Intenção de consumo das famílias tem maior nível desde 2015
Pesquisa mostra recuperação da disposição para consumir, enquanto consumidores seguem preocupados com emprego, renda e juros elevados

Compra com cartão de crédito | Pexels
A confiança do consumidor brasileiro voltou a apresentar sinais de recuperação. A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), indicador calculado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), alcançou 105,6 pontos em julho de 2026, o maior nível registrado desde março de 2015. O resultado representa avanço de 0,1% em relação a junho e crescimento de 2,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.
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O principal fator por trás desse desempenho foi a retomada da intenção de compra de bens duráveis, como automóveis, eletrodomésticos, móveis e eletrônicos. A disposição para adquirir esses produtos cresceu 20% em relação a julho de 2025. O movimento, no entanto, não indica necessariamente uma forte expansão do consumo, mas sim a retomada de compras que haviam sido adiadas durante o período de inflação mais elevada e perda do poder de compra das famílias.
O destaque da pesquisa está justamente entre as famílias de menor renda. Os domicílios com rendimento de até dez salários mínimos foram os principais responsáveis pela alta do índice. A combinação entre a desaceleração da inflação em algumas categorias de produtos e uma percepção ligeiramente melhor sobre as condições de financiamento levou parte desses consumidores a aproveitar oportunidades para substituir bens que estavam com a compra represada. Trata-se mais de uma normalização do consumo do que de um novo ciclo de forte crescimento da demanda.
A desaceleração dos preços dos bens duráveis contribuiu para esse movimento. Enquanto a inflação acumulada dessa categoria ficou em apenas 0,78% nos últimos doze meses, abaixo da inflação geral medida pelo IPCA, muitos consumidores voltaram a considerar viável realizar compras de maior valor que haviam sido postergadas.
Outro fator que influenciou o resultado foi uma melhora relativa na percepção de acesso ao crédito. O indicador avançou 0,8% em julho e acumula alta de 7,4% em doze meses, sinalizando que parte das famílias enxerga maior possibilidade de financiar compras, ainda que o crédito continue caro em razão dos juros elevados. Ao mesmo tempo, a perspectiva de consumo subiu para 108,6 pontos, indicando que os consumidores estão mais dispostos a realizar compras adiadas, sem que isso represente necessariamente uma visão mais otimista sobre a economia no longo prazo.
Apesar da melhora na intenção de consumo, a pesquisa também revela um consumidor mais prudente. A percepção sobre o emprego atual permanece positiva, com 42,2% dos entrevistados afirmando sentir segurança em suas ocupações. Em contrapartida, as expectativas em relação ao futuro profissional continuam se deteriorando.
O indicador de perspectiva profissional caiu pelo terceiro mês consecutivo e atingiu o menor nível desde novembro de 2022. Ao mesmo tempo, a percepção sobre a renda atual apresentou leve recuo, acompanhando a desaceleração do rendimento médio real observada pela PNAD Contínua. Esse contraste mostra que o consumidor enxerga estabilidade no presente, mas mantém cautela em relação aos próximos meses.
Na prática, os brasileiros demonstram um comportamento mais racional. Aproveitam um momento mais favorável para realizar compras importantes que estavam represadas, mas continuam evitando comprometer excessivamente o orçamento diante das incertezas relacionadas ao mercado de trabalho, à renda e ao custo do crédito.
Para o comércio, o resultado representa um sinal positivo, especialmente para os setores de bens duráveis, que costumam reagir primeiro quando há melhora nas condições de consumo. No entanto, os dados sugerem que essa recuperação ainda ocorre de forma gradual e seletiva, distante de um cenário de consumo generalizado.
Mais do que um retorno ao consumo impulsivo, a pesquisa indica que as famílias brasileiras continuam fazendo escolhas criteriosas. A intenção de comprar aumentou, mas permanece acompanhada de cautela, refletindo um consumidor que busca aproveitar oportunidades sem perder de vista as incertezas econômicas que ainda fazem parte do cenário brasileiro.
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