Política

Análise: por ora venceu a estratégia 'eine grosse Konfusion'

Trio Gilmar-Dino-Alexandre fez valer a prevalência de uma barafunda de questões processuais, a despeito do impacto disso no grande público

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Ranier Bragon
Esquema de segurança no entorno do Supremo Tribunal Federal (STF) | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil - 15.09.2026

Esquema de segurança no entorno do Supremo Tribunal Federal (STF) | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil - 15.09.2026

E o resultado da histórica sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) que poderia decidir de forma inédita abrir investigação contra um de seus integrantes terminou, pelo menos por ora, em uma das expressões preferidas do decano da corte, Gilmar Mendes: eine grosse Konfusion (uma grande confusão).

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O empréstimo à língua alemã foi o melhor retrato de uma sessão que incluiu expressões como "máfia" e "ética da máfia", "pixuleco", "patifaria", "leviandade" e "desfaçatez de corar frade de pedra", quase todas elas saídas da boca de Gilmar, e que terminou sem decidir nada.

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O ápice ocorreu quando um acuado André Mendonça perdeu a paciência e gritou de volta contra o decano –o que serviu de pretexto para Flávio Dino pedir vista e se contrapor mais uma vez ao presidente da corte, Edson Fachin, de resto também impotente para fazer valer boa parte de seus pontos de vista.

Mendes, Dino e Alexandre de Moraes –o principal alvo da sessão devido às suas relações secretas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro– agiram em perfeito desígnios de interesses para evitar que o terceiro saísse da sessão alvejado com a deflagração da investigação inédita.

Isso a despeito do que o aparente festival de chicanas possa soar na opinião pública, no ambiente jurídico e, claro, na disputa política, já que estamos a menos de 20 dias das eleições.

Na verborragia jurídico-filosófica-teatral, o trio deu um banho na ala de André Mendonça.

Destaque-se aqui as falas do decano, algumas delas gritadas: "Pixuleco" e "boneco eleitoral" com "inequívoco viés político-eleitoral", "aprendizes de feiticeiro", uma condução político-eleitoral que lembra uma "relação de máfia", sendo que "até a máfia tem ética".

Ao tratar da decisão que afastara o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Mendes disse que quem cogitasse uma medida daquele tipo deveria “se algemar antes” e, numa referência direta ao fato de Mendonça ser pastor evangélico, afirmou que “em nome de Deus já se fez muita patifaria”.

Do lado de Mendonça, o cenário era de defensiva. Para começar, um de seus aliados, Kássio Nunes Marques, deu no pé do julgamento antes mesmo de a confusão começar.

Fachin, outro pretenso aliado, foi em várias vezes confrontado, com destaque para a peleja dou-a-palavra-não-dou-a-palavra do início com Dino (em que acabou dando razão no final ao colega).

Luiz Fux se aliou a André em contraponto, mas também de forma esporádica e tímida. Já Cármen Lúcia, como é de seu costume, se juntou por ora à tese de Mendonça, mas sempre aparentemente cravando frases de efeito para a plateia, embora monte sua argumentação exatamente no sentido contrário (a de que o juiz não pode votar pressionado pela opinião popular).

Tirado todo o emaranhado processual que o trio Gilmar-Dino-Moraes fez prevalecer nesta terça-feira, o ponto central é de fácil entendimento.

Pela primeira vez em sua história o plenário do STF foi chamado a decidir sobre a abertura de uma investigação de natureza criminal contra um de seus integrantes, amparado nos registros encontrados no celular de Daniel Vorcaro que, segundo a Polícia Federal, indicam contatos para lá de suspeitos entre o ex-controlador do Banco Master e Moraes.

Moraes, registre-se, pela primeira vez desde o início da crise falou longamente sobre o caso.

Na madrugada, enviou a Fachin uma manifestação de 121 tópicos em que classificou o trabalho de Mendonça como “farsa” e atribuiu sua ação a uma vingança dos condenados pela trama golpista –Mendonça foi ministro de Jair Bolsonaro e indicado por este ao STF.

Moraes também falou muito na sessão, mas sempre na linha estratégica de criar uma grande discussão sobre ritos e que tais.

Não respondeu de forma direta, porém, nem nos 121 tópicos, nem na sessão, à pergunta elementar: qual era sua relação com Vorcaro.

Qual era a natureza dos contatos reservados entre os dois, por que eles ocorreram e o que foi tratado neles? Como isso pode ter ocorrido às escondidas ao mesmo tempo que existia um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da sua mulher?

A estratégia do grupo de Moraes venceu essa batalha. Mas a guerra, repita-se, é mais longa e envolve a opinião pública, o mundo jurídico e político, passando inclusive pelo resultado das eleições. De fato, uma grosse Konfusion.

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