Trump elogia negociações com Irã, mas diz que preferência seria 'tomar o petróleo' do país
Tal medida, segundo o republicano, envolveria “tomar” a ilha de Kharg, por onde 90% do petróleo de Teerã é exportado


Camila Stucaluc
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no domingo (29) que as negociações com o Irã estão “indo bem”, mas que sua preferência é “tomar o petróleo” do país. Tal medida, segundo o republicano, envolveria “tomar” a ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, por onde 90% do petróleo de Teerã é exportado.
"Para ser honesto, minha preferência é tomar o petróleo do Irã, mas algumas pessoas estúpidas nos Estados Unidos dizem: 'por que você está fazendo isso?' Mas são pessoas estúpidas", disse Trump, em entrevista ao Financial Times. "Talvez tomemos a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções. Isso também significaria que teríamos que ficar lá [na ilha] por um tempo”, acrescentou.
Os comentários do presidente ocorrem após o envio de 10 mil soldados norte-americanos para o Oriente Médio, em meio à guerra contra o Irã. O conflito vem desencadeando uma crise econômica global por impedir a passagem de embarcações no Estreito de Ormuz — rota marítima de cerca de 20% do petróleo mundial. Nesta manhã, o preço do barril chegou a mais de US$ 116, uma alta de 58% no mês.
Ao citar uma possível ocupação na ilha de Kharg, Trump comparou a operação à Venezuela, onde Washington trabalha para controlar a indústria petrolífera depois de desestabilizar o governo com a captura do ex-ditador Nicolás Maduro. Para o republicano, “tomar” a ilha seria algo fácil. "Não acho que eles [iranianos] tenham qualquer defesa. Poderíamos tomá-la muito facilmente", disse.
Trump vem demonstrando interesse na ilha de Kharg desde meados de março, já que a região concentra cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã. Uma possível ocupação norte-americana não apenas sufocaria a economia iraniana, afetando a capacidade de Teerã de continuar no conflito, mas também poderia fornecer uma plataforma aos Estados Unidos para realizar ataques contra o continente.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.









