O estresse simultâneo que pressiona o varejo brasileiro
Juros altos, famílias endividadas e crédito mais difícil ajudam a explicar por que tantas empresas do setor estão enfrentando problemas

Varejistas enfrentam juros altos e consumidores mais seletivos | Reprodução/Magnific
Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, Mobly, Casa & Video, Le Biscuit, Polishop e Americanas. Nos últimos anos, algumas das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro entraram em recuperação judicial ou passaram por grandes processos de reorganização financeira. Cada empresa tem uma história diferente, mas a quantidade de casos mostra que existe algo maior acontecendo no setor. Em 2025, o Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial envolvendo 2.466 empresas, segundo a Serasa Experian. Foi o maior número da série histórica.
No varejo, o sinal de alerta continuou em 2026. Em junho, havia 986 empresas varejistas em recuperação judicial, 20,4% a mais do que um ano antes. Nas últimas semanas, dois casos chamaram atenção. A Marabraz pediu recuperação judicial com aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas, enquanto o Grupo Casas Bahia recorreu à Justiça para reorganizar um passivo de cerca de R$ 17,3 bilhões.
Por que tantas empresas do varejo estão enfrentando dificuldades ao mesmo tempo?
Uma das principais explicações está nos juros. A Selic está em 14% ao ano. Para o varejo, isso pesa dos dois lados. A empresa paga mais caro para tomar dinheiro emprestado, financiar estoques e manter a operação. Ao mesmo tempo, o consumidor também encontra crédito mais caro para comprar móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e outros produtos parcelados. Fica mais caro para a loja financiar o negócio e mais caro para o cliente financiar a compra.
Do outro lado do balcão está uma família com o orçamento cada vez mais apertado. Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a CNC, e quase 30% tinham contas em atraso. Isso não significa que o brasileiro deixou de consumir. Significa que precisa escolher mais. Depois de pagar moradia, alimentação, energia, transporte, dívidas e outras despesas, sobra menos dinheiro para uma televisão nova, um sofá, um celular ou uma reforma da casa. E hoje existem ainda muito mais coisas disputando esse mesmo dinheiro.
Ao mesmo tempo, mudou a forma de comprar. O consumidor pode entrar em uma loja, pesquisar o mesmo produto no celular e comparar preços em poucos segundos. Marketplaces, lojas digitais e plataformas internacionais aumentaram muito a concorrência.
Empresas que foram construídas com grandes lojas, estoques elevados e estruturas caras passaram a disputar clientes com negócios mais leves e digitais. Não foi a internet que criou todos os problemas do varejo, mas ela tornou muito mais difícil manter uma operação cara e pouco eficiente.
O Grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly, mostra parte dessa combinação. A empresa entrou em recuperação judicial em maio, com dívida superior a R$ 1 bilhão, em meio a juros altos, queda no consumo de bens duráveis e prejuízos acumulados. A CVLB, dona da Casa & Video e da Le Biscuit, também pediu recuperação judicial neste ano. Mas é importante fazer uma diferença: juros altos, sozinhos, não quebram uma empresa saudável. Muitas vezes, eles aceleram problemas que já estavam dentro do negócio.
Esses problemas podem ser dívida excessiva, expansão rápida demais, lojas caras, estoque errado, problemas de gestão ou demora para acompanhar as mudanças do consumidor. O caso da Americanas é diferente, porque a crise teve origem nas inconsistências contábeis bilionárias reveladas em 2023. Mas existe algo comum quando uma varejista começa a perder a confiança de bancos e fornecedores. O crédito diminui, fornecedores passam a exigir pagamentos mais rápidos, a empresa compra menos mercadoria, o estoque cai, o consumidor encontra menos produtos e as vendas diminuem. A dívida que estava no balanço começa a aparecer na prateleira.
É por isso que recuperação judicial não significa necessariamente falência. Ela existe justamente para permitir que uma empresa tente negociar suas dívidas e continue funcionando. Mas há uma diferença importante: a Justiça pode ajudar a reorganizar a dívida, mas não consegue consertar um negócio que deixou de funcionar.
O que estamos vendo hoje é uma espécie de estresse simultâneo no varejo. O dinheiro está caro para as empresas, o crédito está caro para os clientes, as famílias estão endividadas, a concorrência aumentou e o consumidor está mais cuidadoso para decidir onde gastar. Quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, empresas com dívidas altas, margens pequenas e estruturas caras sentem primeiro.
E se o problema vem de vários lados, a solução também precisa vir. O varejo precisa cuidar ao mesmo tempo da dívida, do estoque, dos custos, da margem e do cliente. Mas precisa também entrar de vez na Nova Economia. Na prática, significa parar de pensar que uma loja existe apenas para vender produtos e começar a pensar em outros negócios que podem ser criados em torno dos clientes que ela já possui.
Uma empresa pode oferecer novos serviços, fazer parcerias, criar assinaturas, desenvolver soluções financeiras, usar melhor seus canais digitais ou gerar novas receitas a partir do relacionamento que já construiu. Muitas varejistas possuem ativos valiosos que não aparecem facilmente no balanço: marca, confiança, milhões de clientes, dados, canais de venda e conhecimento sobre o comportamento do consumidor.
O que mais é possível fazer com tudo isso?
Em vez de tentar apenas vender mais produtos, é preciso descobrir quantos novos negócios podem ser construídos em torno do negócio principal.
E o pequeno varejo pode ter uma vantagem importante nessa transformação: velocidade. Uma pequena loja tem menos dinheiro e menor poder de negociação do que uma grande rede, mas consegue mudar mais rápido.
Pode testar um produto, criar um serviço, fazer uma parceria, mudar o estoque ou abandonar uma ideia que não funcionou sem precisar passar por dezenas de reuniões e aprovações. Além disso, o pequeno comerciante normalmente conhece seu cliente de perto. Sabe quem compra, o que procura e quais outros problemas aquela pessoa precisa resolver. Ser pequeno também pode significar ter menos peso para carregar quando é necessário mudar de direção.
Isso não elimina o básico. As empresas precisam diminuir dívidas caras, controlar despesas, comprar melhor e evitar dinheiro parado em estoque. Também precisam usar tecnologia e inteligência artificial para entender a demanda, definir preços, melhorar a logística e atender melhor. Não basta vender muito. É preciso fazer sobrar dinheiro depois da venda.
Durante muito tempo, abrir mais lojas, aumentar o faturamento e ganhar mercado eram vistos como grandes sinais de sucesso. Com dinheiro caro e consumidores mais seletivos, outras perguntas ganharam importância: quanto sobra no caixa? Qual é a margem? Quanto estoque está parado? Quanto custa manter cada loja aberta? E quanto retorno o dinheiro investido realmente está produzindo?
A recuperação judicial pode reorganizar a dívida. Mas quem recupera a empresa é o próprio negócio.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que tantas varejistas estão entrando em recuperação judicial. A pergunta é quantas delas conseguirão mudar antes que seja tarde e quantas ainda estão esperando o mundo voltar a ser como era antes.
Pense Nisso!

























