Varejo acumula meses de queda no consumo
Indicadores mostram retração real em importantes segmentos e revelam uma mudança no destino do dinheiro dos brasileiros

Varejo: segundo o órgão, houve avanço de 5% em relação a 2024 | Agência Brasil/Arquivo
De um lado, o mercado de trabalho brasileiro continua mostrando resiliência. Do outro, importantes indicadores do varejo apontam uma realidade bem mais difícil. O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), que acompanha vendas em 18 setores e utiliza modelos para isolar efeitos como mudanças no uso de cartões, dinheiro e Pix, registrou uma queda real de 3,6% em maio de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Foi a maior retração para um mês de maio desde o choque da pandemia.
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Em junho, o quadro continuou ruim. O ICVA apontou queda real de 2,8%, novamente o pior resultado para o mês desde 2020. Em julho, a sequência negativa chegou a 14 meses consecutivos de retração real, com o pior desempenho para o mês desde 2020.
Os números do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) reforçam essa percepção. Uma amostra formada pelas principais empresas do setor vem apresentando desempenho real médio negativo há meses. O indicador do IDV é construído a partir da evolução das receitas das empresas associadas e deflacionado pelo IPCA.
Não se trata de uma amostra pequena ou irrelevante. As empresas associadas ao IDV somam cerca de R$ 670 bilhões em vendas, geram aproximadamente 990 mil empregos diretos e operam 38 mil lojas, além de terem presença relevante no comércio eletrônico.
Mas existe outro lado dessa fotografia.
A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, apresenta um cenário menos negativo. Em junho, o volume de vendas do varejo cresceu 0,5% sobre maio e 2,9% sobre junho de 2025. No primeiro semestre, acumulou avanço de 1,9%.
Não significa que um indicador esteja certo e outro errado. Eles acompanham universos diferentes, utilizam metodologias distintas e, justamente por isso, ajudam a revelar algo mais importante: o consumo brasileiro não está simplesmente crescendo ou encolhendo. Ele está mudando de direção, de canal e de destino.
Para onde está indo o dinheiro?
O Brasil tem emprego, renda e consumo. Mas a relação entre essas três variáveis ficou menos direta. O que está mudando é o caminho percorrido pelo dinheiro até chegar — ou não — ao varejo formal.
A primeira transformação está no próprio mercado de trabalho. A renda hoje é produzida por uma economia muito mais plural. Temos trabalhadores com carteira assinada, MEIs, profissionais autônomos, prestadores de serviços, trabalhadores por conta própria e milhões de pessoas atuando na informalidade.
A PNAD considera como ocupada a pessoa que está trabalhando, independentemente de estar empregada formalmente, atuar por conta própria ou trabalhar na informalidade. Isso significa que uma taxa de desemprego baixa não necessariamente representa uma expansão equivalente do emprego formal.
No trimestre encerrado em abril de 2026, a taxa de informalidade estava em 37,2% da população ocupada, o equivalente a cerca de 38,1 milhões de trabalhadores. Ao mesmo tempo, o Brasil tinha aproximadamente 26 milhões de trabalhadores por conta própria.
Essa mudança importa porque renda gerada em diferentes ambientes também tende a circular por diferentes ambientes.
Uma parcela continua chegando às grandes redes. Outra circula entre pequenos negócios, prestadores de serviços e MEIs. Outra passa pela economia informal. E existe ainda uma crescente migração do orçamento das famílias da compra de produtos para serviços, experiências e plataformas digitais.
Isso ajuda a explicar por que o crescimento da renda e da ocupação não se traduz, necessariamente, na mesma proporção em vendas para as grandes empresas do varejo formal.
Mas existe outro componente ainda mais importante: a renda pode crescer sem que a renda disponível para consumo cresça na mesma velocidade.
O Banco Central mostra a dimensão desse problema. O endividamento das famílias está próximo de 50% da renda anual, enquanto uma parcela relevante da renda mensal já está comprometida com operações de crédito.
Isso significa que parte importante do dinheiro recebido pelas famílias já chega com destino definido.
Antes de virar uma televisão, um móvel, uma roupa ou qualquer outro produto, esse dinheiro precisa disputar espaço com prestações, cartão de crédito, financiamentos, juros e dívidas acumuladas. Somam-se a isso aluguel, transporte, energia, saúde, educação, alimentação e serviços que ocupam parcela relevante do orçamento.
O consumidor pode estar empregado e recebendo mais, mas continuar com pouco dinheiro efetivamente livre para decidir onde gastar.
O novo concorrente do varejo
Também surgiu um concorrente pelo orçamento das famílias que praticamente não existia nessa dimensão alguns anos atrás: as bets.
Estimativas divulgadas pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontaram que os gastos dos brasileiros com apostas online ultrapassaram R$ 30 bilhões mensais em 2026.
Esses valores precisam ser tratados como estimativas e existem divergências sobre a metodologia e a dimensão exata desse mercado. Mas o fenômeno econômico já é grande demais para ser ignorado.
Dinheiro colocado em uma plataforma de apostas é dinheiro que passa a disputar espaço com outras destinações do orçamento. Na prática, as bets passaram a concorrer pelo mesmo recurso que poderia estar indo para consumo, serviços, lazer, poupança ou pagamento de dívidas.
E isso acontece justamente quando as famílias já enfrentam elevado comprometimento de renda.
Um novo mapa do consumo brasileiro
É aqui que começa a surgir uma explicação mais ampla para essa aparente contradição.
O brasileiro não necessariamente deixou de consumir. O que mudou foi a quantidade de destinos disputando sua renda.
Parte vai para o varejo tradicional. Parte para pequenos negócios. Parte para serviços. Parte circula entre MEIs e trabalhadores autônomos. Parte vai para plataformas digitais e compras internacionais. Parte é absorvida pelo pagamento de dívidas e juros. Parte financia experiências, assinaturas e entretenimento. E uma parcela passou a disputar espaço com apostas online.
O varejo formal deixou de competir apenas com outro varejista.
Ele compete pelo share of wallet, a parcela disponível do orçamento do consumidor, com praticamente toda a economia.
Essa mudança altera a maneira como precisamos interpretar os números do consumo.
Durante décadas, crescimento do emprego, expansão da renda e aumento do consumo mantinham uma relação relativamente previsível. Mais pessoas trabalhando significavam mais renda; mais renda significava mais consumo; e mais consumo significava crescimento do varejo.
Hoje, essa sequência perdeu parte dessa linearidade.
Podemos ter simultaneamente níveis elevados de ocupação, crescimento da renda e dificuldades importantes em determinados segmentos do varejo. Não necessariamente porque o brasileiro parou de gastar, mas porque o dinheiro passou a percorrer caminhos diferentes antes de chegar às empresas tradicionais de consumo.
Existe ainda uma discussão necessária sobre políticas públicas. Programas de transferência de renda como o Bolsa Família cumprem uma função social relevante, mas seu desenho precisa reduzir eventuais incentivos à informalidade e estimular a transição para atividades formais e para o crescimento sustentável da renda.
O ponto não deveria ser simplesmente discutir se esses programas devem ou não existir. A discussão mais produtiva é como criar mecanismos para que a proteção social funcione também como uma ponte para maior formalização, produtividade e independência econômica.
O mesmo vale para as bets. Não se trata apenas de discutir arrecadação tributária ou liberdade individual. Quando bilhões de reais passam a disputar mensalmente a renda das famílias, o fenômeno ganha dimensão econômica, empresarial e social.
O varejo precisa entender o novo consumidor
A principal conclusão não é que o varejo brasileiro esteja condenado a encolher. É que o mapa do consumo mudou — e continua mudando — mais rapidamente do que muitos modelos de negócio conseguem acompanhar.
Crédito, juros, serviços, pequenos negócios, plataformas globais, informalidade, experiências, assinaturas, comércio eletrônico e bets passaram a disputar o mesmo dinheiro.
Por isso, olhar apenas para desemprego ou massa salarial deixou de ser suficiente para prever o comportamento do consumo.
Para quem administra uma empresa de varejo, a pergunta também mudou. Não basta mais perguntar quanto dinheiro o consumidor ganha. É preciso entender quanto dessa renda realmente permanece disponível, para onde ela está sendo direcionada e o que faria o consumidor escolher sua empresa entre tantos outros destinos possíveis.
O varejo formal está enfrentando um consumidor cuja renda circula por um ecossistema muito maior, mais fragmentado e mais competitivo. O problema, portanto, não é apenas um consumidor mais pressionado financeiramente. É um consumidor com muito mais alternativas para destinar cada real que recebe.
Esse é um dos movimentos estruturais mais importantes do Brasil real neste momento.
Entender para onde o dinheiro está indo pode ser tão importante quanto saber quanto dinheiro está entrando no bolso do consumidor.
E compreender essa transformação pode ser mais importante para o futuro do varejo do que simplesmente esperar pela próxima queda dos juros ou pelo próximo ciclo de crescimento da renda.

























