Cesta básica já consome mais da metade do salário
Alta dos alimentos mantém pressão sobre o orçamento das famílias; valor médio da cesta chega a R$ 779,95 nas capitais brasileiras

Cesta básica já compromete mais da metade do salário mínimo líquido dos trabalhadores brasileiros | Reprodução/Agência Brasil
A alimentação continua pesando cada vez mais no bolso dos brasileiros. Dados mais recentes da cesta básica mostram que o conjunto de alimentos essenciais já consome, em média, 52% do salário mínimo líquido do trabalhador. Em outras palavras, mais da metade da renda mensal é destinada apenas à compra dos itens básicos de alimentação.
O aumento acompanha a pressão da inflação sobre os alimentos. Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador oficial da inflação, o grupo Alimentos e Bebidas acumulou alta de 3,82% nos últimos 12 meses, reduzindo o poder de compra das famílias e tornando a cesta básica ainda menos acessível.
Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o valor médio da cesta básica nas 27 capitais brasileiras chegou a R$ 779,95 em junho de 2026, alta de 8,69% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Na prática, isso significa que um trabalhador que recebe um salário mínimo precisa dedicar, em média, 105 horas e 51 minutos de trabalho por mês apenas para comprar a cesta básica, considerando uma jornada de oito horas diárias em escala de trabalho 5x2.
A situação é ainda mais crítica em algumas capitais. São Paulo registrou a cesta básica mais cara do país, com preço médio de R$ 965,47, um aumento de 9,37% em doze meses. Na capital paulista, a compra da cesta consome cerca de 64% do salário mínimo líquido e exige 131 horas de trabalho, o equivalente a mais de 16 dias úteis de uma jornada de oito horas.
Na sequência aparecem Cuiabá, Rio de Janeiro, Florianópolis e Porto Alegre entre as capitais onde o trabalhador precisa dedicar mais tempo para adquirir os alimentos básicos.
Embora São Paulo tenha o maior preço absoluto, Cuiabá apresentou a maior alta anual, com avanço de 14,71% no valor da cesta básica. Na direção oposta, São Luís foi a única capital a registrar pequena redução nos preços, enquanto Aracaju manteve a cesta básica mais barata do país, com custo médio de R$ 630,40.
Os dados também reforçam o descompasso entre o custo de vida e a renda dos brasileiros. Com base no preço da cesta básica e nas despesas essenciais de uma família de quatro pessoas, Conab e Dieese estimam que o salário mínimo necessário deveria ser de R$ 8.110,92, aproximadamente cinco vezes superior ao piso nacional vigente de R$ 1.621.
O valor também está muito acima do rendimento médio do trabalhador brasileiro. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, o rendimento médio das pessoas ocupadas é de R$ 3.726, menos da metade do salário considerado necessário pelas instituições.
Os números evidenciam que, embora indicadores macroeconômicos apontem desaceleração da inflação em alguns segmentos, os alimentos continuam sendo um dos principais fatores de pressão sobre o orçamento doméstico. Para milhões de famílias brasileiras, a cesta básica deixou de representar apenas um conjunto de produtos essenciais e passou a ser um indicador concreto da perda do poder de compra e do desafio de equilibrar as contas no fim do mês.
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