Banco Central: inflação exige juros altos por mais tempo
Ata do Copom aponta desaceleração da economia, mas cita mercado de trabalho aquecido, expectativas de inflação acima da meta e riscos fiscais como obstáculos
Caio Barcellos
Sede do Banco Central (BC), em Brasília | Divulgação/Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) avaliou que a inflação ainda exige juros elevados por um período prolongado, apesar dos sinais de desaceleração da economia e da redução da taxa básica de juros -a Selic- de 14,35% para 14% ao ano.
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Segundo a ata da reunião realizada em 4 e 5 de agosto, todos os integrantes do colegiado concordaram que a desancoragem das expectativas de inflação demanda uma política monetária mais restritiva e por mais tempo. O documento foi divulgado nesta terça-feira (11).
Apesar do quarto corte consecutivo, o Copom evitou antecipar os próximos movimentos e afirmou que a magnitude do ciclo será ajustada conforme a evolução do cenário. O comitê reforçou que pretende manter um nível de restrição suficiente para levar a inflação de volta à meta e que o ambiente atual exige “serenidade e cautela”.
Economia desacelera
A ata afirma que os efeitos dos juros altos sobre a atividade econômica estão se tornando mais evidentes. “Indicadores correntes apontam para desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda do produto agregado”, diz a publicação;
Para o BC, esse enfraquecimento da demanda faz parte do processo necessário para reduzir a inflação, ao diminuir o desequilíbrio entre o consumo e a capacidade de produção da economia.
Mesmo assim, a atividade ainda é considerada “resiliente”, e o mercado de trabalho continua aquecido. A taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos e, embora os rendimentos tenham desacelerado recentemente, os salários ainda avançam acima da produtividade do trabalho em termos reais.
“Os rendimentos médios desaceleraram na margem, mesmo em termos nominais, mas ainda crescem em termos reais a uma taxa superior à da produtividade do trabalho.” O Copom acrescenta que acompanha a transmissão dos níveis de ocupação para “os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”
Inflação desacelera, mas preocupação continua
O Copom reconheceu uma melhora recente da inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais recente, de junho, teve alta mensal de 0,16% e acumula avanço de 4,64% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,5% da meta de inflação -o centro é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.
No cenário de referência do BC, o IPCA deve terminar 2026 com alta de 5,1%. Para 2027, a projeção é de 3,8%. No primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante para a política monetária, a estimativa é de inflação de 3,2%, mais próxima da meta de 3%
As expectativas coletadas pelo Boletim Focus também permanecem acima da meta neste ano, embora tenham mostrado alguma melhora. No levantamento mais recente, a estimativa para o IPCA de 2026 caiu de 5,03% para 5,02%, na sexta redução semanal consecutiva, enquanto a previsão para 2027 permaneceu estável em 4,22%.
A persistência dessas expectativas é uma das principais preocupações do Copom. O comitê afirmou que, quando os agentes econômicos passam a esperar inflação mais alta por períodos prolongados, o custo para levar os preços de volta à meta tende a aumentar.
“Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos e tem debatido as possíveis causas desse movimento das expectativas”, afirma a ata.
O principal entendimento compartilhado pelos integrantes foi o de que, diante das atuais expectativas desancoradas, é necessária uma restrição monetária “maior e por mais tempo” do que seria exigido em outras circunstâncias.
Além das expectativas, o Copom avalia que os riscos para a inflação permanecem mais elevados do que o normal e com maior possibilidade de surpresas para cima. Entre os fatores citados estão uma desancoragem mais prolongada, inflação de serviços mais resistente do que o previsto, uma eventual depreciação persistente do real e estímulos à demanda que levem a economia a crescer acima de sua capacidade.
No sentido contrário, uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, uma piora mais acentuada da atividade global e novas quedas nos preços das commodities poderiam contribuir para uma inflação menor.
O cenário internacional também segue como fonte de cautela, com menção aos conflitos no Oriente Médio, à política monetária de economias avançadas e das dúvidas sobre a política econômica dos Estados Unidos como fatores que mantêm elevado o grau de incerteza e podem aumentar a volatilidade dos mercados.
BC volta a cobrar disciplina fiscal
A situação das contas públicas também voltou a aparecer entre os fatores de preocupação da autarquia presidida por Gabriel Galípolo. Segundo o Copom, uma política fiscal que estimule excessivamente a demanda pode dificultar o trabalho da política monetária no curto prazo.
Em um horizonte mais longo, dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública podem elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores e, consequentemente, os juros da economia.
“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia”, diz a ata.
A taxa de juros neutra é o nível que não estimula nem contrai a atividade econômica. Segundo o BC, uma elevação dessa taxa reduz a potência da política monetária e aumenta o custo da desinflação para a economia.
A ata também voltou a defender políticas fiscal e monetária “harmoniosas” e afirmou que as políticas econômicas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas.
“O debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, aponta o documento.
Banco Central: inflação exige juros altos por mais tempoAta do Copom aponta desaceleração da economia, mas cita mercado de trabalho aquecido, expectativas de inflação acima da meta e riscos fiscais como obstáculosEconomia2026-08-11T12:46:24.095ZO Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) avaliou que a inflação ainda exige juros elevados por um período prolongado, apesar dos sinais de desaceleração da economia e da redução da taxa básica de juros -a Selic- de 14,35% para 14% ao ano. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Segundo a ata da reunião realizada em 4 e 5 de agosto, todos os integrantes do colegiado concordaram que a desancoragem das expectativas de inflação demanda uma política monetária mais restritiva e por mais tempo. O documento foi divulgado nesta terça-feira (11). + Apesar do quarto corte consecutivo, o Copom evitou antecipar os próximos movimentos e afirmou que a magnitude do ciclo será ajustada conforme a evolução do cenário. O comitê reforçou que pretende manter um nível de restrição suficiente para levar a inflação de volta à meta e que o ambiente atual exige “serenidade e cautela”. Economia desacelera A ata afirma que os efeitos dos juros altos sobre a atividade econômica estão se tornando mais evidentes. “Indicadores correntes apontam para desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre os componentes de oferta e demanda do produto agregado”, diz a publicação; Para o BC, esse enfraquecimento da demanda faz parte do processo necessário para reduzir a inflação, ao diminuir o desequilíbrio entre o consumo e a capacidade de produção da economia. Mesmo assim, a atividade ainda é considerada “resiliente”, e o mercado de trabalho continua aquecido. A taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos e, embora os rendimentos tenham desacelerado recentemente, os salários ainda avançam acima da produtividade do trabalho em termos reais. “Os rendimentos médios desaceleraram na margem, mesmo em termos nominais, mas ainda crescem em termos reais a uma taxa superior à da produtividade do trabalho.” O Copom acrescenta que acompanha a transmissão dos níveis de ocupação para “os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia” Inflação desacelera, mas preocupação continua O Copom reconheceu uma melhora recente da inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais recente, de junho, teve alta mensal de 0,16% e acumula avanço de 4,64% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,5% da meta de inflação -o centro é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. No cenário de referência do BC, o IPCA deve terminar 2026 com alta de 5,1%. Para 2027, a projeção é de 3,8%. No primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante para a política monetária, a estimativa é de inflação de 3,2%, mais próxima da meta de 3% As expectativas coletadas pelo Boletim Focus também permanecem acima da meta neste ano, embora tenham mostrado alguma melhora. No levantamento mais recente, a estimativa para o IPCA de 2026 caiu de 5,03% para 5,02%, na sexta redução semanal consecutiva, enquanto a previsão para 2027 permaneceu estável em 4,22%. A persistência dessas expectativas é uma das principais preocupações do Copom. O comitê afirmou que, quando os agentes econômicos passam a esperar inflação mais alta por períodos prolongados, o custo para levar os preços de volta à meta tende a aumentar. “Foi ressaltado que o custo de desinflação sobre o nível de atividade ao longo do tempo é maior em ambientes com expectativas desancoradas. O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos e tem debatido as possíveis causas desse movimento das expectativas”, afirma a ata. + O principal entendimento compartilhado pelos integrantes foi o de que, diante das atuais expectativas desancoradas, é necessária uma restrição monetária “maior e por mais tempo” do que seria exigido em outras circunstâncias. Além das expectativas, o Copom avalia que os riscos para a inflação permanecem mais elevados do que o normal e com maior possibilidade de surpresas para cima. Entre os fatores citados estão uma desancoragem mais prolongada, inflação de serviços mais resistente do que o previsto, uma eventual depreciação persistente do real e estímulos à demanda que levem a economia a crescer acima de sua capacidade. No sentido contrário, uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, uma piora mais acentuada da atividade global e novas quedas nos preços das commodities poderiam contribuir para uma inflação menor. O cenário internacional também segue como fonte de cautela, com menção aos conflitos no Oriente Médio, à política monetária de economias avançadas e das dúvidas sobre a política econômica dos Estados Unidos como fatores que mantêm elevado o grau de incerteza e podem aumentar a volatilidade dos mercados. BC volta a cobrar disciplina fiscal A situação das contas públicas também voltou a aparecer entre os fatores de preocupação da autarquia presidida por Gabriel Galípolo. Segundo o Copom, uma política fiscal que estimule excessivamente a demanda pode dificultar o trabalho da política monetária no curto prazo. Em um horizonte mais longo, dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública podem elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores e, consequentemente, os juros da economia. “O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia”, diz a ata. A taxa de juros neutra é o nível que não estimula nem contrai a atividade econômica. Segundo o BC, uma elevação dessa taxa reduz a potência da política monetária e aumenta o custo da desinflação para a economia. A ata também voltou a defender políticas fiscal e monetária “harmoniosas” e afirmou que as políticas econômicas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. “O debate do Comitê reforça, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas”, aponta o documento.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/banco-central-inflacao-exige-juros-altos-por-mais-tempo
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