Endividamento das famílias bate novo recorde
Comprometimento da renda continua avançando e pressiona o consumo

Dívidas quitadas
O endividamento das famílias brasileiras voltou a renovar seu recorde histórico e reforça um dos principais desafios para a economia em 2026. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada agora em agosto pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 82% das famílias possuíam algum tipo de dívida em julho, o maior percentual desde o início da série histórica.
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O levantamento revela um cenário que combina sinais positivos e preocupações estruturais. De um lado, o programa Desenrola 2.0 contribuiu para uma leve redução da inadimplência geral, que passou de 29,9% para 29,8%, além da diminuição do tempo médio de atraso das dívidas. Por outro, cresce o número de brasileiros que assumem novos compromissos financeiros enquanto destinam uma parcela cada vez maior da renda ao pagamento dessas obrigações.
O dado que mais chama a atenção é que 19% das famílias já comprometem mais da metade da renda mensal com dívidas, o maior percentual desde março deste ano. Na prática, isso reduz a capacidade de consumo, limita investimentos familiares e diminui a margem financeira para enfrentar imprevistos.
O comportamento também revela uma mudança importante na dinâmica do crédito. Estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Em um ambiente de juros ainda elevados, muitas famílias continuam conseguindo manter os pagamentos em dia, mas fazem isso às custas de um orçamento cada vez mais apertado. O risco é que qualquer perda de renda, aumento de despesas ou desaceleração da atividade econômica transforme esse equilíbrio em inadimplência.
A pesquisa também evidencia uma desigualdade relevante. As famílias com renda de até três salários mínimos continuam sendo as mais pressionadas. Nesse grupo, o percentual de endividados chegou a 84,9%, enquanto também houve aumento das contas em atraso e do número de pessoas que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas. Já nas faixas de renda mais elevadas, embora o endividamento também tenha crescido, a inadimplência continua em trajetória de queda, indicando maior capacidade financeira para administrar o crédito.
O início do ciclo de redução da taxa Selic pode contribuir gradualmente para diminuir o custo das novas operações de crédito e facilitar renegociações. No entanto, esse efeito tende a ocorrer de forma lenta, principalmente porque boa parte das famílias já apresenta elevado comprometimento da renda.
Do ponto de vista econômico, o avanço contínuo do endividamento merece atenção porque afeta diretamente o consumo das famílias, principal componente do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Quanto maior a parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas, menor tende a ser o espaço para novas compras, investimentos e expansão da atividade econômica.
O resultado reforça que programas de renegociação ajudam a reduzir a inadimplência no curto prazo, mas a sustentabilidade financeira das famílias continuará dependendo de fatores como renda, emprego, inflação, custo do crédito e educação financeira. O desafio deixa de ser apenas renegociar dívidas e passa a ser reconstruir a capacidade de consumo sem ampliar ainda mais o nível de endividamento.
Pense Nisso!
























