Brasileiro não deixou de consumir, mudou a forma de gastar
Pesquisa mostra queda no volume de vendas em 70% das categorias de bens de consumo e revela como inflação e endividamento mudaram as escolhas das famílias

Brasileiros estão mais seletivos na hora de fazer compras | Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Os indicadores de confiança do consumidor mostram melhora em 2026, mas isso não significa que o brasileiro voltou a consumir como antes. Um estudo inédito da NielsenIQ revela que a queda no volume de vendas já atinge 70% das categorias de bens de consumo não duráveis (FMCG), indicando uma mudança mais profunda na forma como as famílias administram o orçamento.
Segundo o levantamento Full View 2026, essa desaceleração não é resultado de um único fator, mas da combinação de cinco grandes forças que estão redesenhando o consumo no país: inflação dos alimentos, elevado endividamento das famílias, novas estratégias de economia, crescimento do comércio eletrônico e o surgimento de novos gastos que passaram a disputar espaço no orçamento doméstico.
O movimento vem ganhando intensidade nos últimos anos. Em 2024, apenas 20% das categorias registravam retração nas vendas em volume. Em 2025, esse percentual saltou para 50%. Agora, no primeiro trimestre de 2026, já alcança 70%, demonstrando que a mudança deixou de ser pontual para se tornar uma tendência de consumo.
A inflação dos alimentos continua sendo um dos principais fatores de pressão sobre as famílias. Entre 2019 e 2025, o preço do café acumulou alta de 248%, enquanto óleo e azeite subiram 118% e o arroz avançou 78%. Não por acaso, mais de um terço dos brasileiros afirma que o aumento dos preços dos alimentos continua entre suas maiores preocupações.
Ao mesmo tempo, o endividamento elevado e os juros ainda restritivos limitam a capacidade de consumo. Embora o mercado de trabalho tenha apresentado melhora nos últimos anos, boa parte das novas vagas foi criada em faixas salariais menores, reduzindo o impacto positivo da renda sobre o consumo.
Diante desse cenário, o consumidor brasileiro mudou sua estratégia de compra. Segundo a pesquisa, 80% das famílias passaram a planejar previamente suas compras, 66% procuram alternativas mais baratas, 45% escolhem o menor preço independentemente da marca e 40% monitoram cuidadosamente o valor total da cesta antes de finalizar a compra.
Essa mudança também aparece na frequência de consumo. Quase metade das categorias perdeu presença dentro dos lares brasileiros e 60% registraram redução na frequência de compra. Ou seja, o consumidor continua comprando, mas faz isso com menos frequência, compara mais preços e prioriza apenas aquilo que considera essencial.
Outra transformação importante ocorre na forma como os brasileiros distribuem seus gastos. Mais de 40% afirmam que pretendem reduzir despesas com alimentação e lazer fora de casa nos próximos meses. Em contrapartida, aumentou o consumo de alimentos preparados dentro do próprio lar, refletindo uma busca constante por economia.
O estudo também mostra que o comércio eletrônico deixou de ser apenas um canal complementar e passou a ocupar papel central nas decisões de compra. As vendas online de bens de consumo cresceram 34%, movimentando R$ 17,2 bilhões. Hoje, 88% dos consumidores já compram produtos de consumo rápido pela internet, enquanto quase metade afirma escolher esse canal principalmente pelos preços mais competitivos.
Além das despesas tradicionais, novas categorias passaram a disputar espaço no orçamento das famílias. Gastos com medicamentos à base de GLP-1, utilizados principalmente para tratamento da obesidade e diabetes, e despesas com plataformas de apostas esportivas aparecem entre os fatores que reduzem a parcela da renda disponível para o consumo tradicional.
Os dados ajudam a explicar por que alguns indicadores de confiança apresentam melhora enquanto parte do varejo continua enfrentando dificuldades. O consumidor brasileiro não deixou de consumir. Ele apenas passou a consumir de forma muito mais criteriosa, planejada e seletiva.
Para as pequenas e médias empresas, o estudo traz um alerta importante. Em um cenário de consumidor mais seletivo, competir apenas por preço tende a ser cada vez mais difícil. As PMEs precisarão investir em diferenciação, eficiência operacional, experiência do cliente e uso inteligente de dados para entender melhor os novos hábitos de consumo.
Também ganham relevância estratégias como fortalecimento dos canais digitais, presença no e-commerce, programas de fidelização, ofertas personalizadas e uma gestão mais rigorosa do fluxo de caixa e dos estoques. Em um mercado onde o consumidor pesquisa mais, compara mais e compra com mais critério, vence quem consegue entregar mais valor percebido, e não necessariamente o menor preço.
Pense Nisso!

























