Galípolo: Pix virou 'patrimônio da sociedade brasileira'
Presidente do BC reage a questionamento sobre pressão dos EUA e afirma que bancos centrais estrangeiros procuram Brasil para discutir conexão entre sistemas
Caio Barcellos
Gabriel Galípolo, presidente do BC | Divulgação/Alexandre Boiczar/Banco Central
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17) que o Pix “virou um patrimônio da sociedade brasileira” ao ser questionado sobre as críticas dos Estados Unidos ao modelo e sobre os planos para ampliar sua integração com plataformas estrangeiras
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“O BC, sim, está sempre na linha de frente em defesa dele, mas ele virou um patrimônio da sociedade brasileira. É uma coisa que a sociedade defende e estão saindo cada vez mais pesquisas sobre o quanto a sociedade acredita no Pix, confia no Pix.”, afirmou durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo.
A fala ocorre em meio ao aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o sistema de pagamento brasileiro. Em julho, o governo de Donald Trump concluiu uma investigação comercial aberta um ano antes contra o Brasil e incluiu medidas relacionadas a comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos entre as práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos.
O processo, conduzido com base na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, serviu de fundamento para a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras.
O Pix apareceu especificamente nos questionamentos americanos sobre o setor de pagamentos. Entre os pontos levantados por Washington está o fato de o BC atuar tanto na regulação quanto na operação da infraestrutura do sistema, que ampliou sua participação no mercado brasileiro e reduziu espaço ocupado anteriormente por outros meios de pagamento, inclusive as redes de cartões.
Galípolo não entrou diretamente no mérito das acusações americanas durante o evento, mas fez uma defesa enfática do modelo e afirmou que o interesse pelo Pix ultrapassou as fronteiras brasileiras.
“Eu acho que é um tema que hoje foi abraçado pela sociedade brasileira como um todo [...] São poucos os casos que a gente pode contar onde países avançadíssimos falam esse é um tema que eu quero aprender com vocês, eu quero copiar no Brasil e funcionou muito bem. Eu acho que é um tema que está super consolidado, agora é uma questão de defesa e a questão de defesa passa por temas de a gente ter estrutura para a gente conseguir acompanhar todas as inovações que vão acontecer”, disse.
Lançado em 2020, o Pix alcançou quase 80 bilhões de transações em 2025, alta de 25,7% sobre o ano anterior, com movimentação superior a R$ 35 trilhões. Os pagamentos de consumidores para empresas responderam por 43% das operações no ano passado, ante 6% no primeiro ano de funcionamento do sistema.
Conexão com outros países
O BC já estuda alternativas para conectar o Pix a sistemas de pagamentos instantâneos de outros países, tanto por meio de acordos bilaterais quanto pela participação do Brasil em plataformas multilaterais que integrem diferentes redes nacionais. A ideia é permitir que remessas e pagamentos internacionais sejam liquidados de forma mais rápida, com menor custo e maior transparência sobre câmbio e tarifas.
Hoje, apesar de estabelecimentos no exterior já anunciarem pagamentos por Pix, a infraestrutura operada pelo BC continua restrita ao Brasil. O chamado “Pix internacional” disponível atualmente depende de acordos entre empresas privadas brasileiras e instituições estrangeiras, que fazem uma etapa da operação fora da rede do Pix.
Quando um brasileiro paga uma compra no exterior nesse modelo, por exemplo, o valor em reais é transferido instantaneamente para uma instituição no Brasil. A remessa ao comerciante estrangeiro ocorre depois pelos canais tradicionais de câmbio e transferências internacionais, o que pode envolver Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), tarifas ou spread cambial (diferença entre a cotação de referência da moeda e a taxa efetivamente aplicada pela instituição ao cliente).
Presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Evelyn Hockstein/Reuters - 06.08.2026
Uma conexão direta entre sistemas nacionais reduziria essa dependência de intermediários. Em vez de uma instituição receber o Pix no Brasil e depois enviar os recursos ao exterior por uma estrutura convencional, a própria rede brasileira poderia se comunicar com sistemas instantâneos de outras jurisdições, permitindo que uma compra ou remessa fosse liquidada na moeda local em poucos segundos.
“Do ponto de vista de questões internacionais, o que a gente tem assistido são procuras de instituições e bancos centrais para conseguir fazer ligações de sistemas de pagamentos”, disse.
Segundo ele, o debate guarda semelhança com o processo que levou à criação do próprio Pix. O BC chegou a avaliar que uma infraestrutura de pagamentos instantâneos poderia surgir a partir do setor privado, mas concluiu que os incentivos comerciais talvez não fossem suficientes para que as empresas bancassem sozinhas um investimento dessa dimensão.
“O Pix, inicialmente, o BC imaginava que poderia ser desenvolvido originalmente pelo setor privado. Talvez não tivesse incentivos adequados para o setor privado fazer esse tipo de investimento”, afirmou.
Galípolo ponderou, porém, que a expansão das operações internacionais também aumenta a preocupação dos bancos centrais com fiscalização, segurança e cumprimento das regras aplicadas ao sistema financeiro.
Segundo ele, novas plataformas podem trazer ganhos de eficiência, mas passam a representar um problema quando conquistam clientes por estarem submetidas a controles menos rigorosos do que os exigidos das instituições tradicionais.
O presidente do BC afirmou que empresas de pagamentos internacionais podem competir por meio de tecnologia melhor, custos menores ou serviços mais eficientes, mas não deveriam obter vantagem por aplicar procedimentos mais frágeis de identificação dos clientes ou por escapar de regras de supervisão.
Ele afirmou que essa preocupação já faz parte das conversas entre bancos centrais e instituições financeiras sobre como ampliar a integração internacional sem enfraquecer os mecanismos de controle.
Próxima agenda
Ao falar dos próximos passos da inovação financeira, Galípolo também citou o uso de novas tecnologias para reforçar a cibersegurança, a fiscalização e a supervisão das instituições, além de melhorar a escolha de produtos financeiros pelos consumidores.
O presidente do BC disse que ferramentas de inteligência artificial podem ajudar clientes a comparar investimentos e modalidades de crédito mais adequadas ao seu perfil, especialmente diante das dificuldades de educação financeira que ainda levam parte da população a contratar produtos caros ou pouco vantajosos.
Segundo ele, agentes de inteligência artificial devem ganhar espaço tanto entre investidores quanto entre bancos e instituições que concedem crédito, enquanto o BC deverá concentrar parte de sua agenda tecnológica no reforço das estruturas de segurança e supervisão do sistema financeiro.
“Há uma preocupação do ponto de vista de utilização das novas tecnologias para a cibersegurança. A gente conseguir construir toda uma rede de defesa, conseguir aprimorar supervisão, fiscalização utilizando todas essas inovações tecnológicas [...] tende a ajudar bastante”, destacou.
Galípolo: Pix virou 'patrimônio da sociedade brasileira'Presidente do BC reage a questionamento sobre pressão dos EUA e afirma que bancos centrais estrangeiros procuram Brasil para discutir conexão entre sistemasEconomia2026-08-17T16:33:26.135ZO presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17) que o ao ser questionado sobre as críticas dos Estados Unidos ao modelo e sobre os planos para ampliar sua integração com plataformas estrangeiras “O BC, sim, está sempre na linha de frente em defesa dele, mas ele virou um patrimônio da sociedade brasileira. É uma coisa que a sociedade defende e estão saindo cada vez mais pesquisas sobre o quanto a sociedade acredita no Pix, confia no Pix.”, afirmou durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo. A fala ocorre em meio ao aumento da pressão dos Estados Unidos sobre o sistema de pagamento brasileiro. Em julho, o governo de Donald Trump concluiu uma investigação comercial aberta um ano antes contra o Brasil e incluiu medidas relacionadas a comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos entre as práticas consideradas prejudiciais aos interesses americanos. O processo, conduzido com base na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, serviu de fundamento para a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras. O Pix apareceu especificamente nos questionamentos americanos sobre o setor de pagamentos. Entre os pontos levantados por Washington está o fato de o BC atuar tanto na regulação quanto na operação da infraestrutura do sistema, que ampliou sua participação no mercado brasileiro e reduziu espaço ocupado anteriormente por outros meios de pagamento, inclusive as redes de cartões. Galípolo não entrou diretamente no mérito das acusações americanas durante o evento, mas fez uma defesa enfática do modelo e afirmou que o interesse pelo Pix ultrapassou as fronteiras brasileiras. “Eu acho que é um tema que hoje foi abraçado pela sociedade brasileira como um todo [...] São poucos os casos que a gente pode contar onde países avançadíssimos falam esse é um tema que eu quero aprender com vocês, eu quero copiar no Brasil e funcionou muito bem. Eu acho que é um tema que está super consolidado, agora é uma questão de defesa e a questão de defesa passa por temas de a gente ter estrutura para a gente conseguir acompanhar todas as inovações que vão acontecer”, disse. Lançado em 2020, o Pix alcançou quase 80 bilhões de transações em 2025, alta de 25,7% sobre o ano anterior, com movimentação superior a R$ 35 trilhões. Os pagamentos de consumidores para empresas responderam por 43% das operações no ano passado, ante 6% no primeiro ano de funcionamento do sistema. Conexão com outros países O BC já estuda alternativas para , tanto por meio de acordos bilaterais quanto pela participação do Brasil em plataformas multilaterais que integrem diferentes redes nacionais. A ideia é permitir que remessas e pagamentos internacionais sejam liquidados de forma mais rápida, com menor custo e maior transparência sobre câmbio e tarifas. Hoje, apesar de estabelecimentos no exterior já anunciarem pagamentos por Pix, a infraestrutura operada pelo BC continua restrita ao Brasil. O chamado “Pix internacional” disponível atualmente depende de acordos entre empresas privadas brasileiras e instituições estrangeiras, que fazem uma etapa da operação fora da rede do Pix. Quando um brasileiro paga uma compra no exterior nesse modelo, por exemplo, o valor em reais é transferido instantaneamente para uma instituição no Brasil. A remessa ao comerciante estrangeiro ocorre depois pelos canais tradicionais de câmbio e transferências internacionais, o que pode envolver Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), tarifas ou spread cambial (diferença entre a cotação de referência da moeda e a taxa efetivamente aplicada pela instituição ao cliente). Uma conexão direta entre sistemas nacionais reduziria essa dependência de intermediários. Em vez de uma instituição receber o Pix no Brasil e depois enviar os recursos ao exterior por uma estrutura convencional, a própria rede brasileira poderia se comunicar com sistemas instantâneos de outras jurisdições, permitindo que uma compra ou remessa fosse liquidada na moeda local em poucos segundos. “Do ponto de vista de questões internacionais, o que a gente tem assistido são procuras de instituições e bancos centrais para conseguir fazer ligações de sistemas de pagamentos”, disse. Segundo ele, o debate guarda semelhança com o processo que levou à criação do próprio Pix. O BC chegou a avaliar que uma infraestrutura de pagamentos instantâneos poderia surgir a partir do setor privado, mas concluiu que os incentivos comerciais talvez não fossem suficientes para que as empresas bancassem sozinhas um investimento dessa dimensão. “O Pix, inicialmente, o BC imaginava que poderia ser desenvolvido originalmente pelo setor privado. Talvez não tivesse incentivos adequados para o setor privado fazer esse tipo de investimento”, afirmou. Galípolo ponderou, porém, que a expansão das operações internacionais também aumenta a preocupação dos bancos centrais com fiscalização, segurança e cumprimento das regras aplicadas ao sistema financeiro. Segundo ele, novas plataformas podem trazer ganhos de eficiência, mas passam a representar um problema quando conquistam clientes por estarem submetidas a controles menos rigorosos do que os exigidos das instituições tradicionais. O presidente do BC afirmou que empresas de pagamentos internacionais podem competir por meio de tecnologia melhor, custos menores ou serviços mais eficientes, mas não deveriam obter vantagem por aplicar procedimentos mais frágeis de identificação dos clientes ou por escapar de regras de supervisão. Ele afirmou que essa preocupação já faz parte das conversas entre bancos centrais e instituições financeiras sobre como ampliar a integração internacional sem enfraquecer os mecanismos de controle. Próxima agenda Ao falar dos próximos passos da inovação financeira, Galípolo também citou o uso de novas tecnologias para reforçar a cibersegurança, a fiscalização e a supervisão das instituições, além de melhorar a escolha de produtos financeiros pelos consumidores. O presidente do BC disse que ferramentas de inteligência artificial podem ajudar clientes a comparar investimentos e modalidades de crédito mais adequadas ao seu perfil, especialmente diante das dificuldades de educação financeira que ainda levam parte da população a contratar produtos caros ou pouco vantajosos. Segundo ele, agentes de inteligência artificial devem ganhar espaço tanto entre investidores quanto entre bancos e instituições que concedem crédito, enquanto o BC deverá concentrar parte de sua agenda tecnológica no reforço das estruturas de segurança e supervisão do sistema financeiro. “Há uma preocupação do ponto de vista de utilização das novas tecnologias para a cibersegurança. A gente conseguir construir toda uma rede de defesa, conseguir aprimorar supervisão, fiscalização utilizando todas essas inovações tecnológicas [...] tende a ajudar bastante”, destacou.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/galipolo-pix-virou-patrimonio-da-sociedade-brasileira