Impostos: veja propostas de presidenciáveis em 2026
SBT News detalha, em série, os programas de governo dos principais candidatos à Presidência

Presidenciáveis | Créditos: Divulgação/Ricardo Stuckert, Divulgação/Charles Vieira, Divulgação/PSD e Reprodução
Os impostos aparecem como a quinta maior preocupação dos brasileiros, segundo a pesquisa What Worries the World (O que preocupa o mundo, na tradução para o português), da Ipsos, divulgada em julho de 2026. O tema foi citado por 30% dos entrevistados, atrás de crime e violência (43%), corrupção financeira e política (36%), saúde (35%) e pobreza e desigualdade social (33%).
Na corrida pela Presidência da República, as propostas dos candidatos vão de redução de impostos e da carga sobre o consumo a mudanças na tributação da renda, revisão de benefícios fiscais e simplificação do sistema tributário.
O SBT News analisou as propostas para o problema dos impostos dos seis candidatos mais bem colocados na última pesquisa Datafolha: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).
O que Lula (PT) propõe sobre impostos
- Regulamentar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, instituído pela Reforma Tributária para substituir a lógica da “guerra fiscal” do ICMS por investimentos financeiros diretos;
- Investir na melhoria da eficiência do gasto público e no combate a privilégios e distorções;
- Assegurar tratamento tributário justo na implementação da reforma tributária.
O que Flávio Bolsonaro (PL) propõe sobre impostos
- Reduzir a tributação sobre o consumo das famílias, como contas de eletricidade e combustíveis;
- Revisar a reforma tributária feita pela atual administração federal para conter o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e frear aumentos de impostos;
- Retomar o processo de adesão à OCDE, o que inclui o fim gradual do IOF sobre o câmbio.
O que Augusto Cury (Avante) propõe sobre impostos
- Simplificar os tributos e unificar procedimentos operacionais, reduzindo a burocracia e os custos administrativos de conformidade tributária;
- Revisar o modelo de divisão federativa dos impostos;
- Controlar os gastos fiscais para que a reforma tributária termine com uma alíquota de IVA inferior à atualmente projetada.
O que Ronaldo Caiado (PSD) propõe sobre impostos
- Executar um ajuste fiscal sem criar novos tributos ou aumentar alíquotas que elevem permanentemente a carga tributária;
- Revisar e cortar benefícios tributários, subsídios e isenções que não comprovem resultados socioeconômicos;
- Criar regras tributárias previsíveis e de longo prazo para bens de capital e insumos destinados a data centers e à infraestrutura digital.
O que Renan Santos (Missão) propõe sobre impostos
- Reduzir subsídios fiscais considerados ineficientes e eliminar renúncias fiscais de caráter político;
- Suspender tarifas aduaneiras e consolidar novos benefícios tributários;
- Criar um regime tributário diferenciado de IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição Social sobre Bens e Serviços) para as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) estruturadas na região Nordeste.
O que Romeu Zema (Novo) propõe sobre impostos
- Estabelecer metas anuais progressivas de redução de impostos, fazendo com que a queda planejada da receita tributária oriente os cortes no teto de despesas públicas;
- Reduzir de forma sistemática o Imposto de Renda das empresas, buscando aproximar a tributação brasileira de patamares competitivos internacionalmente;
- Reduzir o IOF sobre operações de crédito para alinhar o mercado financeiro nacional ao de países desenvolvidos.
Raio-X dos impostos no Brasil
A carga tributária bruta (CTB) do governo geral chegou a 32,40% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, segundo estimativa do Tesouro Nacional. O resultado considera os tributos arrecadados pelo governo central, pelos estados e pelos municípios e representa uma alta de 0,18 ponto percentual do PIB em relação a 2024.
A carga tributária corresponde à relação entre o total de tributos arrecadados pelas três esferas de governo e o Produto Interno Bruto (PIB).
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Os impostos sobre bens e serviços continuaram como o principal componente da carga tributária em 2025, embora tenham recuado levemente de 13,87% para 13,78% do PIB. Já os impostos sobre renda, lucros e ganhos de capital aumentaram de 9,04% para 9,16% do PIB.
Entre as contribuições sociais, as destinadas ao Regime Geral de Previdência Social (RGPS) passaram de 5,28% para 5,40% do PIB, em um cenário de expansão do mercado de trabalho.
O Tesouro Nacional elabora o Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta do Governo Geral seguindo o padrão do Manual de Estatísticas de Finanças Públicas de 2014 do Fundo Monetário Internacional (FMI). O dado oficial da carga tributária brasileira é publicado pela Receita Federal.
Quanto dos impostos retorna à população?
Pelo 15º ano consecutivo, o Brasil ficou na última posição do Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES) entre as 30 nações analisadas pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).
A edição mais recente considera dados de 2024 e relaciona a carga tributária dos países ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Na metodologia utilizada pelo instituto, o IDH corresponde a 85% do cálculo e a carga tributária, a 15%.
Em 2024, a carga tributária brasileira correspondeu a 32,32% do PIB, percentual parecido com o de países desenvolvidos. O IDH, no entanto, foi de 0,760, o que resultou em um IRBES de 142,46 pontos.
A Irlanda liderou o levantamento pelo sétimo ano consecutivo, com 170,37 pontos, seguida por Suíça, Coreia do Sul, Estados Unidos e Austrália. Entre os países sul-americanos presentes no estudo, o Uruguai ficou na oitava posição, enquanto a Argentina apareceu em 13º lugar.
O que dizem os especialistas
Apesar das diferenças entre os programas, duas ideias aparecem de forma recorrente nas propostas analisadas pelo SBT News: simplificar o sistema tributário e reduzir impostos.
Para Larissa Longo, mestra em Políticas Públicas e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Tributação do Insper, o problema é que muitos planos não explicam como pretendem atingir esses objetivos.
“Em matéria tributária, em geral, as propostas são muito genéricas e abstratas. Simplificação tributária é um bom exemplo: todo mundo objetiva a simplificação, mas é muito raro haver uma especificação do que exatamente querem simplificar. É um objetivo geral, e não uma proposta concreta”, afirma.
Longo observa que a tributação sobre o consumo ganhou espaço nos programas porque o país está justamente no período de implementação da reforma tributária. Na avaliação dela, porém, os candidatos dedicam menos atenção a outras áreas que também poderiam ser discutidas.
“A tributação da renda é um assunto importante e foi pouco discutido nesses planos de governo. Os candidatos estão muito focados na tributação do consumo, que é justamente o tema que está em evidência por causa da reforma”, diz.
A pesquisadora também identifica uma aparente contradição entre a promessa de eliminar privilégios tributários e a defesa, nos mesmos programas, de incentivos para setores específicos da economia.
“Todos prometem redução de benefícios para acabar com privilégios setoriais e reduzir os gastos tributários, mas também prometem alguma concessão de incentivo fiscal para determinado setor. Existe uma incongruência. Se alguém paga menos, os demais acabam pagando mais para compensar”, destaca.
Tecnologia, inovação e data centers estão entre as áreas que aparecem com frequência nas propostas de estímulos ou tratamento tributário diferenciado. Para Rafael Barros Barbosa, pesquisador da FGV Ibre, no entanto, conceder incentivos a determinados setores e, simultaneamente, buscar redução de impostos não representa necessariamente uma contradição. Segundo ele, é preciso avaliar a eficiência dos benefícios.
“A questão é melhorar o uso dos benefícios fiscais. Você pode apontar setores em que o benefício seja mais produtivo, permita uma expansão maior da produtividade e também do número de empregos. O ponto é melhorar a eficiência pública, seja reduzindo tributos, seja aumentando a eficiência dos gastos”, diz.
Uma das principais dificuldades das propostas de redução da carga tributária está fora do próprio sistema de impostos: as contas públicas. Longo afirma que diminuir de forma duradoura a arrecadação exige também discutir o tamanho das despesas financiadas pelos tributos.
“A gente não pode falar em redução de tributos sem falar em redução do gasto público. Temos uma carga tributária elevada porque temos um Estado que custa muito. Para reduzir a carga tributária, precisamos discutir os gastos, os incentivos fiscais, os privilégios setoriais e também o custo da estrutura do Estado”, afirma.
Barbosa também coloca o equilíbrio das contas públicas entre os principais desafios de quem assumir a Presidência em 2027. Para ele, o próximo governo terá de enfrentar uma trajetória crescente da dívida e combinar controle das despesas com maior eficiência na utilização dos recursos públicos.
“O grande desafio é criar um arcabouço que consiga controlar o crescimento da dívida. Para isso, é preciso discutir corte de gastos, mas boa parte do gasto brasileiro está vinculada a serviços públicos e transferências para as pessoas mais pobres. Existe espaço para cortar, mas ele é bastante limitado e politicamente delicado”, afirma.
Por isso, segundo o pesquisador, o debate não pode se limitar a simplesmente diminuir despesas. “Existe espaço tanto para corte de gastos quanto para melhora da eficiência. A questão é tornar o gasto mais efetivo e rever situações em que benefícios ou isenções acabam privilegiando determinados grupos, quando esses recursos poderiam ser usados em outras finalidades”, diz.
A reforma dos impostos sobre o consumo também deverá ocupar parte relevante da agenda de quem assumir o governo em 2027. Longo considera que a mudança aprovada pelo Congresso representa avanços em relação ao modelo atual, especialmente pela redução do número de tributos e pela tentativa de uniformizar as regras.
“A reforma tributária resolve muitos dos problemas que tínhamos no Brasil em relação à tributação do consumo. A gente terá redução da quantidade de tributos, unificação da legislação e uma harmonização maior”, afirma.
Na avaliação dela, a implementação representa ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade para o próximo governo.
“Esse é um desafio para o novo governo, mas também pode representar um ganho, porque a reforma foi desenhada para melhorar o ambiente de negócios e estimular o crescimento econômico”, diz.
Entre os planos analisados, há candidatos que defendem mudanças ou uma revisão de partes da reforma, inclusive para tentar reduzir a futura alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Barbosa pondera que existe diferença entre discutir pontos que ainda precisam ser definidos durante a regulamentação e reabrir os pilares estruturais da reforma.
“A reforma tributária demorou muito tempo para ocorrer e exigiu muitas concessões para ser politicamente possível. Repensar ou reiniciar todo esse processo seria algo bastante ruim do ponto de vista fiscal e do futuro da economia”, afirma.
Segundo o pesquisador, os potenciais efeitos positivos da reforma sobre produtividade e crescimento não ocorrerão de uma vez nem serão necessariamente sentidos integralmente durante o próximo mandato presidencial.
“A reforma tende a ajudar porque a expectativa é que ela melhore a alocação de capital na economia, aumente a produtividade e, por consequência, o produto. Isso ajudaria a reduzir a relação dívida-PIB. Mas a transição é longa, e não necessariamente o próximo governo vai se beneficiar de todos esses efeitos”, conclui.















