Brasileiros empreendem mais, mas informalidade é desafio
Tecnologia e autonomia impulsionam o empreendedorismo, enquanto milhões de brasileiros ainda atuam sem CNPJ e proteção previdenciária

Empreendedorismo cresce no Brasil, mas a maioria dos donos de pequenos negócios ainda atua sem CNPJ | Reprodução/Magnific
Os brasileiros estão mudando a forma de trabalhar. Durante décadas, conquistar uma carteira assinada era sinônimo de estabilidade e segurança financeira. Hoje, cada vez mais pessoas enxergam no próprio negócio uma oportunidade de aumentar a renda, conquistar autonomia e construir patrimônio. A tecnologia acelerou essa transformação ao reduzir drasticamente as barreiras para empreender. Em muitos casos, basta um celular conectado à internet para vender produtos, prestar serviços e encontrar clientes.
Esse movimento tem impulsionado o empreendedorismo em todo o país, mas também evidencia um desafio importante: a elevada informalidade. Segundo levantamento do Sebrae, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do IBGE, o Brasil possui aproximadamente 30,4 milhões de empreendedores, dos quais cerca de 20 milhões atuam sem CNPJ, o equivalente a dois em cada três donos de negócios.
A informalidade está fortemente concentrada no setor de serviços, responsável por 42,1% dos empreendedores sem registro. Em seguida aparecem o comércio e a construção civil, ambos com 16,7%, a agropecuária com 16,1% e a indústria com apenas 8,4%, segmento em que a formalização costuma ser mais comum por exigências regulatórias e operacionais.
Na minha avaliação, esse movimento vai muito além de uma simples mudança no mercado de trabalho. Estamos diante de uma transformação estrutural na forma como os brasileiros geram renda. A economia digital democratizou o empreendedorismo. Hoje qualquer pessoa pode transformar conhecimento, habilidade ou experiência em receita utilizando plataformas digitais, redes sociais e aplicativos. O emprego formal deixou de ser o único caminho para construir independência financeira.
Ao mesmo tempo, existem razões econômicas que ajudam a explicar por que tantos empreendedores permanecem informais. O Microempreendedor Individual (MEI), principal porta de entrada para a formalização, exige uma contribuição mensal que pode representar cerca de 4% da renda dos empreendedores de menor faturamento. Para quem está iniciando ou possui receita instável, esse custo ainda é percebido como um obstáculo, tornando mais atrativo permanecer sem registro.
Outro dado relevante é que a renda dos empreendedores informais também vem crescendo. Nos últimos cinco anos, o rendimento médio desse grupo aumentou cerca de 20%, reforçando a percepção de que é possível viver do próprio negócio mesmo sem formalização.
No entanto, quando se observa o longo prazo, a diferença entre formalidade e informalidade fica evidente. O mesmo levantamento do Sebrae mostra que os empreendedores com CNPJ possuem rendimento médio mensal de R$ 6.117, enquanto aqueles que permanecem informais recebem, em média, R$ 2.115. Em outras palavras, quem formaliza o negócio ganha, em média, quase três vezes mais do que quem permanece na informalidade.
Essa diferença não acontece apenas pelo pagamento de impostos ou pela existência de um CNPJ. A formalização amplia o acesso ao crédito, permite negociar com grandes empresas, participar de licitações, buscar investidores, emitir notas fiscais e construir uma operação capaz de crescer de forma sustentável. O CNPJ deixa de ser apenas uma obrigação burocrática para se tornar um ativo estratégico para o negócio.
Existe ainda uma outra consequência. Cerca de oito em cada dez empreendedores informais não contribuem para a Previdência Social. Na prática, isso significa abrir mão de benefícios como aposentadoria, auxílio por incapacidade, salário-maternidade e pensão por morte, aumentando a vulnerabilidade financeira dessas famílias ao longo da vida.
O crescimento do empreendedorismo é uma excelente notícia para a economia brasileira. Pessoas empreendendo significam mais inovação, geração de renda e criação de oportunidades. O desafio agora não é convencer os brasileiros a empreender, mas criar condições para que milhões desses pequenos negócios consigam dar o próximo passo. Tornar a formalização mais simples, menos onerosa e mais vantajosa será fundamental para transformar trabalhadores por conta própria em empresas mais produtivas, mais competitivas e capazes de gerar riqueza de forma sustentável.
Pense Nisso!

























