Tipo de dívida acumulada pelos brasileiros acende alerta
Galípolo acerta ao dizer que a expansão do crédito aumenta o endividamento, mas juros elevados transformam uma dívida ruim em um problema ainda maior

Imagem: José Cruz/Agência Brasil
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez uma afirmação aparentemente óbvia, mas necessária, durante a abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo, nesta segunda-feira (24):
“Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu. O crédito que um banco ou uma instituição financeira dá é a dívida que alguém tomou.”
Galípolo tem razão. Não existe crédito sem dívida. Quando uma instituição financeira empresta, alguém passa a dever. Portanto, se o acesso ao crédito aumenta, é natural que o endividamento também cresça.
Mas o ponto mais importante da discussão não está apenas na quantidade de crédito concedido. Está na qualidade desse crédito, no custo cobrado e, principalmente, na finalidade para a qual o dinheiro está sendo usado.
Nem toda dívida é necessariamente ruim. Uma família que financia uma casa assume uma obrigação, mas também constrói patrimônio. Um empresário que toma crédito para comprar uma máquina, ampliar a produção ou melhorar o fluxo de caixa pode transformar aquela dívida em crescimento, produtividade e geração de empregos.
O problema aparece quando o crédito é usado para financiar aquilo que Galípolo chamou de “consumo efêmero”: supermercado, combustível, contas recorrentes ou compras que terminam antes mesmo de serem completamente pagas.
Nesse caso, a dívida permanece, mas o benefício desaparece.
É o que acontece com milhões de brasileiros que passaram a utilizar o cartão de crédito como extensão da própria renda. Segundo os números apresentados pelo presidente do Banco Central, o país possui aproximadamente 96 milhões de usuários de cartão. Desse total, 52,8 milhões carregam dívidas no crédito rotativo ou no parcelamento com juros. A taxa do rotativo chega a 15,1% ao mês.
Entre 2020 e 2024, o Brasil ganhou 37 milhões de novos usuários de cartão de crédito. Foi uma consequência da inclusão financeira promovida por ferramentas como o Pix, que levou milhões de pessoas para dentro do sistema bancário. Essa inclusão foi positiva e necessária. Porém, colocar alguém dentro do sistema financeiro não significa, automaticamente, prepará-lo para utilizar produtos financeiros complexos e caros.
O Brasil avançou rapidamente na inclusão, mas não avançou na mesma velocidade na educação financeira, na análise da capacidade de pagamento e na oferta de crédito adequado ao perfil de cada consumidor.
Crédito e juros
Galípolo também chama atenção para uma questão importante: o endividamento costuma crescer justamente quando o crédito está mais disponível e os juros básicos estão mais baixos. Ou seja, mais crédito e não juros, levou ao superendividamento. Portanto, não é correto responsabilizar exclusivamente a Selic pela quantidade de pessoas endividadas.
Entretanto, isso não significa que os juros possam ser retirados da equação.
A taxa de juros pode não ser a origem de toda dívida, mas determina a velocidade com que ela cresce e a dificuldade para sair dela. Esse é o ponto que precisa ficar claro para a população: uma coisa é explicar por que as pessoas entram no endividamento; outra é entender por que tantas não conseguem sair.
O próprio presidente do BC mostrou como a presença de garantias altera profundamente o custo do dinheiro. Enquanto determinadas linhas de crédito pessoal com garantia cobram taxas próximas de 27% ao ano, modalidades sem garantia podem ultrapassar 140% ao ano. Dos cerca de R$ 400 bilhões em crédito pessoal não consignado, aproximadamente R$ 275 bilhões não possuem garantia.
Portanto, não basta comemorar a expansão do crédito. É necessário perguntar: crédito para quem, com qual finalidade, a que custo e com qual capacidade de pagamento?
Bancos e fintechs também são responsáveis
Também não se pode transferir toda a responsabilidade para o consumidor. Os bancos, as fintechs e as instituições financeiras possuem dados, tecnologia e capacidade para saber quando uma pessoa está recebendo um limite incompatível com sua renda. Conceder crédito sem avaliar adequadamente o risco e depois atribuir o problema exclusivamente à falta de educação financeira do cliente é uma explicação conveniente, mas incompleta.
Crédito responsável exige responsabilidade dos dois lados.
O consumidor precisa compreender que limite de cartão não é renda e que parcelamento não reduz o preço: apenas empurra o pagamento para o futuro. As instituições precisam oferecer produtos adequados, analisar a capacidade real de pagamento e constituir provisões proporcionais ao risco que assumem. E o Banco Central precisa criar regras que impeçam o crescimento baseado na concessão irresponsável de crédito.
Galípolo informou que o BC estuda novas medidas prudenciais para enfrentar o problema. A intenção é fazer com que cada instituição mantenha reservas compatíveis com o risco de sua carteira, evitando que alguém cresça rapidamente na expectativa de que, se “a música parar”, o prejuízo seja transferido para outra parte do sistema.
O alerta chega em boa hora.
O Brasil não precisa fechar as portas do crédito. Precisa melhorar as portas pelas quais o crédito chega às famílias. Crédito produtivo pode gerar patrimônio, renda e desenvolvimento. Crédito caro, mal concedido e utilizado para cobrir despesas recorrentes apenas antecipa consumo e compromete o futuro.
A frase de Galípolo está correta: não podemos comemorar o crescimento do crédito e depois nos surpreender com o aumento das dívidas.
Mas eu acrescentaria outra pergunta: podemos comemorar qualquer crescimento do crédito sem analisar a qualidade, o custo e o destino desse dinheiro?
Crédito que ajuda uma pessoa a construir patrimônio pode ser solução. Crédito usado para completar a renda todos os meses, pagando juros que se multiplicam rapidamente, deixa de ser inclusão financeira.
Passa a ser apenas a inclusão de mais brasileiros em uma dívida da qual muitos não conseguirão sair.
Pense Nisso!

























