Eleições

Análise: Cai a imagem de moderado de Flávio Bolsonaro

Discurso após a derrota para Lula expôs os limites da tentativa de apresentar o senador como uma versão mais equilibrada do bolsonarismo

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Túlio Amâncio
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fala à imprensa após votar com a esposa, Fernanda, no Rio de Janeiro | Reprodução/SBT News

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fala à imprensa após votar com a esposa, Fernanda, no Rio de Janeiro | Reprodução/SBT News

A imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) caiu assim que a derrota foi anunciada. Bastou o resultado das urnas contrariar suas expectativas para o sangue Bolsonaro falar mais alto. O candidato que passou parte da campanha tentando convencer o eleitorado de que representava uma versão mais equilibrada, menos agressiva e mais aberta ao diálogo do bolsonarismo deu lugar ao herdeiro político de Jair Bolsonaro — e, na interpretação de seus críticos, também herdeiro dos rompantes golpistas que marcaram a trajetória do pai.

A mudança de postura não é um detalhe. É justamente nos momentos de derrota que se testa o compromisso de um político com as regras do jogo democrático. Respeitar o resultado quando se vence é fácil. A dificuldade está em reconhecer a legitimidade das urnas quando elas entregam a vitória ao adversário.

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O discurso de Flávio ganha ainda mais relevância diante dos números da votação. A prorrogação de duas horas no período de funcionamento das urnas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), não se traduziu em uma quantidade substancial de votos adicionais. Segundo informações de fontes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pouco mais de 35 mil votos foram registrados após as 17h, no horário de Brasília. A diferença entre Lula e Flávio, por sua vez, foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos.

Ou seja, os votos registrados depois do horário inicialmente previsto para o encerramento da votação representaram uma parcela ínfima da vantagem obtida pelo presidente reeleito. Os números não sustentam a tese de que a prorrogação, por si só, tenha sido determinante para o resultado da eleição.

Durante a campanha, Flávio tentou se afastar da imagem de confronto permanente associada ao pai. Buscou demonstrar serenidade, suavizou o discurso em determinados momentos e procurou conquistar eleitores que rejeitam o PT, mas também se incomodam com os excessos do bolsonarismo.

Era uma estratégia eleitoral compreensível. Flávio precisava ampliar seu eleitorado para além da base mais fiel ao ex-presidente. Para isso, tentou vender a ideia de que seria capaz de preservar as bandeiras da direita sem reproduzir os mesmos métodos de Jair Bolsonaro.

Mas a reação à derrota colocou em xeque essa construção.

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante live | Foto: Reprodução/Redes sociais
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante live | Foto: Reprodução/Redes sociais

O problema não é a indignação de quem perde uma eleição. Tampouco o direito de questionar procedimentos por meios legais. O problema começa quando a inconformidade política se transforma em tentativa de deslegitimar o resultado e alimentar a desconfiança dos próprios eleitores nas instituições.

Nesse ponto, o sobrenome Bolsonaro deixa de ser apenas um ativo eleitoral e volta a representar um método de atuação política.

Flávio teve a oportunidade de demonstrar que a moderação apresentada durante a campanha era mais do que uma estratégia de marketing. Poderia reconhecer a derrota, reafirmar seu papel como liderança da oposição e sinalizar que a disputa política continuaria dentro das regras democráticas.

Ao optar pelo confronto, reforçou a interpretação de que a tentativa de construir uma imagem mais moderada tinha prazo de validade: o fechamento das urnas.

Há também um possível cálculo político nessa postura. Questionar a derrota pode ajudar a manter mobilizada uma base que se alimenta do sentimento de perseguição e da desconfiança nas instituições. O custo é dificultar a aproximação com o eleitorado que esperava justamente uma ruptura com esse comportamento.

A história recente do país mostra os riscos desse caminho. Jair Bolsonaro também lançou suspeitas sobre o sistema eleitoral e questionou a legitimidade do processo que resultou em sua derrota em 2022. A repetição desse tipo de discurso pelo filho inevitavelmente remete à estratégia política do pai, ainda que os contextos sejam diferentes.

No fim, Flávio parece ter esbarrado na principal contradição de sua candidatura: precisava ser diferente do pai para conquistar novos votos, mas continuava dependendo da identidade política construída por ele para manter sua base.

A derrota não criou essa contradição. Apenas a tornou mais evidente.

Flávio passou a campanha tentando provar que era um Bolsonaro diferente. Na primeira grande prova depois das urnas, mostrou que o sobrenome não era apenas uma herança política. Era também um roteiro de comportamento.

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