SBT News detalha, em nova série, os programas de governo dos principais candidatos à Presidência
Sofia Pilagallo
Candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 | Fotos: Fotos: Ricardo Stuckert/PR; Edilson Rodrigues/Agência Senado; Isac Nóbrega/PR; Reprodução/Kim Kataguiri; Andressa Anholete/Agência Senado; Divulgação/Avante
Filas para consultas e exames e dificuldade de acesso a especialistas estão entre os principais desafios do próximo governo. Na edição mais recente da pesquisa What Worries the World, divulgada pela Ipsos em julho, 35% dos brasileiros colocam a saúde entre os três maiores problemas do país, atrás apenas de crime e violência (43%) e corrupção (36%).
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Nos planos de governo, os presidenciáveis partem de diagnósticos semelhantes para alguns dos principais gargalos do setor, mas divergem nas estratégias para enfrentá-los. Digitalização, reorganização das filas, fortalecimento da atenção básica e participação da rede privada aparecem, em diferentes formatos, entre as soluções apresentadas.
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Veja as principais propostas dos presidenciáveis abaixo:
Lula (PT)
Redução das filas do SUS: o plano prevê impulsionar o Agora Tem Especialistas, com expansão do terceiro turno, reforço das Carretas da Saúde e dos mutirões, além da continuidade das parcerias com hospitais privados para aumentar a oferta de exames e cirurgias. Também pretende ampliar e modernizar equipamentos, policlínicas e hospitais e aprimorar a regulação, com fila única digital, transparente e ordenada pelo risco clínico.
Fortalecimento da atenção básica: a proposta é expandir e qualificar as equipes de Saúde da Família, ampliar a oferta de exames e recursos diagnósticos na rede básica e dar continuidade ao Mais Médicos, com foco na fixação de profissionais e na formação de especialistas em medicina de família e comunidade, especialmente em regiões mais vulneráveis.
Integração e digitalização do SUS: o programa pretende integrar a atenção primária, a vigilância, a assistência farmacêutica e a atenção especializada e consolidar o prontuário único do cidadão. Também prevê ampliar as teleconsultas, permitir pelo celular a marcação de consultas nas UBS e o acesso aos resultados de exames e utilizar inteligência artificial na triagem, na priorização de casos graves e na regulação por risco clínico.
Digitalização do SUS: a proposta inclui um prontuário eletrônico único, vinculado ao CPF, integrado ao Gov.br e interoperável entre as redes pública e privada. Também prevê utilizar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e identificar pessoas com maior risco de adoecer, chamando-as para se cuidar antes que a doença se agrave.
Financiamento e atenção básica: o plano defende a correção da tabela SUS, com remuneração que cubra o custo real dos atendimentos, além da ampliação da Estratégia Saúde da Família, do acesso a exames preventivos e da criação de um programa de atendimento facilitado para idosos.
Redução das filas e ampliação do acesso: para aumentar a capacidade de atendimento, o plano prevê contratar serviços e exames da rede privada em horários ociosos e fortalecer a telessaúde, conectando médicos de regiões com menor demanda a pacientes de locais onde as filas são maiores. Também propõe entregar medica mentos em domicílio a idosos, pessoas com deficiência e doentes crônicos.
Atenção primária e prevenção: prevê ampliar a cobertura da Estratégia Saúde da Família e da vacinação e aprimorar os incentivos por resultados no financiamento da atenção primária, priorizando a redução de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Parcerias com o setor privado: para reduzir as filas, aposta em parcerias com clínicas e hospitais privados para consultas, exames e cirurgias, aproveitando a capacidade ociosa dessas unidades. Também prevê expandir hospitais, UPAs e atendimento especializado por meio de concessões, PPPs e parcerias com OSs.
Judicialização e regulação do setor privado: o programa pretende estabelecer critérios técnicos vinculantes para decisões judiciais na área da saúde e flexibilizar regras da ANS para permitir planos com diferentes coberturas, serviços segmentados e formas de compartilhamento de custos. Também prevê revisar obrigações regulatórias aplicadas a hospitais, clínicas e outros prestadores privados.
Redução das filas do SUS: o plano prevê criar um Sistema Nacional de Acesso e Regulação Inteligente, no qual a posição do paciente considere gravidade, risco de progressão, impacto do atraso, vulnerabilidade e tempo de espera. A meta é reduzir em pelo menos 50% o tempo mediano das filas prioritárias nas regiões com maior demora até 2030.
Atenção primária e prevenção: a Estratégia Saúde da Família permaneceria como principal porta de entrada do SUS, com acompanhamento ativo dos pacientes, estratificação de risco e acesso a teleconsultoria. Até 2030, o programa pretende garantir essas ferramentas a todas as equipes de Saúde da Família e reduzir em 20% as internações por condições sensíveis à atenção primária.
Atendimento ao infarto e ao AVC: a proposta inclui uma rede nacional com hemodinâmica regional 24 horas, transmissão de ECG pelo Samu, expansão dos Centros de AVC e da TeleAVC e acesso regional à trombectomia mecânica. O plano estabelece como meta indicativa reduzir em 30% a mortalidade cardiovascular prematura até 2030 e garantir que todas as regiões tenham rotas formalizadas de atendimento para infarto e AVC.
Telemedicina: o Tele Saúde Brasil criaria uma plataforma pública nacional para conectar profissionais e pacientes de diferentes regiões, com uso de inteligência artificial na triagem e na priorização dos casos. O plano estabelece uma meta de atendimento digital em até 30 minutos nos casos compatíveis com telemedicina e pretende atender remotamente cerca de 80% das consultas básicas.
Saúde mental: o plano prevê um Programa Nacional de Saúde Mental, envolvendo escolas, empresas, universidades, forças de segurança, unidades de saúde e comunidades em ações de prevenção, acolhimento e tratamento. Também propõe iniciativas de educação emocional, identificação precoce de fatores de risco e prevenção da ansiedade, da automutilação e do suicídio, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.
Prevenção e diagnóstico precoce do câncer: o projeto Sociedade Está Abraçando (SEA) pretende criar uma rede nacional inspirada no modelo do Hospital de Amor de Barretos, com unidades móveis de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce. A proposta também prevê um comitê em cada município para promover campanhas, identificar e acompanhar pessoas resistentes aos exames e oferecer apoio psicológico a pacientes e familiares.
Regulação das filas e regionalização do atendimento: a ENER (Escala Nacional de Estratificação de Risco) substituiria a fila baseada apenas na ordem cronológica por uma “fila viva”, considerando gravidade clínica, risco de progressão, impacto funcional, vulnerabilidade social e tempo acumulado de espera. O plano também prevê o modelo Hub-and-Spoke, que direcionaria demandas complexas a centros regionais de referência, evitando que essas unidades fossem utilizadas para atendimentos primários.
Digitalização, prontuário e dados genômicos: o PRONTO (Prontuário Eletrônico Nacional Interoperável) conectaria atenção primária, serviços especializados, hospitais públicos e privados, laboratórios e farmácias. A proposta também inclui telemedicina, diagnósticos por inteligência artificial, vigilância epidemiológica preditiva e a integração do Genomas Brasil ao prontuário, com a criação do maior banco de dados genômicos da América Latina.
Financiamento e desempenho: o programa propõe desvincular os pisos constitucionais da saúde e da educação da receita e criar o Fundo Nacional de Modernização do Acesso (FNMA), com repasses aos municípios condicionados ao desempenho. Também estabelece como objetivo atingir uma média de 80% de resolução na atenção primária.
Um dos principais problemas da saúde pública brasileira é a demora para conseguir consultas, exames e tratamentos especializados. Em 2025, o componente ambulatorial do Agora Tem Especialistas executou apenas 6,9% do planejado por estados e municípios, segundo auditoria do TCU, que também apontou falhas de integração e eficiência nos sistemas de gestão das filas e dos recursos.
Fontes: TCU; Demografia Médica no Brasil 2025; OCDE; Ministério da Saúde.
O acesso à saúde também é marcado por desigualdades regionais. O Sudeste tem 3,49 médicos por mil habitantes e concentra 55,4% dos médicos especialistas do país, enquanto o Norte reúne apenas 5,9% desses profissionais. Os números evidenciam a distribuição desigual da oferta de médicos e especialistas pelo território nacional.
O financiamento também é um desafio. Em 2022, os gastos públicos e privados com saúde representaram 9,4% do PIB, mas somaram cerca de US$ 1,7 mil por habitante, em valores ajustados pela paridade do poder de compra — menos de um terço da média da OCDE, de US$ 5,3 mil. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população amplia a demanda do SUS por acompanhamento de doenças crônicas e tratamentos mais complexos.
Análise dos especialistas
Os planos de governo identificam problemas centrais da saúde pública, como as filas de espera, a fragmentação do atendimento e a distribuição desigual de profissionais. Para especialistas ouvidos pelo SBT News, porém, algumas propostas não detalham como as medidas seriam executadas ou financiadas.
"Todos reconhecem fila, fragmentação e falta de especialistas como problemas reais. Mas a falta de organização do sistema no território desemboca nas filas e na demora do atendimento", afirma Julia Pereira, gerente de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
Segundo Pereira, a falta de integração entre União, estados e municípios impede até mesmo que o país conheça o tamanho da demanda reprimida. Em alguns estados, há dezenas de listas de espera diferentes, administradas separadamente pelos municípios e pelo governo estadual, sem um sistema unificado para organizar o fluxo dos pacientes.
A especialista pondera que prontuários eletrônicos, telemedicina e inteligência artificial podem ajudar, mas não resolvem, sozinhos, a fragmentação da rede. Para que essas ferramentas funcionem, seria necessário integrar os dados e organizar previamente os fluxos de atendimento.
"A tecnologia é uma ferramenta de execução. Ela não é uma ferramenta de organização. A digitalização ajuda, mas não resolve o que não está organizado por trás. Prontuário eletrônico e telemedicina não vão criar médicos onde não existem nem resolver as filas de exames", diz.
Claudio Maierovitch, médico sanitarista e diretor da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), destaca a falta de recursos como um dos principais entraves para a execução das propostas. Segundo ele, a ampliação dos serviços e a contratação de profissionais dependem de investimentos que garantam a continuidade das políticas.
Maierovitch cita como exemplo o Agora Tem Especialistas, que utiliza mecanismos excepcionais de financiamento. Algumas instituições assumem atendimentos especializados em troca da amortização de dívidas com o governo, modelo cuja sustentabilidade precisará ser repensada quando esses débitos se esgotarem.
"O financiamento do Sistema Único de Saúde hoje é claramente insuficiente, e as projeções futuras são de que isso piore. Tudo aquilo que se propõe como programa novo ou reforço de programas existentes exige recursos. O recurso financeiro, sem dúvida, é uma questão básica que tem que estar contida em todos os programas para a saúde", afirma.
A integração dos prontuários, recorrente entre os candidatos, também exige mudanças tecnológicas, normativas e de financiamento. Maierovitch alerta ainda que o processo deve garantir a proteção das informações dos pacientes e manter as bases de dados sob controle nacional.
Pereira considera o plano de Ronaldo Caiado o mais estruturado, por apresentar metas, prazos e mecanismos de avaliação e auditoria. Segundo ela, Lula prioriza políticas já existentes, enquanto Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos apostam em inteligência artificial sem detalhar a organização necessária para seu uso.
Entre as principais lacunas dos programas, Pereira aponta a pouca atenção dada à saúde mental de crianças e adolescentes e aos impactos das apostas online. A preparação da rede para as mudanças climáticas é destacada tanto por ela quanto por Maierovitch, que defende o mapeamento das unidades mais vulneráveis e investimentos para mantê-las em funcionamento durante eventos extremos.
Veja propostas dos presidenciáveis para a saúdeSBT News detalha, em nova série, os programas de governo dos principais candidatos à PresidênciaEleições2026-09-04T09:00:00.000ZFilas para consultas e exames e dificuldade de acesso a especialistas estão entre os principais desafios do próximo governo. Na edição mais recente da pesquisa What Worries the World, divulgada pela Ipsos em julho, 35% dos brasileiros colocam a saúde entre os três maiores problemas do país, atrás apenas de crime e violência (43%) e corrupção (36%). Nos planos de governo, os presidenciáveis partem de diagnósticos semelhantes para alguns dos principais gargalos do setor, mas divergem nas estratégias para enfrentá-los. Digitalização, reorganização das filas, fortalecimento da atenção básica e participação da rede privada aparecem, em diferentes formatos, entre as soluções apresentadas. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Veja as principais propostas dos presidenciáveis abaixo: Lula (PT) Redução das filas do SUS: o plano prevê impulsionar o Agora Tem Especialistas, com expansão do terceiro turno, reforço das Carretas da Saúde e dos mutirões, além da continuidade das parcerias com hospitais privados para aumentar a oferta de exames e cirurgias. Também pretende ampliar e modernizar equipamentos, policlínicas e hospitais e aprimorar a regulação, com fila única digital, transparente e ordenada pelo risco clínico. Fortalecimento da atenção básica: a proposta é expandir e qualificar as equipes de Saúde da Família, ampliar a oferta de exames e recursos diagnósticos na rede básica e dar continuidade ao Mais Médicos, com foco na fixação de profissionais e na formação de especialistas em medicina de família e comunidade, especialmente em regiões mais vulneráveis. Integração e digitalização do SUS: o programa pretende integrar a atenção primária, a vigilância, a assistência farmacêutica e a atenção especializada e consolidar o prontuário único do cidadão. Também prevê ampliar as teleconsultas, permitir pelo celular a marcação de consultas nas UBS e o acesso aos resultados de exames e utilizar inteligência artificial na triagem, na priorização de casos graves e na regulação por risco clínico. Veja as propostas dos candidatos para outros temas: Flávio Bolsonaro (PL) Digitalização do SUS: a proposta inclui um prontuário eletrônico único, vinculado ao CPF, integrado ao Gov.br e interoperável entre as redes pública e privada. Também prevê utilizar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e identificar pessoas com maior risco de adoecer, chamando-as para se cuidar antes que a doença se agrave. Financiamento e atenção básica: o plano defende a correção da tabela SUS, com remuneração que cubra o custo real dos atendimentos, além da ampliação da Estratégia Saúde da Família, do acesso a exames preventivos e da criação de um programa de atendimento facilitado para idosos. Redução das filas e ampliação do acesso: para aumentar a capacidade de atendimento, o plano prevê contratar serviços e exames da rede privada em horários ociosos e fortalecer a telessaúde, conectando médicos de regiões com menor demanda a pacientes de locais onde as filas são maiores. Também propõe entregar medica mentos em domicílio a idosos, pessoas com deficiência e doentes crônicos. Romeu Zema (Novo) Atenção primária e prevenção: prevê ampliar a cobertura da Estratégia Saúde da Família e da vacinação e aprimorar os incentivos por resultados no financiamento da atenção primária, priorizando a redução de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Parcerias com o setor privado: para reduzir as filas, aposta em parcerias com clínicas e hospitais privados para consultas, exames e cirurgias, aproveitando a capacidade ociosa dessas unidades. Também prevê expandir hospitais, UPAs e atendimento especializado por meio de concessões, PPPs e parcerias com OSs. Judicialização e regulação do setor privado: o programa pretende estabelecer critérios técnicos vinculantes para decisões judiciais na área da saúde e flexibilizar regras da ANS para permitir planos com diferentes coberturas, serviços segmentados e formas de compartilhamento de custos. Também prevê revisar obrigações regulatórias aplicadas a hospitais, clínicas e outros prestadores privados. Ronaldo Caiado (PSD) Redução das filas do SUS: o plano prevê criar um Sistema Nacional de Acesso e Regulação Inteligente, no qual a posição do paciente considere gravidade, risco de progressão, impacto do atraso, vulnerabilidade e tempo de espera. A meta é reduzir em pelo menos 50% o tempo mediano das filas prioritárias nas regiões com maior demora até 2030. Atenção primária e prevenção: a Estratégia Saúde da Família permaneceria como principal porta de entrada do SUS, com acompanhamento ativo dos pacientes, estratificação de risco e acesso a teleconsultoria. Até 2030, o programa pretende garantir essas ferramentas a todas as equipes de Saúde da Família e reduzir em 20% as internações por condições sensíveis à atenção primária. Atendimento ao infarto e ao AVC: a proposta inclui uma rede nacional com hemodinâmica regional 24 horas, transmissão de ECG pelo Samu, expansão dos Centros de AVC e da TeleAVC e acesso regional à trombectomia mecânica. O plano estabelece como meta indicativa reduzir em 30% a mortalidade cardiovascular prematura até 2030 e garantir que todas as regiões tenham rotas formalizadas de atendimento para infarto e AVC. Augusto Cury (Avante) Telemedicina: o Tele Saúde Brasil criaria uma plataforma pública nacional para conectar profissionais e pacientes de diferentes regiões, com uso de inteligência artificial na triagem e na priorização dos casos. O plano estabelece uma meta de atendimento digital em até 30 minutos nos casos compatíveis com telemedicina e pretende atender remotamente cerca de 80% das consultas básicas. Saúde mental: o plano prevê um Programa Nacional de Saúde Mental, envolvendo escolas, empresas, universidades, forças de segurança, unidades de saúde e comunidades em ações de prevenção, acolhimento e tratamento. Também propõe iniciativas de educação emocional, identificação precoce de fatores de risco e prevenção da ansiedade, da automutilação e do suicídio, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens. Prevenção e diagnóstico precoce do câncer: o projeto Sociedade Está Abraçando (SEA) pretende criar uma rede nacional inspirada no modelo do Hospital de Amor de Barretos, com unidades móveis de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce. A proposta também prevê um comitê em cada município para promover campanhas, identificar e acompanhar pessoas resistentes aos exames e oferecer apoio psicológico a pacientes e familiares. Renan Santos (Missão) Regulação das filas e regionalização do atendimento: a ENER (Escala Nacional de Estratificação de Risco) substituiria a fila baseada apenas na ordem cronológica por uma “fila viva”, considerando gravidade clínica, risco de progressão, impacto funcional, vulnerabilidade social e tempo acumulado de espera. O plano também prevê o modelo Hub-and-Spoke, que direcionaria demandas complexas a centros regionais de referência, evitando que essas unidades fossem utilizadas para atendimentos primários. Digitalização, prontuário e dados genômicos: o PRONTO (Prontuário Eletrônico Nacional Interoperável) conectaria atenção primária, serviços especializados, hospitais públicos e privados, laboratórios e farmácias. A proposta também inclui telemedicina, diagnósticos por inteligência artificial, vigilância epidemiológica preditiva e a integração do Genomas Brasil ao prontuário, com a criação do maior banco de dados genômicos da América Latina. Financiamento e desempenho: o programa propõe desvincular os pisos constitucionais da saúde e da educação da receita e criar o Fundo Nacional de Modernização do Acesso (FNMA), com repasses aos municípios condicionados ao desempenho. Também estabelece como objetivo atingir uma média de 80% de resolução na atenção primária. Raio X do problema: Um dos principais problemas da saúde pública brasileira é a demora para conseguir consultas, exames e tratamentos especializados. Em 2025, o componente ambulatorial do Agora Tem Especialistas executou apenas 6,9% do planejado por estados e municípios, segundo auditoria do TCU, que também apontou falhas de integração e eficiência nos sistemas de gestão das filas e dos recursos. O acesso à saúde também é marcado por desigualdades regionais. O Sudeste tem 3,49 médicos por mil habitantes e concentra 55,4% dos médicos especialistas do país, enquanto o Norte reúne apenas 5,9% desses profissionais. Os números evidenciam a distribuição desigual da oferta de médicos e especialistas pelo território nacional. O financiamento também é um desafio. Em 2022, os gastos públicos e privados com saúde representaram 9,4% do PIB, mas somaram cerca de US$ 1,7 mil por habitante, em valores ajustados pela paridade do poder de compra — menos de um terço da média da OCDE, de US$ 5,3 mil. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população amplia a demanda do SUS por acompanhamento de doenças crônicas e tratamentos mais complexos. Análise dos especialistas Os planos de governo identificam problemas centrais da saúde pública, como as filas de espera, a fragmentação do atendimento e a distribuição desigual de profissionais. Para especialistas ouvidos pelo SBT News, porém, algumas propostas não detalham como as medidas seriam executadas ou financiadas. "Todos reconhecem fila, fragmentação e falta de especialistas como problemas reais. Mas a falta de organização do sistema no território desemboca nas filas e na demora do atendimento", afirma Julia Pereira, gerente de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Segundo Pereira, a falta de integração entre União, estados e municípios impede até mesmo que o país conheça o tamanho da demanda reprimida. Em alguns estados, há dezenas de listas de espera diferentes, administradas separadamente pelos municípios e pelo governo estadual, sem um sistema unificado para organizar o fluxo dos pacientes. A especialista pondera que prontuários eletrônicos, telemedicina e inteligência artificial podem ajudar, mas não resolvem, sozinhos, a fragmentação da rede. Para que essas ferramentas funcionem, seria necessário integrar os dados e organizar previamente os fluxos de atendimento. "A tecnologia é uma ferramenta de execução. Ela não é uma ferramenta de organização. A digitalização ajuda, mas não resolve o que não está organizado por trás. Prontuário eletrônico e telemedicina não vão criar médicos onde não existem nem resolver as filas de exames", diz. Claudio Maierovitch, médico sanitarista e diretor da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), destaca a falta de recursos como um dos principais entraves para a execução das propostas. Segundo ele, a ampliação dos serviços e a contratação de profissionais dependem de investimentos que garantam a continuidade das políticas. Maierovitch cita como exemplo o Agora Tem Especialistas, que utiliza mecanismos excepcionais de financiamento. Algumas instituições assumem atendimentos especializados em troca da amortização de dívidas com o governo, modelo cuja sustentabilidade precisará ser repensada quando esses débitos se esgotarem. "O financiamento do Sistema Único de Saúde hoje é claramente insuficiente, e as projeções futuras são de que isso piore. Tudo aquilo que se propõe como programa novo ou reforço de programas existentes exige recursos. O recurso financeiro, sem dúvida, é uma questão básica que tem que estar contida em todos os programas para a saúde", afirma. A integração dos prontuários, recorrente entre os candidatos, também exige mudanças tecnológicas, normativas e de financiamento. Maierovitch alerta ainda que o processo deve garantir a proteção das informações dos pacientes e manter as bases de dados sob controle nacional. Pereira considera o plano de Ronaldo Caiado o mais estruturado, por apresentar metas, prazos e mecanismos de avaliação e auditoria. Segundo ela, Lula prioriza políticas já existentes, enquanto Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos apostam em inteligência artificial sem detalhar a organização necessária para seu uso. Entre as principais lacunas dos programas, Pereira aponta a pouca atenção dada à saúde mental de crianças e adolescentes e aos impactos das apostas online. A preparação da rede para as mudanças climáticas é destacada tanto por ela quanto por Maierovitch, que defende o mapeamento das unidades mais vulneráveis e investimentos para mantê-las em funcionamento durante eventos extremos.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/veja-propostas-dos-presidenciaveis-para-a-saude
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