Turismo cresce no Brasil: quanto dinheiro chega às empresas?
Com 9,3 milhões de turistas internacionais, inovação, dados, tecnologia e criação de experiências abrem oportunidades além de hotéis, restaurantes e agências

Entardecer no arquipélago de Fernando de Noronha (PE) | Divulgação
Quando falamos em turismo, muita gente ainda pensa em hotel, companhia aérea, restaurante, agência de viagem e ponto turístico. Só que existe uma economia muito maior acontecendo ao redor de cada pessoa que viaja. O turista se hospeda, mas também compra, come, se desloca, procura entretenimento, contrata serviços, visita lojas, compra presentes, frequenta eventos e busca experiências. Em uma única viagem, ele pode movimentar dezenas de pequenos negócios.
Por isso, os números recentes do turismo brasileiro deveriam chamar a atenção de quem tem uma pequena ou média empresa, mesmo que seu negócio não seja diretamente ligado ao setor. Em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais, crescimento de 37% sobre o ano anterior. Esses visitantes deixaram US$ 7,9 bilhões no país, também um recorde.
Nos aeroportos brasileiros circularam 129,6 milhões de passageiros, sendo 101,2 milhões em voos domésticos. Segundo dados apresentados pelo Sistema CNC-Sesc-Senac, o turismo alcançou seu melhor desempenho dos últimos 14 anos e passou a representar aproximadamente 8,1% do PIB brasileiro.
O número é bom. Mas, para quem empreende, a pergunta precisa ser outra: como uma parte desse dinheiro chega ao caixa da minha empresa?
A nova agenda apresentada pela CNC para o desenvolvimento do turismo brasileiro coloca inovação, tecnologia, criatividade, mobilidade, marketing, segurança e inteligência de mercado entre os pontos necessários para aumentar a competitividade dos destinos. As propostas foram construídas com a participação de pelo menos 850 instituições e fazem parte de uma agenda entregue aos candidatos à Presidência nas eleições de 2026.
Eu faço uma leitura empresarial dessa discussão. O destino turístico não compete sozinho. Quem compete é todo o ecossistema ao redor dele. Uma cidade pode ter uma praia maravilhosa, um patrimônio histórico extraordinário ou uma grande festa regional. Mas, se o turista tem dificuldade para reservar, pagar, se deslocar, descobrir o que fazer ou simplesmente ser bem atendido, uma parte do dinheiro que poderia circular naquela região deixa de circular.
É exatamente nesse espaço que aparecem as oportunidades para as PMEs.
E inovação aqui não precisa significar realidade virtual, inteligência artificial ou investimento milionário. Para uma pequena empresa, inovar pode ser simplesmente entender melhor o visitante e facilitar a vida dele. Uma pousada pode automatizar o pré-check-in. Um restaurante pode ter cardápio em outros idiomas e reserva digital. Uma loja pode criar produtos ligados à identidade daquela região. Um guia pode transformar um passeio comum em uma experiência. Um comércio pode melhorar sua presença no Google e facilitar os meios de pagamento. Uma empresa de transporte pode integrar reserva, pagamento e atendimento pelo celular.
A transformação digital já começa, inclusive, a mudar processos básicos da hotelaria. A Ficha Nacional de Registro de Hóspedes passou para o formato digital, permitindo antecipação de dados e integração por APIs para estabelecimentos que possuem sistemas de gestão. Para hotéis e pousadas menores, existe também um módulo que dispensa a contratação de software próprio.
No fim, tecnologia boa é aquela que diminui atrito, reduz custo ou aumenta receita. O resto pode ser apenas tecnologia procurando um problema para resolver.
Outra oportunidade está em transformar aquilo que a região já possui em algo pelo qual o turista esteja disposto a pagar. Cultura, gastronomia, natureza, história e conhecimento local podem deixar de ser apenas características de uma cidade para se transformar em produtos e experiências.
Uma pequena fábrica de queijo pode vender queijo, mas também pode oferecer uma visita com degustação. Uma cafeteria pode servir café ou contar a história do produtor, explicar a origem do grão e mostrar diferentes formas de preparo. Uma propriedade rural pode vender sua produção e também receber visitantes. Uma loja de artesanato pode vender uma peça ou mostrar quem a produziu e qual história existe por trás dela. Um restaurante pode servir uma refeição ou transformar ingredientes e receitas locais em uma experiência gastronômica.
Produto disputa preço. Experiência aumenta percepção de valor
É nessa hora que turismo e economia criativa se encontram. O que já existe em uma região pode ganhar valor quando existe criatividade para transformar identidade, cultura e conhecimento em algo que o visitante queira conhecer, experimentar, compartilhar e comprar. E, quanto mais isso acontece por meio dos negócios locais, maior a possibilidade de o dinheiro do turismo permanecer naquela própria região.
Só que existe um ponto que ainda considero pouco explorado pelas pequenas empresas: dados. O turista de hoje praticamente conta o que deseja antes mesmo de chegar. Pesquisa no Google, olha avaliações, compara preços, acompanha redes sociais, faz reservas, pergunta, reclama, elogia e publica sua experiência. Há muita informação disponível para quem estiver disposto a prestar atenção.
O pequeno empresário não precisa montar um departamento de inteligência de mercado para começar. Basta observar de onde vêm seus clientes, o que compram, quanto gastam, em quais períodos aparecem, quais perguntas fazem, o que elogiam, o que criticam e, principalmente, o que procuram e ainda não encontram.
Eu começaria fazendo algumas perguntas simples. Quem está visitando minha cidade? O que essas pessoas procuram antes, durante e depois da viagem? Onde encontram dificuldade? O que minha empresa poderia oferecer para resolver isso? E como fazer esse visitante gastar mais comigo sem simplesmente aumentar o preço?
Essa última pergunta muda bastante a lógica do negócio. Porque a oportunidade do turismo não está apenas em trazer mais gente. Está também em gerar mais valor com cada pessoa que já chegou. Se o turista permanece mais tempo, consome mais serviços, compra outras experiências e encontra empresas preparadas para atendê-lo, o mesmo visitante movimenta muito mais dinheiro.
Por isso mobilidade, infraestrutura e conectividade também importam. A agenda da CNC chama atenção para integração entre modais, aviação regional e melhoria dos deslocamentos. Não adianta investir milhões para convencer alguém a visitar um destino e depois dificultar sua chegada, sua circulação ou sua permanência.
E tem outro ponto importante para as PMEs: ninguém precisa fazer tudo sozinho. A pousada indica o restaurante. O restaurante recomenda o passeio. O passeio termina na loja de produtos locais. O produtor fornece para o hotel. O motorista conhece o guia. O guia leva o visitante ao comércio. Um negócio alimenta o outro.
Em vez de dez pequenos empresários brigando separadamente pelo mesmo turista, podemos ter dez empresas participando da mesma jornada e ganhando dinheiro com o mesmo cliente. Para mim, essa é uma das formas mais simples de entender um ecossistema funcionando de verdade.
A própria agenda nacional fala em aproximar empresas, startups, universidades, governos e outros participantes desse ambiente, além de ampliar acesso a crédito, qualificação, transformação digital e utilização de dados. Tudo isso é importante. Mas nada substitui a capacidade do empresário de olhar para o movimento que está acontecendo na sua frente e encontrar uma forma de participar dele.
O turismo brasileiro está crescendo. Só que mercado crescendo não significa empresa crescendo. Existe uma distância entre uma coisa e outra. Essa distância se chama capacidade de capturar a oportunidade.
Turista circulando não é faturamento. Turista comprando é
Portanto cidadão, se milhões de pessoas estão viajando, consumindo, experimentando e gastando mais no Brasil, eu enxergo que a mensagem do turismo crescendo, é uma oportunidade para que parte desse dinheiro passe também pela minha empresa.
Porque receber mais turistas é bom para o Brasil. Transformar esses visitantes em clientes é o que faz esse crescimento chegar ao caixa das pequenas e médias empresas.
Pense nisso!

























