Indústria e agro argumentam contra tarifaço dos EUA
Empresários, associações e representantes do setor produtivo brasileiro tentam evitar sobretaxa de 25% proposta pela gestão de Donald Trump


Indústria e agro brasileiros argumentam contra tarifaço em audiência nos EUA | SBT
Washington DC - Serão dois dias de argumentações orais no auditório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Nesta audiência, os representantes da indústria e do agronegócio brasileiros vão apresentar a defesa contra o tarifaço de Donald Trump. O objetivo é tentar convencer o governo norte-americano de que a sobretaxa seria prejudicial não apenas para exportadores brasileiros, mas para empresas e consumidores dos EUA.
Em documento divulgado pela instituição norte-americana, distintos setores do Brasil são acusados de aplicar tarifas preferenciais a determinados países (incluindo o etanol) e de prejudicar bandeiras de empresa internacionais de cobrança por causa do Pix. Até o desmatamento ilegal é citado, por permitir, segundo os norte-americanos, que mais terras brasileiras sejam cultivadas para alimentos posteriormente exportados.
“A acusação representa algo irreal” disse, na audiência, Marcelo Schunn, da Sociedade Rural Brasileira, uma instituição centenária que representa os fazendeiros do Brasil. "O uso da terra para agricultura representa apenas 8%. Isso foi comprovado pela NASA”, afirmou Schunn, citando a preservação de áreas de floresta e índices de exploração rural e uso da terra em outros países como Irlanda (75%), Reino Unido (64%) e Alemanha (57%).
Em entrevista ao SBT News, Marcos Matos, CEO do CECAFÉ, Conselho dos exportadores de café do Brasil, disse que sua intervenção será focada em solicitar a manutenção dos cafés verdes - torrado e moído - na lista de exceção de tarifas e defender que os cafés industrializados solúveis sejam adicionados ao grupo "sem novas cobranças“.
"Os Estados Unidos não têm um parque industrial suficiente e o Brasil é o principal abastecedor deste mercado, dos cafés solúveis”, disse Marco Matos. Ele afirma que na época do tarifaço, quando todo o café estava com cobrança de 50%, a inflação nos Estados Unidos foi oito vezes acima da inflação média . "Hoje está abaixo da inflação média. Então, tem uma lógica comercial que o mais beneficiado com isso tudo é o consumidor norte-americano”, ele argumenta.
Homero Busnello, diretor de relações institucionais da Tecumseh do Brasil, defende que as empresas precisam trabalhar em conjunto, no Brasil e Estados Unidos. A empresa com base em São Carlos, interior de São Paulo, tem uma planta no Mississipi e fabrica compressores para sistemas de refrigeração.
"Os nossos negócios são intercompany. A matriz é aqui nos Estados Unidos. A elevação das tarifas tira a competitividade da indústria que já está instalada aqui, que complementa os produtos com agregação de valor e distribui para os canais de venda tanto montadoras quanto mercados de distribuição”, diz.
Segundo Busnello, a empresa teve uma retração de vendas de cerca de 13,5% este ano em função das tarifas. "O que nós queremos é um canal aberto para que as exportações voltem a ocorrer com tarifa zero como era antes das medidas, para trazer mais competitividade para a indústria que está instalada dentro dos EUA”, afirmou. "Cada dólar faturado no Brasil gera 10 dólares nos EUA.”
Patrícia Gomes, diretora-executiva de mercado externo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), alerta para o fato de que o setor não tem qualquer exclusão de tarifas. "A gente tem o mercado americano como o principal destino das exportações. 25% das exportações de máquinas e equipamentos deste mercado são 3,2 bilhões de dólares”, afirmou ao SBT News.
Na sustentação oral de terça-feira (7) a representante da Abimaq vai argumentar que a relação intercompany (intercompanhia) do setor com os EUA é muito forte. "A gente exporta máquinas para a construção civil e componentes. É uma relação que vem apoiar a produção americana. Isso vai impactar a indústria, o setor da agricultura, energia e infraestrutura”, afirmou Patrícia, citando ainda impactos nos setores automotivo, de energia eólica, robótica e máquinas industriais.
Ela calcula que cerca de 900 empresas que têm comércio com os EUA serão impactadas em diferentes níveis, já que algumas têm 80% das exportações destinadas aos EUA. "É um mercado importante que paga bem e temos uma dificuldade de substituição. É um dos argumentos que trazemos. É difícil você fazer a troca deste fornecedor, é um produto engenheirado. Há certificações que demoram para ser obtidas e homologadas. É muito difícil você fazer esta substituição”, disse.
A resposta do governo brasileiro
O governo brasileiro enviou uma resposta oficial aos Estados Unidos contestando a investigação da Seção 301, que ameaça o país com tarifas de 25%. Em documento, o Itamaraty afirmou que os EUA não comprovaram prejuízos ao comércio americano, negou que o Pix favoreça empresas locais e defendeu as decisões do Supremo Tribunal Federal. O Brasil argumenta que as críticas americanas não tratam de práticas comerciais desleais, mas, sim, de divergências sobre políticas internas soberanas.





















