Governo prevê superávit em 2027, mas mercado vê déficit
Há uma distância relevante entre o que está previsto no orçamento para o próximo ano e o que parte do mercado acredita que será efetivamente entregue

Governo prevê contas no azul, mas mercado vê déficit em 2027 | José Cruz/Agência Brasil
Quando uma empresa gasta mais do que recebe durante muito tempo, alguma coisa precisa acontecer. Ela aumenta receita, reduz despesas, vende ativos, toma mais dívida ou combina tudo isso. Com um país, guardadas as enormes diferenças, existe uma lógica semelhante.
Por isso, considero positiva a sinalização do governo para as contas públicas de 2027. A meta fiscal prevista é de superávit primário de 0,5% do PIB, equivalente a aproximadamente R$ 73,2 bilhões. Depois de sucessivos déficits, colocar no orçamento a intenção de voltar ao azul aponta para a direção correta.
Mas existe uma diferença importante entre meta e resultado. É o mesmo que falar da Expectativa vs Realidade.
O mercado financeiro ainda não acredita que esse número será alcançado. O Prisma Fiscal de agosto, divulgado pelo próprio Ministério da Fazenda a partir das projeções de instituições do mercado, aponta uma mediana de déficit primário de R$ 55 bilhões para o Governo Central em 2027. Em julho, essa previsão era de déficit de R$ 53,9 bilhões. Ou seja, enquanto o orçamento trabalha com uma meta positiva, o mercado continua enxergando as contas no vermelho.
E algumas projeções independentes são ainda mais preocupantes. A Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado, projeta atualmente déficit de R$ 86,1 bilhões para o Governo Central em 2027, equivalente a 0,6% do PIB. Para o setor público como um todo, a estimativa é de déficit primário de 0,7% do PIB.
Então podemos dizer que o anúncio de um superávit de 0,5% é uma boa notícia?
Como direção, sim. Como resultado garantido, ainda não.
Existe ainda outra questão que precisa ser explicada. Os R$ 73,2 bilhões representam a meta fiscal pelas regras vigentes, mas nem todas as despesas entram nesse cálculo. Precatórios e determinados gastos podem ser excluídos da apuração da meta. Quando essas despesas são consideradas, o próprio governo trabalha com a possibilidade de um superávit efetivo entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, pouco acima de 0,1% do PIB.
Continuaria sendo positivo. Receita maior que despesa é melhor do que o contrário. Mas existe uma enorme diferença entre um superávit de R$ 73 bilhões e um resultado efetivo próximo de R$ 20 bilhões.
E existe um problema ainda maior: mesmo um pequeno superávit não necessariamente resolve a trajetória da dívida brasileira.
A Instituição Fiscal Independente estima que, nas condições atuais, o Brasil precisaria produzir um superávit primário em torno de 2,1% do PIB por ano para estabilizar a relação entre dívida e PIB. É mais de quatro vezes a meta de 0,5% prevista para 2027. A mesma instituição projeta a dívida bruta em 82,5% do PIB em 2026 e 86,4% em 2027.
Aqui está uma distinção importante para quem não acompanha diariamente o debate fiscal. O resultado primário considera receitas e despesas antes dos juros da dívida. Portanto, mesmo quando o governo consegue produzir um pequeno superávit primário, ainda existe uma conta enorme de juros sendo paga.
E isso interessa muito mais ao pequeno e médio empresário do que pode parecer.
Contas públicas deterioradas aumentam a percepção de risco. Uma dívida crescente pode pressionar expectativas de juros, inflação e câmbio. Juros elevados encarecem capital de giro, financiamento, antecipação de recebíveis, investimentos e o próprio crédito do consumidor. No final dessa cadeia está a PME tentando vender, financiar estoque, comprar máquinas ou simplesmente manter dinheiro suficiente no caixa.
Por isso, responsabilidade fiscal não deveria ser uma discussão apenas entre governo, economistas e mercado financeiro. Ela chega ao boleto do empresário.
Também é preciso reconhecer o outro lado. Ajustar as contas públicas não significa simplesmente cortar despesas de qualquer maneira ou aumentar impostos indefinidamente. Existem gastos essenciais do Estado, investimentos necessários e políticas públicas que precisam ser financiadas. A discussão relevante é sobre a capacidade de o país estabelecer prioridades e fazer receitas e despesas caberem de maneira sustentável no mesmo orçamento.
E talvez esse seja justamente o maior desafio.
O Brasil pode aumentar arrecadação para buscar equilíbrio. Mas, para quem empreende, existe um limite evidente nessa estratégia. Se todo ajuste fiscal terminar em mais impostos, contribuições ou aumento de carga sobre empresas e consumidores, parte do problema apenas muda de lugar.
O melhor ajuste é aquele que combina responsabilidade sobre despesas, eficiência do Estado, crescimento econômico e receitas sustentáveis, e não extraordinárias.
Portanto, vejo o número de 0,5% como uma sinalização positiva, principalmente quando comparado às projeções de déficit para 2027. Mas comemorar agora seria antecipar um resultado que ainda precisa ser construído.
Orçamento é planejamento. Execução é realidade.
Cidadão, se uma empresa apresentasse ao conselho um orçamento prometendo lucro enquanto os analistas projetassem prejuízo, ninguém deveria ignorar o orçamento. Mas também ninguém deveria considerar o lucro garantido.
É mais ou menos onde estamos. E, para tornar ainda mais difícil separar confiança, desconfiança e esperança, estamos em pleno período eleitoral. Nesse ambiente, projeções econômicas, decisões fiscais e promessas para o futuro inevitavelmente também passam pelo filtro da política e da disputa eleitoral.
O governo está dizendo que pretende colocar as contas no azul em 2027. O mercado continua dizendo que elas provavelmente terminarão no vermelho. Entre uma coisa e outra estarão arrecadação, despesas, crescimento econômico, juros e decisões políticas que ainda serão tomadas.
Para quem empreende, mais importante do que escolher agora quem está certo, meu conselho é acompanhar uma coisa muito simples: o seu próprio orçamento familiar e empresarial, sempre considerando o pior cenário possível, e não contando com o melhor.
Porque, no orçamento de uma empresa ou de um país, intenção é importante. Mas quem paga a conta é o resultado.
Pense nisso!

























