalizada foi sendo substituída por uma abordagem mais individualizada. Isso não significa entrar em uma academia e começar a levantar grandes cargas sem orientação. Durante exercícios muito intensos, especialmente quando há retenção da respiração durante o esforço, podem ocorrer elevações importantes da pressão arterial. A carga, o número de repetições, os intervalos, a técnica e a progressão precisam ser ajustados ao indivíduo. Uma pessoa com hipertensão controlada e sem doença cardiovascular estabelecida pode ter uma prescrição muito diferente daquela que sofreu um infarto recentemente, apresenta insuficiência cardíaca, determinadas arritmias ou doença coronariana sintomática. Em alguns pacientes, uma avaliação médica e, eventualmente, testes específicos são necessários antes de aumentar a intensidade do treinamento. O exercício também precisa ser personalizado A cardiologia fala cada vez mais em medicina personalizada, e o exercício não deveria ser exceção. Prescrever atividade física apenas dizendo “faça 150 minutos por semana” é importante como orientação geral, mas não responde a todas as necessidades de quem apresenta maior risco. Idade, pressão arterial, diabetes, histórico de infarto ou AVC, presença de arritmias, uso de medicamentos e nível de condicionamento influenciam a maneira como o organismo responde ao esforço. Até o ponto de partida importa: para uma pessoa sedentária, caminhar regularmente pode representar um estímulo cardiovascular significativo; para alguém já condicionado, será necessário ajustar intensidade e volume para continuar obtendo adaptações. Também é importante considerar aquilo que a pessoa consegue manter. Um programa teoricamente perfeito, mas incompatível com a rotina e as preferências do paciente, dificilmente produzirá benefícios em longo prazo. Regularidade continua sendo um dos componentes mais importantes do exercício. Talvez, portanto, a velha pergunta sobre aeróbico ou musculação esteja ficando ultrapassada. O conhecimento atual aponta para uma estratégia mais completa: desenvolver o sistema cardiorrespiratório sem esquecer a força e a massa muscular, reduzir o tempo sedentário e adaptar intensidade e volume às condições de cada pessoa. Para quem tem risco cardiovascular, exercício é uma das ferramentas mais poderosas de prevenção. E, assim como acontece com medicamentos, a melhor dose não é necessariamente a maior nem é igual para todos. É aquela capaz de produzir benefício, ser realizada com segurança e permanecer na rotina ao longo da vida. ** Carlos Alberto Pastore é cardiologista, professor livre-docente da FMUSP e membro da Brazil HealthSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/aerobico-e-musculacao-qual-protege-mais-o-coracao-entenda