Eleições

Corrupção: o que propõem os presidenciáveis em 2026

SBT News detalha, em série, os programas de governo dos principais candidatos à Presidência

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Emanuelle Menezes
Presidenciáveis | Créditos: Divulgação/Ricardo Stuckert, Divulgação/Charles Vieira, Divulgação/PSD e Reprodução

Presidenciáveis | Créditos: Divulgação/Ricardo Stuckert, Divulgação/Charles Vieira, Divulgação/PSD e Reprodução

A corrupção financeira e política é uma das principais preocupações dos brasileiros, segundo a pesquisa What Worries the World (O que preocupa o mundo, na tradução para o português), da Ipsos, divulgada em julho de 2026. O tema foi citado por 36% dos entrevistados, atrás apenas de crime e violência, mencionado por 43%.

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Na corrida pela Presidência da República, as propostas dos candidatos vão de uso de inteligência artificial para identificar fraudes a mudanças nas regras para foro privilegiado, emendas parlamentares e responsabilização de agentes públicos.

O SBT News analisou as propostas para o combate à corrupção dos seis candidatos mais bem colocados na última pesquisa Datafolha: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante). +SBT News analisa programas de governo dos presidenciáveis

O que Lula (PT) propõe

  • Fortalecer as ações de prevenção, investigação e responsabilização previstas no Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025–2027;
  • Aprimorar políticas de transparência e investir na transformação do Portal da Transparência em uma plataforma inteligente, com base em IA (inteligência artificial) e dados abertos;
  • Debater com a sociedade mudanças nas emendas parlamentares, com foco nas distorções orçamentárias do atual modelo de emendas impositivas e parlamentares.

O que Flávio Bolsonaro (PL) propõe

  • Blindar e fortalecer a Lei das Estatais de 2016, com reforço das restrições, quarentenas eleitorais e exigência de qualificação técnica para evitar indicações e apadrinhamentos políticos;
  • Retomar o Programa Nacional de Desestatização, transferindo o controle de empresas públicas para a iniciativa privada;
  • Prevenir fraudes em empréstimos consignados do INSS, com mudanças de governança, transparência ativa e dupla checagem para autorizar descontos.

O que Ronaldo Caiado (PSD) propõe

  • Criar o Sistema Nacional Anticorrupção e de Integridade Pública, integrando órgãos de controle, investigação, inteligência financeira e defesa jurídica do Estado;
  • Implantar uma plataforma de análise de riscos com IA para identificar e bloquear licitações envolvendo empresas fantasmas, beneficiários ocultos ou organizações ligadas a facções;
  • Criar a Lei do Enriquecimento Ilícito, com previsão de bloqueio preventivo e expropriação civil de bens incompatíveis com a renda declarada.

O que Renan Santos (Missão) propõe

  • Criar a Lei de Responsabilidade Gerencial (LRG), com punições e travas proporcionais e imediatas contra práticas de clientelismo político local;
  • Aplicar medidas como a “Tutela Gerencial”, que condicionaria determinados gastos públicos à dupla assinatura, e a “Inelegibilidade Superveniente” para gestores que apresentem falhas reiteradas;
  • Criar uma “Cláusula Antimáfia”, permitindo ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) decretar a dissolução de gestões capturadas por milícias ou pelo crime organizado, com extinção de mandatos e designação de gestão extraordinária federal.

O que Romeu Zema (Novo) propõe

  • Limitar o foro privilegiado, mantendo o foro especial exclusivamente para o cargo de presidente da República;
  • Criar sindicância patrimonial automática diante de variação de patrimônio incompatível com a renda declarada por ocupantes de cargos eletivos, funções de confiança e empregos públicos, além de ampliar a transparência dos gastos e dos dados governamentais;
  • Privatizar todas as empresas estatais, com o objetivo de reduzir espaços e oportunidades para desvios de recursos públicos.

O que Augusto Cury (Avante) propõe

  • Usar inteligência artificial para cruzar dados em tempo real e identificar fraudes, desperdícios, sobrepreços, pagamentos indevidos e ineficiências administrativas;
  • Criar a rede nacional “Sociedade Está de Olho” (SEO), para estimular a participação de cidadãos, universidades e entidades civis no controle dos gastos públicos;
  • Ser contrário à reeleição, apontada no plano como uma das fontes geradoras de corrupção no país.

Raio-X da corrupção no Brasil

O Brasil terminou 2025 com 35 pontos no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), da Transparência Internacional. O resultado, divulgado em fevereiro de 2026, colocou o país na 107ª posição entre 180 países, a pior colocação brasileira desde o início da série histórica, em 2012.

O índice varia de 0 a 100: quanto maior a pontuação, maior a percepção de integridade do setor público. A média mundial em 2025 foi de 42 pontos.

Segundo a Transparência Internacional, o resultado brasileiro é associado a sucessivos casos de macrocorrupção e fragilidades institucionais persistentes. Entre os casos mencionados pela organização estão os descontos irregulares em pagamentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e a fraude envolvendo o banco Master.

A instituição também aponta avanços, como o uso de inteligência financeira no combate ao crime organizado e a ampliação do controle sobre emendas parlamentares pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O que dizem os especialistas

Embora a corrupção financeira e política apareça entre as maiores preocupações da população, especialistas ouvidos pelo SBT News avaliam que o tema não recebe espaço proporcional nos programas de governo.

Para Paulo Niccoli Ramirez, professor e cientista político da ESPM, chama a atenção a presença limitada do assunto nos documentos apresentados pelos candidatos.

“Os programas falam muito pouco de corrupção. É curioso porque hoje é o que tem dividido mais os eleitores, tanto do Flávio quanto do Lula, com acusações recíprocas”, afirma.

Na avaliação de Ramirez, o combate à corrupção, protagonista do debate político em eleições anteriores, tende a assumir papel secundário na campanha de 2026. O cientista político associa essa perda de espaço às controvérsias que atingem diferentes grupos políticos.

“Parece que o tema da corrupção deve aparecer de maneira mais coadjuvante nesta eleição, sendo que foi protagonista nas últimas. Isso porque os partidos estão enrolados até o pescoço, e os partidos aliados também”, diz.

Ramirez classifica esse comportamento como uma espécie de “acordo de cavalheiros e damas” não declarado entre os grupos políticos. “Tanto as campanhas quanto os programas pouco citam a questão da corrupção. Isso realmente me chamou muita atenção”, afirma.

Sandro Cabral, professor de Estratégia e Gestão Pública do Insper, também avalia que, de maneira geral, os programas analisados tratam o problema de forma superficial. Para ele, algumas propostas misturam medidas de combate à corrupção com questões relacionadas à gestão e à administração do Estado.

“Os planos dos candidatos são muito superficiais, cheios de bravatas. Misturam corrupção com gestão, com administração do Estado”, afirma.

Na avaliação de Cabral, um dos pontos centrais para o enfrentamento da corrupção é a integração entre as instituições que atuam na fiscalização, investigação e segurança pública, especialmente diante da atuação do crime organizado.

“Somente com troca de informações, ações conjuntas e protocolos de cooperação a gente vai conseguir vencer isso”, diz.

Entre os programas analisados, Cabral considera o de Lula o mais detalhado por partir do Plano de Integridade e Combate à Corrupção 2025–2027, já existente no governo federal.

“O plano mais detalhado é o do atual governo, porque parte do plano de 2025. É um documento bem elaborado, bastante abrangente e é o único que toca nesse ponto nevrálgico, que é a necessidade de cooperação dessas forças integradas de combate à corrupção”, afirma.

O professor argumenta que as propostas deveriam partir da estrutura institucional existente, identificar suas fragilidades e aperfeiçoar a cooperação entre os diferentes órgãos de controle.

“O que me chama muito a atenção é a completa falta de diálogo dos demais candidatos com o que já existe aqui. É como se partissem de uma tábula rasa”, conclui.

Emendas têm “potencial corruptor enorme”, diz professor

Cabral aponta as emendas parlamentares como uma das áreas que deveriam receber maior atenção das propostas de combate à corrupção. Segundo ele, além dos problemas relacionados à transparência e à fiscalização, o volume de recursos destinado às emendas deveria fazer parte da discussão sobre as contas públicas.

Para o professor, há uma contradição entre candidaturas que defendem medidas de ajuste fiscal e a pouca atenção dedicada ao volume de recursos controlado pelo Congresso por meio das emendas.

“É algo que tem um potencial corruptor enorme, além de ocupar uma grande fatia do orçamento. Paradoxalmente, uma série de candidatos fala em ajuste fiscal e não vê que está ali uma boa oportunidade de buscar equilíbrio nas contas públicas”, diz.

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