Educação: veja propostas de presidenciáveis em 2026
SBT News detalha, em série, os programas de governo dos principais candidatos à Presidência

Presidenciáveis | Créditos: Divulgação/Ricardo Stuckert, Divulgação/Charles Vieira, Divulgação/PSD e Reprodução
A Educação deve ter um peso significativo na escolha dos brasileiros nas eleições de 2026. É o que revela um levantamento feito pelo Instituto IDEIA e encomendado por instituições do terceiro setor, como a Fundação Lemann.
Divulgada nesta quinta-feira (3), a pesquisa mostra que 71% da população afirma que a atuação dos governos na área influencia no voto. Entre as prioridades apontadas para os próximos anos estão a valorização dos professores, a ampliação do ensino técnico e a alfabetização das crianças.
Diante desses desafios, os candidatos à Presidência apresentam propostas que vão de ampliar o ensino em tempo integral e priorizar a alfabetização na idade certa a adotar o método fônico, expandir escolas cívico-militares, abolir o sistema de cotas e mudar os critérios de financiamento e gestão da educação pública.
O SBT News analisou as propostas para a educação brasileira dos seis candidatos mais bem colocados na última pesquisa Datafolha: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante).
Veja as propostas dos candidatos para outros temas:
O que Lula (PT) propõe sobre educação
- Elevar para 80% a proporção de crianças alfabetizadas na idade certa, mantendo a cooperação entre União, estados e municípios por meio do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada;
- Priorizar a expansão da educação em tempo integral, ampliando matrículas e infraestrutura com recursos do Fundeb e do Novo PAC.
- Manter e fortalecer o Pé-de-Meia, programa de incentivo financeiro voltado à permanência de estudantes vulneráveis no ensino médio.
O que Flávio Bolsonaro (PL) propõe sobre educação
- Priorizar o método fônico na alfabetização, em que a criança aprende primeiro o som que cada letra faz;
- Expansão de Escolas Cívico-Militares;
- Oferecer vouchers educacionais quando não houver vagas na rede pública, permitindo acesso a instituições privadas credenciadas.
O que Ronaldo Caiado (PSD) propõe sobre educação
- Criar uma aliança nacional pela alfabetização e matemática na idade certa, em parceria com estados e municípios;
- Implantar uma estratégia nacional de recomposição das aprendizagens, com diagnóstico das defasagens dos estudantes, materiais específicos, tutoria e tempo adicional de estudo;
- Expandir o ensino técnico e profissionalizante, articulando institutos federais, redes estaduais, empresas e Sistema S.
O que Renan Santos (Missão) propõe sobre educação
- Priorizar a educação básica e a alfabetização em português e matemática, com adoção do método fônico e de práticas inspiradas no modelo educacional do Ceará;
- Criar um Código de Conduta do Estudante, com regras e sanções nacionais voltadas à disciplina nas escolas;
- Abolir o sistema de cotas na educação brasileira.
O que Romeu Zema (Novo) propõe sobre educação
- Concentrar o Ministério da Educação na educação básica e na formação de professores, transferindo as atribuições do ensino superior para o Ministério de Ciência e Tecnologia;
- Revisar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), priorizando alfabetização, raciocínio lógico, ciências e competências digitais;
- Regulamentar o ensino domiciliar (homeschooling), dando mais liberdade aos pais na escolha do modelo educacional dos filhos.
O que Augusto Cury (Avante) propõe sobre educação
- Implantar programas permanentes de gestão da emoção nas escolas, envolvendo estudantes, professores, gestores e famílias;
- Expandir o ensino técnico e profissionalizante, aproximando a formação escolar das competências exigidas pelo mercado de trabalho;
- Dar prioridade à alfabetização na idade certa e à melhoria da aprendizagem, com medidas para reduzir desigualdades educacionais.
Raio-X da educação no Brasil
O Brasil chegou a 2025 com 46 milhões de matrículas em 178,8 mil escolas de educação básica, segundo o Censo Escolar do Inep. Em relação a 2024, houve queda de 2,3% no total de matrículas, movimento associado pelo instituto a fatores demográficos e à melhora do fluxo escolar.

Apesar da redução no número de estudantes matriculados, o acesso ao ensino fundamental permanece elevado. Em 2025, 99,6% das crianças de 6 a 10 anos frequentavam a escola. Já entre os jovens de 15 a 17 anos, 93,2% estavam estudando, segundo dados da PNAD Contínua.
Um dos avanços mais visíveis está no ensino em tempo integral. Na rede pública, a proporção de matrículas nessa modalidade passou de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025. No ensino médio, o percentual chegou a 26,8%, enquanto nos anos finais do fundamental atingiu 23,7%.
A infraestrutura também melhorou. O percentual de escolas da educação básica com acesso à internet subiu de 82,8% em 2021 para 94,5% em 2025. Estados da região Norte, porém, seguem atrás da média nacional: Acre, Amazonas, Roraima e Amapá apresentam os menores percentuais de conectividade nas escolas.
Na educação infantil, o acesso às creches continua sendo um dos gargalos. O Censo Escolar registrou 4,18 milhões de matrículas em creches em 2025, enquanto o atendimento de 50% das crianças de até 3 anos, previsto pelo Plano Nacional de Educação, corresponderia a cerca de 5 milhões de matrículas.
Os dados da PNAD Contínua mostram que, em 2025, 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler nem escrever, o equivalente a uma taxa de analfabetismo de 4,9%. Foi a primeira vez que o índice ficou abaixo de 5% desde 2016.
As desigualdades, porém, seguem marcantes. Entre estudantes pretos ou pardos, a distorção idade-série era de 8,0% nos anos iniciais do ensino fundamental, 17,7% nos anos finais e 19,3% no ensino médio. Entre estudantes brancos, os percentuais eram de 4,2%, 9,2% e 10,9%, respectivamente.
Outro ponto de atenção é o abandono escolar. Segundo o IBGE, 7,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos não haviam concluído o ensino médio em 2025 por terem abandonado a escola ou nunca frequentado essa etapa. A necessidade de trabalhar foi o principal motivo apontado, citada por 43% desse grupo.
O que dizem os especialistas
Apesar das diferenças entre os planos de governo, especialistas ouvidos pelo SBT News apontam que o principal desafio do próximo presidente será melhorar a aprendizagem dos estudantes.
Para Ivan Gontijo, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, o país avançou no acesso, na permanência e na trajetória escolar, mas ainda convive com resultados baixos de aprendizagem.
“O nosso grande desafio que está colocado é melhorar o patamar de aprendizagem dos nossos estudantes”, afirma.
Segundo ele, isso exige uma abordagem sistêmica, com formação inicial de professores, avaliações, expansão do tempo integral e políticas de recomposição das aprendizagens.
Claudia Costin, especialista em Educação e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, também vê uma mudança positiva no debate educacional brasileiro. Para ela, os planos convergem em temas como alfabetização, avaliação, recomposição das aprendizagens e ensino em tempo integral.
“Hoje há uma consciência de que a criança precisa aprender e de que há formas de garantir que a criança aprenda”, diz.
De acordo com Costin, o avanço recente da alfabetização mostra que políticas estruturadas podem produzir resultados, mas o desafio agora é levar essa melhora para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio.
Na avaliação de Gontijo, o plano de Lula (PT) é marcado principalmente pela continuidade de políticas já existentes. Ele considera positivas medidas como o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e a expansão do tempo integral, mas aponta lacunas.
“O plano não fala nada sobre a formação inicial docente”, afirma. O especialista também considera tímida a abordagem sobre currículos e avaliações e chama atenção para o peso orçamentário do Pé-de-Meia.
Costin, por outro lado, avalia que o programa responde a um problema concreto: a necessidade de trabalhar é um dos principais fatores de abandono escolar. Ainda assim, pondera: “É preciso fazer mais. O Pé-de-Meia é uma resposta parcial”.
Entre os programas analisados, Gontijo considera o de Ronaldo Caiado (PSD) o mais completo do ponto de vista sistêmico. Ele destaca as propostas de recomposição das aprendizagens, formação de professores, ensino integral e educação profissional.
“Do ponto de vista da coerência das propostas, elas são as que estão mais baseadas nas experiências de sucesso de outras redes no Brasil e no que as evidências apontam que dá mais resultado em relação à aprendizagem”, afirma. A ressalva, segundo ele, está na capacidade de execução de uma agenda tão ampla.
O método fônico de alfabetização, em que a criança aprende primeiro o som que cada letra faz e que é defendido nos planos de Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão), recebe avaliações com nuances diferentes. Gontijo afirma que a consciência fonológica é necessária, mas rejeita a ideia de um método único.
“A alavanca da política não é um método. A alavanca tem que ser a governança e a forma como ela está estruturada”, diz.
Costin é mais enfática ao defender o ensino explícito da relação entre letras e sons, principalmente para crianças de contextos vulneráveis. Para ela, o problema surgiu quando o debate pedagógico ganhou conotação político-ideológica – o método fônico passou a ser usado como um contraponto às metodologias do intelectual Paulo Freire. “Não faz sentido pegar a alfabetização e atribuir isso a ser de esquerda ou de direita”, afirma ela
Os dois especialistas são críticos à expansão de escolas cívico-militares. Gontijo afirma que não há evidências de que a presença de militares aposentados melhore a qualidade da educação e defende outras estratégias para enfrentar violência e indisciplina, como formação de professores e integração com políticas de segurança no entorno das escolas. Costin segue a mesma linha:
“Disciplina é importante em escola, todo mundo sabe, mas não é a única forma de ter disciplina e nem a mais eficiente colocar um policial militar aposentado dentro da escola”, afirma.
Ainda na questão da indisciplina dos alunos, o gerente do Todos Pela Educação questiona o Código de Conduta do Estudante sugerido por Renan.
“Não vai ser um código de conduta nacional, um protocolo com lógica punitivista que vai resolver isso. O que vai resolver é na formação de professores as questões ligadas à disciplina, à gestão da sala de aula, serem mais trabalhadas. Não é uma legislação nacional dizendo o conjunto de infrações que acontecem na escola e a sua respectiva punição. Como isso vai ser implementado nacionalmente? Não é nem papel do MEC”, afirma.
Também há críticas sobre a proposta de Flávio de oferecer vouchers educacionais. Gontijo e Costin afirmam que não há experiências brasileiras que sustentem a oferta. Para a especialista, o país não pode fugir do desafio de melhorar sistemicamente a escola pública.
“Não existem evidências sólidas de que voucher funciona. Não tem como fugir do desafio de melhorar a escola pública. Não tem bala de prata em educação, uma coisa mágica que se fizer todo resto resolve. Tem que ter uma abordagem sistêmica pra melhorar a rede pública e com isso conseguir melhorias de aprendizagem”, diz Costin.
Sobre a educação domiciliar (homeschooling), que tem a regulamentação defendida por Romeu Zema (Novo), Gontijo considera que uma eventual regulamentação deveria ficar restrita a situações excepcionais e alerta para riscos de uma legislação ampla.
“O homeschooling deveria ser regulamentado pra públicos muito específicos. A gente está falando, por exemplo, de crianças que estão em tratamento de doenças oncológicas ou crianças que são de famílias itinerantes”, diz. “Nos parece bastante temerário o avanço de uma proposta que pode inclusive colocar em risco a integridade física e os direitos das crianças brasileiras”, completa o gerente do Todos Pela Educação.
Os dois especialistas também são críticos à proposta de Renan de abolir o sistema de cotas da educação brasileira. Costin classifica as cotas como instrumento necessário para reduzir desigualdades e ampliar o acesso ao ensino superior, enquanto Gontijo afirma que a ação afirmativa conseguiu “democratizar o acesso ao ensino superior no Brasil”.
“As cotas nos parecem uma política completamente consolidada no Brasil. Nem no governo Bolsonaro isso foi discutido. O argumento de que as cotas diminuem a qualidade dos estudantes já foi rebatido por diversos estudos”, diz Gontijo.
Em relação a Augusto Cury (Avante), Gontijo vê propostas relevantes em ensino técnico, tempo integral, neurodiversidade e desenvolvimento integral dos estudantes, mas questiona a tentativa de definir uma abordagem pedagógica nacional a partir do governo federal. Costin, por sua vez, destaca positivamente a preocupação do plano com engajamento e autonomia dos alunos. Para ela, uma escola capaz de mostrar ao estudante sentido no que aprende tende também a enfrentar melhor problemas de disciplina.
“A melhor estratégia de disciplina é descobrir formas de engajamento desse aluno, para que ele perceba que é portador de sonhos de futuro e que o que está aprendendo na escola vai ajudá-lo a construir esses sonhos”, afirma.















