Banco Central: demanda acima da oferta mantém juros altos
Gabriel Galípolo reconhece pressão do cenário externo, mas diz que ciclo de juros é explicado principalmente por fatores internos

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo | Divulgação/Raphael Ribeiro/BC
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17) que a economia brasileira permanece em pleno emprego e com a demanda em ritmo superior ao da oferta, situação que mantém pressões sobre a inflação e exige uma política monetária restritiva.
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Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo, Galípolo argumentou que apesar de o cenário internacional também ter se tornado mais adverso, o atual ciclo de juros no Brasil é explicado principalmente por fatores internos, com anos de crescimento econômico puxado sobretudo pelo consumo, que recebeu impulso da alta da renda e do crédito.
Na avaliação do presidente do BC, o avanço mais rápido da demanda em relação à oferta aparece em indicadores como as transações correntes, a inflação de bens e serviços não importáveis e o nível de emprego, sinais de uma economia aquecida que ainda exige atuação da política monetária.
“A gente está num momento de pleno emprego, com uma economia que vem crescendo com a demanda acima da oferta, e que, quando você olha para a política monetária, é óbvio que o mandato é você conseguir reequilibrar a oferta e demanda, e é por isso que a gente coloca a taxa de juros em um patamar restritivo”, declarou, no evento do setor bancário.
Ao ser questionado sobre o nível elevado dos juros brasileiros em comparação com outros países, o presidente do BC reconheceu que o ambiente externo também mudou, com governos de grandes economias disputando mais recursos no mercado internacional e grandes investimentos em áreas como inteligência artificial.
“Eu acho que tem essa visão global, mas, volto a dizer, eu acho que o que explica o ciclo da política monetária está muito mais relacionado com questões endógenas, com questões internas mesmo, como eu comentei”, argumentou.
Produtividade
Galípolo também afastou a interpretação de que os juros restritivos significam que o Brasil tenha atingido um limite permanente para crescer.
Ele disse que a economia pode avançar por períodos mais longos sem produzir inflação, caso consiga ampliar sua capacidade de oferta por meio de ganhos de produtividade.
O presidente do BC afirmou que esse será um dos principais desafios econômicos dos próximos anos, já que o aumento da produtividade permite produzir mais bens e serviços com a mesma quantidade de recursos e reduz a necessidade de sustentar o crescimento apenas pela expansão do consumo e do crédito.
Para Galípolo, a produtividade será determinante para definir se o país conseguirá manter um ciclo mais duradouro de desenvolvimento ou continuará alternando períodos de crescimento com momentos em que a oferta não acompanha a demanda e a inflação volta a limitar a expansão.
“Me parece bastante claro que deve-se avançar por esse lado da oferta, para ver como a gente consegue ter ganhos de produtividade, para que a gente tenha um ciclo sustentável de crescimento. Acho que isso vai ser determinante para a gente entender como é que vão se desdobrar os próximos anos. Se a gente vai bater num muro e ficar nesse processo de avanços e bloqueios, ou se a gente consegue um processo mais sustentável de desenvolvimento”, comentou.
No início do mês, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14% ao ano. A ata da reunião destacou sinais de desaceleração da atividade econômica, mas avaliou que o mercado de trabalho segue aquecido, as expectativas de inflação continuam acima da meta, e os riscos fiscais ainda exigem a manutenção dos juros em nível restritivo por mais tempo.
Acesso ao crédito
Galípolo também demonstrou preocupação com a forma como parte dos brasileiros passou a acessar o crédito após a ampliação da inclusão financeira.
Para ele, o aumento do número de pessoas com contas bancárias e acesso a serviços financeiros foi positivo, mas uma parcela desses novos consumidores entrou diretamente em modalidades mais caras, como cartão de crédito, rotativo e empréstimos sem garantia.
O presidente do BC comparou o comportamento brasileiro com o observado em outros países, onde consumidores endividados tendem a migrar gradualmente de linhas mais baratas e com garantias para modalidades mais caras conforme sua situação financeira se deteriora. No Brasil, segundo ele, parte dos clientes já começou sua relação com o crédito pelas linhas emergenciais.
Galípolo afirmou que há casos em que o limite do cartão é percebido pelo consumidor como uma extensão da própria renda, o que pode ampliar rapidamente o comprometimento financeiro devido às taxas de juros elevadas dessas modalidades.
Para o presidente do BC, o problema exige atenção, independentemente da fase do ciclo econômico. Ele reforça a necessidade de oferecer aos consumidores linhas de crédito compatíveis com sua capacidade financeira.
“Esse limite do cartão de crédito [está] sendo visto como uma disponibilidade de renda existir. E aí você passa a criar um efeito bola de neve, porque são taxas de juros elevadas justamente por não terem garantias, um comprometimento de rendas crescentes e isso gera uma exponencialidade. Então, esse também é um ponto que eu acho que demanda uma preocupação especial independente do momento do ciclo econômico”, concluiu.















