Israel diz que cessar-fogo no Oriente Médio não inclui Líbano
Fala contradiz o premiê do Paquistão, que ajudou a intermediar o acordo; país virou alvo de Tel Aviv após ataques lançados pelo Hezbollah


Camila Stucaluc
O gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou nesta quarta-feira (8) que o Líbano, sede do Hezbollah, não faz parte do cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos, Israel e Irã. A declaração contradiz o premiê do Paquistão, Shehbaz Sharif, que ajudou a intermediar o acordo.
“Israel apoia a decisão do presidente [Donald] Trump de suspender os ataques contra o Irã por duas semanas, desde que o Irã abra imediatamente o estreito e cesse todos os ataques contra os Estados Unidos, Israel e países da região. O cessar-fogo de duas semanas não inclui o Líbano”, disse o gabinete.
Mais cedo, Sharif havia dito que o plano de cessar-fogo acolhia todas as regiões envolvidas no conflito, incluindo o Líbano. O país vem sendo alvo de Israel desde o início de março, quando o Hezbollah lançou drones contra Tel Aviv em retaliação à operação coordenada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Desde então, as tropas israelenses atuam em todo o Líbano, incluindo na capital, Beirute. Além dos ataques aéreos, os militares avançam por terra no sul do país, visando expandir a zona de segurança. Em 24 de março, o governo israelense anunciou a ocupação militar da região.
Ao todo, desde o início da ofensiva israelense, 1.530 pessoas já morreram e outras 4.812 ficaram feridas, segundo dados do Ministério da Saúde do Líbano. O primeiro-ministro do país, Nawaf Salam, lamentou a situação, condenando os ataques do Hezbollah contra Israel. Segundo ele, “o Líbano foi arrastado para uma guerra que não queria”.
“O Líbano se tornou vítima de uma guerra cujos desfechos ou data de fim ninguém pode prever com certeza. As posições dos oficiais israelenses e as práticas de seu exército revelam objetivos de maior alcance; incluem uma grande expansão da ocupação dos territórios libaneses, rumores perigosos sobre a criação de zonas tampão ou cinturões de segurança, e o deslocamento de mais de um milhão de libaneses”, disse.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.
Na terça-feira (7), Estados Unidos, Israel e Irã aceitaram um acordo de cessar-fogo de duas semanas. A proposta, mediada pelo Paquistão, foi formalizada a menos de 1h30 do fim do ultimato dado pelo presidente norte-americano para a reabertura do Estreito de Ormuz. O republicano havia afirmado que, caso a rota não fosse reaberta, “uma civilização inteira morreria para nunca mais ser ressuscitada”.









