Política

Análise: Show de horrores no debate ameaça elevar abstenção

Formato favoreceu a fuga de respostas, expôs fragilidades dos candidatos e deixou em segundo plano as propostas para o país

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Túlio Amâncio
Flávio Bolsonaro e Lula durante o debate na Band TV | Reprodução/Band TV

Flávio Bolsonaro e Lula durante o debate na Band TV | Reprodução/Band TV

Flávio Bolsonaro chamou Lula para rolar na lama. O presidente tentou evitar, mas acabou sujo. O primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela Band TV neste domingo (18), foi marcado por ataques pessoais, provocações e poucas propostas.

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O formato não ajudou. Pelo contrário. A liberdade concedida aos candidatos, sem mecanismos eficazes de cobrança de respostas ou checagem em tempo real, transformou boa parte do encontro em uma sucessão de acusações e oportunidades desperdiçadas.

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Flávio adotou uma estratégia à la Pablo Marçal, marcada por provocações de baixo nível e tentativas de desestabilizar o adversário. Como um espírito obsessor, buscou aparecer no enquadramento de Lula, fazendo caras e bocas enquanto o presidente falava. A intenção parecia clara: tirar o petista do sério e transformar o confronto em um espetáculo de provocações. O senador também se recusou a responder perguntas e encontrou espaço para escapar de temas incômodos.

Lula, por sua vez, caiu na armadilha. Demonstrou estar claramente desestabilizado em diferentes momentos. Chegou a virar as costas para a câmera e se confundiu diversas vezes ao tentar identificar para qual delas deveria olhar. A linguagem corporal do presidente transmitiu desconforto justamente em um momento em que precisava demonstrar segurança.

O único momento em que o debate apresentou suspiros de algo propositivo foi durante as perguntas feitas pelos âncoras da emissora. Ali, os candidatos foram confrontados com temas concretos e tiveram alguma oportunidade de explicar o que pretendem fazer caso sejam eleitos.

De resto, foi um show de horrores. Daniel Vorcaro para lá, Roberta Luchsinger para cá. O debate ficou refém de uma disputa sobre quem tinha as relações mais comprometedoras, enquanto os problemas reais do país ficaram em segundo plano.

É evidente que denúncias e suspeitas envolvendo os candidatos precisam ser discutidas. Mas um debate presidencial não pode se resumir a isso. O eleitor também precisa saber como cada um pretende governar, quais compromissos está disposto a assumir e como enfrentará os desafios do próximo mandato.

O formato, ao permitir longos embates sem intervenções capazes de exigir respostas objetivas, acabou favorecendo quem pretendia fugir das perguntas. E deixou o telespectador sem instrumentos para distinguir fatos de acusações infundadas.

Há ainda um risco eleitoral nessa estratégia. Em vez de mobilizar os indecisos e estimular a participação, um confronto marcado por ataques e poucas respostas pode produzir o efeito contrário: aumentar a rejeição aos dois candidatos e alimentar a abstenção.

Seria justamente o oposto do que Lula e Flávio desejam, sobretudo o presidente, que precisa virar o jogo e ampliar seu eleitorado para conquistar a reeleição. Para quem está atrás na disputa, desperdiçar uma oportunidade de convencer o eleitor pode custar caro.

O debate deveria ajudar o eleitor a escolher. Mas, da forma como foi conduzido, corre o risco de ter oferecido a uma parcela do público mais motivos para não votar em nenhum dos dois.

No fim, quem mais perdeu foi o eleitor. E, se a abstenção crescer, os candidatos poderão descobrir que também saíram derrotados.

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