Israel anuncia ocupação do sul do Líbano em ofensiva contra o Hezbollah
Ministro da Defesa afirmou que moradores deslocados voltarão à região apenas quando israelenses se sentirem seguros


Camila Stucaluc
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que o Exército irá ocupar militarmente o sul do Líbano, em ofensiva contra o grupo Hezbollah. A declaração foi dada nesta terça-feira (24), durante reunião com oficiais de alto escalão das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês).
Israel e Hezbollah voltaram a trocar hostilidades no início de março, encerrando o cessar-fogo firmado em novembro de 2024. Os ataques começaram após o grupo paramilitar lançar drones contra Tel Aviv, em retaliação à operação coordenada entre Israel e Estados Unidos contra o Irã.
"As FDI irão controlar as pontes remanescentes e a zona de segurança até o rio Litani [sul do Líbano]. Os moradores que evacuaram para o norte não retornarão até que a segurança para os moradores [israelenses] seja garantida”, disse Katz, em declaração citada pela mídia israelense.
A fala ocorre um dia após o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, defender a anexação do sul do Líbano à Israel. O político afirmou que a ofensiva militar "precisa terminar com uma realidade totalmente diferente, tanto com a decisão do Hezbollah quanto com a mudança das fronteiras de Israel".
Essa não é a primeira vez que Israel mira o sul do Líbano. Além de ser alvo de repetidos ataques desde 1978, a região já foi ocupada pelas tropas israelenses entre 1982 e 2000. A chamada “zona de segurança” foi criada para expulsar guerrilheiros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que usavam a região como base para atacar Israel.
Foi durante essa ocupação que um grupo de muçulmanos xiitas, financiado pelo Irã, começou a lutar contra as tropas israelenses. Em 1985, esse grupo se uniu formalmente, denominando-se Hezbollah.
Após a retirada de Israel em 2000, o Hezbollah resistiu à pressão do governo libanês para se desarmar e continuou se fortalecendo, com apoio econômico e militar do regime iraniano. Desde então, o grupo entrou em diversos conflitos armados com Israel, muitos em defesa do Irã e de organizações pertencentes ao chamado Eixo de Resistência, como o Hamas, na Faixa de Gaza.
"As FDI continuarão operando no Líbano com força total contra o Hezbollah. O princípio é claro: onde houver terror e mísseis, não haverá casas nem moradores, e as FDI estarão lá", disse Katz.
O primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, ainda não se pronunciou sobre os comentários israelenses. Em declarações anteriores, o político condenou os ataques do Hezbollah contra Israel, dizendo que a ação fez “o Líbano entrar em uma guerra que não queria”.
"Dirijo-me a vocês hoje, com Beirute sob bombardeio assim como seus subúrbios, e nosso Sul e Bekaa. Não podemos, de forma alguma, aceitar que o Líbano volte a ser uma arena aberta para as guerras dos outros. Estamos trabalhando 24 horas por dia para acabar com esta guerra e permitir que vocês retornem para suas casas o mais rápido possível, de forma segura e digna”, disse Salam.
Ao todo, desde o início da ofensiva israelense em março, 1.039 pessoas já morreram e outras 2.876 ficaram feridas, segundo dados do Ministério da Saúde do Líbano. Além de ataques aéreos, que também atingem a capital, Beirute, os militares avançam por terra, mirando infraestruturas do Hezbollah.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.









