O bolso pode decidir a eleição de 2026
Pesquisas mostram perda de poder de compra e ajudam a explicar por que a disputa presidencial continua aberta

Eleições municipais de 2024 | Divulgação/Alejandro Zambrana/Secom/TSE
A eleição presidencial de 2026 pode acabar sendo decidida menos pelos grandes indicadores da economia e mais por uma conta muito mais simples: quanto dinheiro sobra no bolso do brasileiro depois de pagar supermercado, moradia, transporte, energia e dívidas.
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A distância entre a economia medida pelas estatísticas e apresentada nas narrativas e aquela percebida pelas famílias no próprio bolso começa a ocupar um espaço importante na disputa eleitoral. O Brasil chega à campanha com uma parcela expressiva da população dizendo que sua vida financeira piorou. E, na hora do voto, a percepção de cada eleitor pode pesar tanto quanto os indicadores econômicos.
Uma pesquisa Genial/Quaest registrada no TSE e divulgada em junho mostrou que 67% dos brasileiros consideravam seu poder de compra menor do que um ano antes. Apenas 13% afirmavam que ele havia aumentado. No mesmo levantamento, 69% disseram que os preços dos alimentos haviam subido nos 12 meses anteriores e 44% avaliavam que a economia havia piorado.
O Datafolha já havia capturado algo semelhante. Para 46% dos entrevistados, a situação econômica do país havia piorado, enquanto 39% acreditavam que o poder de compra dos salários ainda cairia nos meses seguintes. Ao mesmo tempo, 61% esperavam aumento da inflação.
Para quem vai ao supermercado, paga aluguel, energia, escola, plano de saúde e prestações, a referência não é apenas o índice divulgado no fim do mês. É quanto essas despesas custavam antes e quanto passaram a representar dentro da renda familiar.
É isso que eu chamo de uma espécie de inflação invisível eleitoral. Não porque a inflação não seja medida, mas porque o índice médio não consegue reproduzir exatamente a experiência de cada família. Cada uma possui sua própria cesta de consumo. Quanto maior a participação das despesas essenciais no orçamento, menor é a margem para absorver aumentos de preços, substituir produtos, adiar compras ou cortar gastos.
O problema se torna ainda mais relevante quando o orçamento já está comprometido. Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, maior proporção da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC pelo sexto mês consecutivo. A parcela com contas atrasadas ficou em 29,8%. Em outro levantamento, da CNDL e do SPC Brasil, 75,08 milhões de adultos estavam inadimplentes em julho, o equivalente a 44,75% da população adulta.
Isso ajuda a compreender também os sinais que vêm do consumo. O Índice Cielo do Varejo Ampliado mostrou queda real de 2,8% nas vendas em junho na comparação anual, o pior resultado para o mês desde a pandemia. Mesmo com crescimento nominal de 3%, descontada a inflação, o consumo recuou. Essa diferença entre movimentar mais dinheiro e conseguir comprar mais coisas também pode aparecer nas urnas.
É nesse ponto que economia e eleição começam a se encontrar.
As pesquisas mais recentes mostram Lula na liderança, mas também revelam uma disputa mais apertada em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Na Quaest divulgada em 14 de agosto, Lula apareceu com 43% e Flávio com 40%, dentro da margem de erro. No primeiro turno, eram 38% contra 31%. Poucos dias depois, a BTG/Nexus mostrou Lula com 47% e Flávio com 44% em um eventual segundo turno, novamente configurando empate técnico.
Isso torna especialmente interessante uma avaliação feita pela Eurasia sobre a eleição brasileira. A consultoria já vinha alertando que o mercado poderia estar atribuindo favoritismo excessivo a Lula e classificava a disputa como estruturalmente apertada, embora com viés favorável ao atual presidente. Entre os fatores que poderiam ajudá-lo estavam justamente a redução da inflação de alimentos e medidas capazes de elevar a renda disponível.
A lógica é simples: se a melhora dos indicadores econômicos chegar efetivamente ao bolso até a eleição, o governo poderá transformar a economia em um ativo eleitoral. Se os indicadores melhorarem, mas essa melhora não for percebida no bolso ou nas compras pelas famílias, o mesmo tema poderá se transformar em vulnerabilidade.
É por isso que acompanhar apenas desemprego, PIB, renda média ou IPCA pode ser insuficiente para compreender o comportamento eleitoral de 2026. Esses indicadores são importantes, mas existe uma variável que não aparece diretamente nas estatísticas: a distância entre a melhora registrada pelos números e aquela efetivamente percebida pelo cidadão.
E essa distância pode ser politicamente decisiva.
Um trabalhador pode estar empregado e, ainda assim, sentir que empobreceu. Pode receber um salário nominalmente maior e comprar menos. Pode ter acesso ao crédito e estar mais endividado. Pode ouvir que a inflação caiu e continuar sentindo que o carrinho do supermercado pesa mais no orçamento.
Não existe necessariamente contradição nisso. São dimensões diferentes da mesma economia: uma aparece nos indicadores; a outra, na vida cotidiana.
Para o governo, o desafio será transformar a melhora de alguns indicadores em percepção concreta de bem-estar antes da votação. Para a oposição, o espaço político estará justamente na diferença entre os números agregados e a experiência cotidiana das famílias. No fim, quem conseguir conectar sua narrativa econômica à realidade percebida pelo eleitor poderá encontrar aí uma vantagem importante na disputa.
As eleições presidenciais costumam ser explicadas por ideologia, rejeição, identificação partidária, segurança, valores e avaliação dos candidatos. Tudo isso continuará pesando em 2026.
Mas existe uma pergunta simples sendo respondida todos os dias, diante do caixa do supermercado, da fatura do cartão e das contas que vencem no fim do mês:
Meu dinheiro está comprando mais ou menos do que antes?
Em uma eleição apertada, a resposta a essa pergunta pode pesar mais do que muitos discursos de campanha.
Pense nisso!
























