A cronologia da relação entre Flávio e Willer Tomaz
Há uma sequência de negócios, viagens internacionais e endereços compartilhados entre o candidato à Presidência e o advogado, que negam irregularidades
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro | Montagem SBT News
A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, e o advogado Willer Tomaz começou a ganhar visibilidade em 2019. Sete anos depois, os dois estão no centro de uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas esportivas.
Nesse intervalo, a proximidade ultrapassou os encontros políticos e sociais. Documentos revelados por diferentes veículos de imprensa, entre eles o SBT News, mostram viagens internacionais em jatos executivos, negócios com conexões financeiras, endereços empresariais compartilhados e uma disputa judicial envolvendo uma mansão de luxo em Angra dos Reis (RJ).
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A Polícia Federal investiga, entre outras suspeitas, se Flávio seria sócio oculto de uma empresa de apostas ligada ao advogado.
Os dois negam qualquer irregularidade e sustentam que mantêm uma relação de amizade, sem sociedade empresarial entre eles.
2019: a aproximação no governo Bolsonaro
Os primeiros registros públicos da aproximação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz remontam a 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro.
Naquele período, Willer atuou na defesa do então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, investigado por suspeitas de utilização de candidaturas femininas fictícias nas eleições de 2018.
A atuação aproximou o advogado do círculo político bolsonarista.
Em 2021, durante os trabalhos da CPI da Covid, uma gravação registrou Flávio se referindo publicamente a Willer como amigo.
O advogado já mantinha uma rede de negócios em diferentes setores, incluindo advocacia, comunicação, mineração e empreendimentos imobiliários.
2020 a 2022: a mansão de luxo em Angra dos Reis
Em julho de 2020, Flávio visitou uma propriedade de luxo em Ilha Comprida, em Angra dos Reis, avaliada em aproximadamente R$ 10 milhões.
O imóvel se tornaria objeto de uma disputa judicial envolvendo Willer Tomaz e o jogador de futebol Richarlison.
O atleta afirma que adquiriu a propriedade em 2020. Dois anos depois, entretanto, os direitos de ocupação foram atribuídos à WT Administração, empresa ligada ao advogado.
A transferência administrativa ocorreu em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, e é contestada pelo jogador.
Flávio figura como testemunha no processo. Segundo relatos de vizinhos e do próprio Richarlison, o senador seria um dos frequentadores mais assíduos da propriedade.
Em outubro de 2026, o jogador e um grupo de advogados solicitaram à Polícia Federal uma investigação sobre a participação de Flávio na disputa.
Richarlison sustenta que houve manobras para retirar sua família do imóvel. Willer afirma que adquiriu legalmente os direitos sobre a propriedade e que desembolsou R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais.
Flávio nega ter praticado qualquer irregularidade.
2023: a entrada no mercado de apostas
A relação entre os dois passou a despertar atenção também no setor de apostas esportivas.
Em fevereiro de 2023, foi constituída a Rede Loto, empresa posteriormente associada à plataforma de apostas BestBet.
Dois meses depois, o governo do Rio de Janeiro iniciou o processo de credenciamento de operadores de apostas por meio da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
À frente da autarquia estava Hazenclever Cançado, indicado ao cargo pelo governador Cláudio Castro após sugestão de Flávio Bolsonaro. Cançado havia trabalhado anteriormente com Willer na advocacia.
Em abril daquele ano, a Rede Loto apresentou a documentação necessária para disputar uma licença de operação. A empresa se tornou a primeira plataforma de apostas online autorizada pela Loterj.
A estrutura societária passou a ser investigada pela Polícia Federal.
Segundo informações publicadas pela revista Piauí, a offshore Alcazar Holdings, registrada na Ilha da Madeira e pertencente a Willer, pode ter financiado a Cathedral, acionista da Rede Loto.
A suspeita de participação indireta de Flávio nesse conjunto de negócios integra as apurações.
Outro elo empresarial surgiu na operação financeira das apostas.
Willer é apontado como beneficiário final da RioPag, empresa responsável pelo processamento dos pagamentos das apostas autorizadas pela Loterj desde maio de 2023.
Entre junho de 2023 e agosto de 2026, a RioPag registrou faturamento próximo de R$ 188 milhões, segundo dados da autarquia.
A Loterj cobra da companhia R$ 9,4 milhões em repasses considerados pendentes, além de multa de R$ 4,8 milhões. A empresa contesta a cobrança judicialmente.
Willer afirma que não participa da administração da RioPag.
2024 e 2025: a conexão financeira e os voos internacionais
Um dos elementos mais relevantes identificados nas investigações é a ligação de Flávio com uma conta bancária empresarial da Alcazar Holdings.
Segundo documentos divulgados pelo SBT News, o senador figurava como usuário master da conta da offshore de Willer, registrada em Portugal.
A informação ganhou importância porque a empresa foi utilizada para realizar pagamentos relacionados a aeronaves executivas.
Em janeiro de 2025, Flávio, a esposa, duas filhas e Willer viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília, a bordo de um jato Legacy 650.
A aeronave pertencia à Fraction 024, sociedade controlada pela Prime You, empresa fundada por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Willer declarou que custeou a viagem utilizando horas de voo de sua própria cota e que a família Bolsonaro embarcou como convidada.
Documentos também apontam um pagamento de R$ 8,72 milhões da Alcazar Holdings à Fraction 024.
Nos meses seguintes, os deslocamentos continuaram.
Em abril de 2025, Flávio e Willer viajaram de Lisboa para Nice, na França, em uma aeronave contratada da NetJets.
Em maio, os dois voltaram a viajar juntos, acompanhados de familiares, em trechos entre Cascais, Nice e Paris.
Segundo as informações reveladas pelo SBT News, pelo menos três trechos aéreos na Europa foram custeados pela Cathedral, empresa vinculada ao conglomerado de apostas Rede Loto.
A utilização de recursos de uma empresa do setor de apostas para custear deslocamentos do senador passou a integrar os questionamentos sobre a natureza da relação entre os dois.
2025 e 2026: endereços compartilhados e conexões com o INSS
Outra frente de apuração envolve a coincidência de endereços empresariais e relações comerciais com pessoas investigadas por fraudes previdenciárias.
A Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio e Jair Bolsonaro são sócios, aparece registrada na mesma sala comercial, em Águas Claras, no Distrito Federal, que a construtora RPLD, ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Antunes é um dos principais investigados no esquema de descontos associativos fraudulentos em benefícios de aposentados e pensionistas.
Há também uma ligação indireta envolvendo o escritório de advocacia de Flávio.
Letícia Caetano dos Reis, diretora estatutária do escritório, é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado como um dos principais sócios do Careca do INSS.
O escritório funciona em um imóvel de Flávio em Brasília, adquirido por aproximadamente R$ 6 milhões.
Paralelamente, Willer aparece nas investigações da operação Sem Desconto, que apura fraudes contra beneficiários do INSS.
A Polícia Federal investiga possíveis repasses financeiros do advogado ao senador Weverton Rocha (PDT-MA). Ambos negam irregularidades.
As coincidências de endereços e os vínculos familiares, isoladamente, não comprovam participação em crimes, mas integram o conjunto de conexões revelado pelas reportagens.
Outubro de 2026: investigação coloca relação sob suspeita
A divulgação dos documentos ao longo de outubro ampliou o escrutínio sobre os negócios e a relação pessoal entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
A Polícia Federal investiga suspeitas de irregularidades no licenciamento de apostas no Rio de Janeiro e possíveis operações de lavagem de dinheiro.
Entre os nomes investigados estão Flávio, Willer e o governador Cláudio Castro. Hazenclever Cançado também é alvo das apurações.
O principal ponto a ser esclarecido pelos investigadores é se a relação entre o senador e o advogado ficou restrita à amizade ou se Flávio teve participação financeira, direta ou indireta, nos negócios de apostas.
A presença do candidato como usuário master de uma conta bancária empresarial de Willer, o financiamento de viagens por uma empresa de apostas e as conexões com o processo de licenciamento da Loterj são alguns dos elementos sob análise.
Até o momento, as informações divulgadas não demonstram, por si só, que Flávio seja proprietário de uma casa de apostas ou que tenha recebido recursos ilícitos.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades e afirmam que a relação entre as famílias é de amizade.
O que começou como uma aproximação política em 2019 transformou-se, sete anos depois, em uma relação com conexões empresariais e financeiras que agora são examinadas pela Polícia Federal.

























