Polícia

“Coaches de namoro” são condenados a 17 anos por exploração sexual em SP

Evento no Morumbi em 2023 atraiu mulheres com promessas de status e dinheiro; Justiça apontou exploração, inclusive de adolescentes

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À esquerda, David Bond (Steven Mapel), líder e instrutor; Fabrício cuidava da logística | Reprodução
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A Justiça Federal condenou dois “coaches de namoro”, um norte-americano e um brasileiro, a 17 anos e seis meses de prisão por exploração sexual de mulheres durante um evento realizado em 2023 no bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo. A decisão, realizada pela 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, foi proferida nesta terça-feira (7).

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Segundo o processo, os crimes ocorreram durante um programa chamado "Millionaire Social Circle", apresentado como um curso de desenvolvimento para homens estrangeiros com dificuldades de relacionamento com mulheres.

De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), os norte-americanos Ziqiang Ke e Steven Mapel, que usavam, respectivamente, os nomes fictícios David Bond e Mike Pickupalpha, e o brasileiro Fabrício Castro promoviam eventos com convites gratuitos para mulheres, transporte pago por aplicativo e bebidas liberadas.

O objetivo seria atrair jovens para interações com alunos estrangeiros do curso, com promessas indiretas de benefícios financeiros e sociais.

Segundo a investigação, o ponto central do caso foi uma festa realizada em 26 de fevereiro de 2023. O evento foi planejado para atrair principalmente mulheres, cujas imagens eram gravadas e divulgadas nas redes sociais.

As participantes eram apresentadas como “resultados” do curso. Fabrício Castro auxiliou os norte-americanos na locação do imóvel onde ocorreu o encontro.

A denúncia aponta que havia adolescentes na festa, incluindo ao menos uma jovem de 17 anos. Segundo testemunhas, não houve controle rigoroso de idade, apesar de a organização afirmar que o evento seria restrito a maiores de 18 anos.

Na decisão, o juiz destacou que os acusados agiram de forma consciente e estruturada. Steven Mapel (David Bond) atuava como líder e instrutor, enquanto Fabrício Castro era responsável pela logística dos eventos.

Site dos coaches que venderam curso para homens | Reprodução
Site dos coaches que venderam curso para homens | Reprodução

O magistrado entendeu que houve indução das vítimas a um ambiente previamente planejado para contatos de natureza sexual. Mesmo sem pagamento direto, a promessa de vantagens e o contexto criado caracterizam exploração, segundo a sentença.

Os dois foram condenados a 17 anos e seis meses de prisão em regime fechado, além do pagamento de multa calculada com base em cinco vezes o salário mínimo vigente à época.

A Justiça determinou a manutenção da prisão preventiva do brasileiro, citando risco de fuga. Já o norte-americano, cuja última informação é de que estaria nas Filipinas, poderá recorrer em liberdade.

Um terceiro acusado, Ziqiang Ke (Mike Pickupalpha), está foragido e terá o processo analisado separadamente.

Relembre o caso

Dois “coaches de namoro” norte-americanos e um brasileiro foram indiciados pela Polícia Civil em 2023 por favorecimento da exploração sexual em um suposto curso realizado em São Paulo.

Os norte-americanos Ziqiang Ke e Steven Mapel, que usavam os nomes fictícios David Bond e Mike Pickupalpha, fazem parte do grupo Millionaire Social Circle.

A dupla prometia ensinar homens a se especializarem na conquista de mulheres. O valor do treinamento variava de R$ 60 mil a R$ 260 mil, com foco em clientes de alto poder aquisitivo em países como Colômbia, Costa Rica, Filipinas, Tailândia e Brasil.

Em fevereiro de 2023, os “instrutores de paquera” estiveram na capital paulista e promoveram uma festa com alunos. As mulheres convidadas para o evento não foram informadas de que seriam usadas como “cobaia” em um curso de conquista amorosa. As aulas eram comercializadas pela internet.

A festa virou caso de polícia depois que uma mulher de 27 anos registrou um boletim de ocorrência. Ela disse que conheceu um rapaz por um aplicativo de namoro e foi convidada para o evento. Segundo ela, quase todos os homens no local eram estrangeiros.

Uma das imagens chamando os alunos para o evento do curso em São Paulo - Reprodução
Uma das imagens chamando os alunos para o evento do curso em São Paulo - Reprodução

A Polícia Civil identificou duas menores de idade. O brasileiro, Fabricio Castro, ajudou os americanos na locação do imóvel onde foi realizado o encontro, no bairro do Morumbi. Ele também se define como coach e especialista em relacionamentos.

PF abre inquérito em março de 2023 a pedido da Embratur

Em março de 2023, a Embratur acionou a Polícia Federal para pedir uma investigação sobre o grupo. Em Brasília, o presidente da instituição na época, Marcelo Freixo, disse que esse episódio incentiva o turismo sexual. A pedido dele, a PF também passou investigar o caso.

"O Brasil tem um histórico que precisa ser enfrentado de turismo com exploração sexual. E esse é um turismo que a gente não quer", disse Freixo.

Além da investigação, a PF fez um acordo de cooperação técnica com a Embratur, para prevenir e combater a exploração sexual praticada por turistas internacionais no Brasil.

A intenção, segundo Freixo, era realizar um monitoramento permanente, junto com o Departamento de Crimes Cibernéticos da PF, para evitar o surgimento das associações criminosas.

"Isso é planejado nas redes sociais. Quando você tem um departamento bem equipado, bem profissionalizado como a Polícia Federal tem, de investigação de crime cibernético, isso facilita. Vamos trabalhar com a PF para detectar possíveis grupos que trabalham com o mesmo perfil, sendo nacionais ou internacionais, porque não nos interessa esse perfil criminoso relacionado ao turismo brasileiro", disse em entrevista ao SBT News na ocasião.

Com a repercussão do caso no Brasil, os integrantes do Millionaire Social Circle fizeram uma live em que reclamaram da repercussão e se disseram falsamente acusados de turismo sexual.

Depois que as denúncias vieram à tona, eles apagaram os vídeos da internet. Os dois saíram do país na ocasião e estariam nas Filipinas.

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