Economia

Queda na Bolsa barateia ações? Veja riscos e oportunidades

Após seis pregões no negativo, vários papéis acumulam perdas expressivas; especialista alerta que preços baixos não garantem bons investimentos

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Por Caio Barcellos
Ibovespa: o principal índice acionário da B3 fechou em baixa | Germano Lüders/Exame

Ibovespa: o principal índice acionário da B3 fechou em baixa | Germano Lüders/Exame

O Ibovespa avançou 1,23% nesta quarta-feira (4), aos 167.563,47 pontos. A recuperação ocorre após seis pregões consecutivos de queda no principal índice da Bolsa brasileira, com perda de quase 20% em meio às preocupações do mercado com a reeleição do presidente Lula (PT).

O tombo fez ações de grandes empresas perderem parte expressiva de seu valor de mercado, movimento que pode abrir oportunidades para investidores interessados em comprar papéis a preços menores. Contudo, a CEO da Magno Investimentos, Olívia Flôres de Brás, alerta que nem toda desvalorização representa um bom negócio.

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Um levantamento apresentado por Olívia ao SBT News mostra que ações de bancos e construtoras acumularam, na terça-feira (3), perdas superiores a 30% em relação às maiores cotações registradas nos últimos 12 meses.

Entre os exemplos analisados pela especialista estão:

  • MRV: desvalorização de aproximadamente 61,2% em relação à máxima de 12 meses
  • Cyrela: queda de aproximadamente 55%
  • Banco do Brasil (BB): recuo de aproximadamente 41,8%
  • Bradesco: desvalorização de aproximadamente 38,4% nas ações ordinárias

Segundo Olívia, a queda das ações deve ser analisada em conjunto com os resultados financeiros e as perspectivas de cada companhia. “Uma ação pode cair pela metade e continuar custando o dobro do que deveria”, afirmou ao SBT News.

Aviso: Esta reportagem tem caráter informativo e não constitui recomendação de compra ou venda de ações. Investimentos em renda variável envolvem riscos e as decisões devem considerar o perfil e os objetivos de cada investidor.

Bancos apresentam riscos diferentes

No setor bancário, BB e Bradesco aparecem como ações aparentemente baratas podem esconder situações financeiras distintas.

Por volta das 13h07 de terça-feira, os papéis do BB eram negociados a R$ 16,15, enquanto as ações ordinárias do Bradesco custavam R$ 12,46, segundo os dados apresentados pela especialista.

O BB apresentava valor de mercado equivalente a aproximadamente 51% de seu patrimônio líquido, indicador utilizado para comparar o preço das ações com o valor contábil da instituição. Apesar disso, sua rentabilidade sobre o patrimônio era de 6,6%.

No Bradesco, as ações eram negociadas a aproximadamente 75% do patrimônio líquido, enquanto a rentabilidade alcançava 13,4%.

“A comparação demonstra que negociar abaixo do patrimônio contábil não constitui, isoladamente, uma oportunidade. Banco barato não é aquele cuja ação custa pouco, mas aquele que consegue remunerar adequadamente seu capital depois de contabilizar os riscos”, explica Olívia.

Para Olívia, os investidores devem acompanhar especialmente os riscos de inadimplência, a qualidade das operações de crédito e a capacidade de recuperação dos resultados.

No caso do BB, um dos principais pontos de atenção é o aumento da inadimplência no agronegócio, setor no qual a instituição concentra parte relevante de seus empréstimos. No segundo trimestre de 2026, o percentual de operações rurais com atraso superior a 90 dias chegou a 6,3%, praticamente o dobro do registrado um ano antes. O avanço obriga o banco a reservar mais recursos para cobrir possíveis calotes, pressionando seus lucros.

Desde a reeleição do presidente Lula (PT), o principal índice da Bolsa brasileira recuou quase 20% | Foto: Germano Lüders/Exame
Desde a reeleição do presidente Lula (PT), o principal índice da Bolsa brasileira recuou quase 20% | Foto: Germano Lüders/Exame

Construtoras exigem atenção aos juros

Entre as construtoras, Cyrela e MRV também apresentam diferenças importantes, apesar das fortes desvalorizações.

A Cyrela era negociada a R$ 16,58 nesta terça-feira, segundo o levantamento da especialista. A companhia apresentava uma relação entre preço e lucro de aproximadamente 3,95 vezes, além de rentabilidade sobre o patrimônio de 18,3%.

A MRV, por outro lado, era negociada a R$ 4,09 e apresentava prejuízo, rentabilidade patrimonial negativa e elevado endividamento.

“Os números mostram que duas ações podem sofrer quedas semelhantes e representar riscos completamente diferentes”, destaca Olívia.

O setor também é particularmente sensível à trajetória da taxa básica de juros, a Selic -atualmente em 13,75% ao ano. Juros elevados encarecem o financiamento imobiliário, dificultam a compra de imóveis e aumentam os custos financeiros das construtoras.

Juros e exterior

A perspectiva de juros elevados por mais tempo é um dos fatores que podem limitar a recuperação das ações brasileiras.

O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central (BC) na terça-feira elevou de 5,19% para 5,22% a previsão de inflação de 2026. A estimativa para a Selic ao final do ano passou de 13,25% para 13,50%.

Nesta noite, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano.

Além de aumentar os custos das empresas, os juros elevados tornam os investimentos em renda fixa mais atrativos, reduzindo o incentivo para que investidores assumam os riscos do mercado de ações.

O cenário internacional também exige atenção. As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), deram aos democratas o controle das duas casas do Congresso, até então dominadas pelos republicanos.

A nova composição do Congresso, somada às perspectivas para os juros norte-americanos, poderá influenciar o fluxo de investimentos estrangeiros para o Brasil, especialmente em um momento de maior preocupação com as contas públicas.

EUA vão às urnas para renovar Congresso | Reuters
EUA vão às urnas para renovar Congresso | Reuters

Como identificar uma oportunidade?

Para distinguir ações que podem estar baratas daquelas que perderam valor por problemas estruturais, Olívia recomenda observar indicadores que vão além da cotação. Entre eles estão:

  • a capacidade de gerar lucros e caixa
  • o nível de endividamento
  • a rentabilidade sobre o patrimônio
  • as perspectivas para os resultados futuros
“Uma empresa negociada a múltiplos historicamente baixos pode representar uma oportunidade se seus fundamentos permanecerem sólidos e os riscos estiverem excessivamente precificados. Mas também pode ser uma armadilha de valor quando o mercado antecipa uma deterioração estrutural ainda não refletida integralmente nos resultados”, explica.

🔍A armadilha de valor ocorre quando uma ação parece barata pelos indicadores tradicionais, mas continua perdendo preço porque os resultados da empresa estão se deteriorando.

Nesse cenário, as recentes desvalorizações podem justificar uma avaliação mais cuidadosa das oportunidades no mercado de ações, principalmente para investidores com horizonte de longo prazo e disposição para enfrentar oscilações. Segundo ela, a queda dos preços, isoladamente, não é suficiente para determinar o momento de comprar.

“Não acredito em decisões motivadas pela urgência de aproveitar uma suposta liquidação. Prefiro perder uma oportunidade a comprometer patrimônio por falta de critério”, conclui.

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