Tigrinho e bets entram nas empresas e afetam produtividade
Levantamento aponta que apostas online já prejudicam o desempenho durante o trabalho, enquanto cresce o número de afastamentos relacionados ao vício

Apostas online invadem empresas e afetam produtividade | Reprodução
As apostas online deixaram de ser apenas uma questão de entretenimento ou de finanças pessoais e passaram a produzir efeitos cada vez mais visíveis dentro das empresas brasileiras. O impacto já é percebido pelas áreas de Recursos Humanos, que relatam aumento de dificuldades financeiras entre colaboradores, queda de produtividade, atrasos e problemas de concentração durante o expediente.
Uma pesquisa realizada pelo Opinion Box, em parceria com a Creditas Benefícios e a Wellz, revelou que 53% dos gestores de RH já identificaram colaboradores enfrentando dificuldades financeiras relacionadas às apostas. Além disso, quase metade dos entrevistados afirmou perceber um aumento na participação dos funcionários em plataformas de apostas, indicando que o tema passou a fazer parte das preocupações da gestão de pessoas.
O reflexo mais imediato aparece no chamado presenteísmo. Diferentemente do absenteísmo, em que o trabalhador falta ao serviço, o presenteísmo ocorre quando o colaborador está fisicamente presente, mas parte da sua atenção permanece voltada para outro assunto. No caso das apostas, isso significa acompanhar cotações, resultados esportivos ou tentar recuperar perdas financeiras durante o horário de trabalho.
Especialistas apontam que esse comportamento pode provocar erros operacionais, perda de prazos, redução da qualidade das entregas, conflitos entre equipes e queda no desempenho antes mesmo de resultar em faltas ou afastamentos.
O levantamento também mostra que mais da metade dos recrutadores afirmou que colaboradores utilizam intervalos, como o horário de almoço, para realizar apostas, enquanto seis em cada dez profissionais de RH disseram observar redução da produtividade entre funcionários que apostam regularmente.
Afastamentos por compulsão
O problema aparece ainda nas estatísticas da saúde pública. Dados do INSS mostram que os afastamentos relacionados à ludopatia, transtorno caracterizado pela compulsão por jogos e apostas, cresceram cerca de 60% em 2025 na comparação com o ano anterior.
Isso não significa que toda pessoa que faz apostas desenvolva um transtorno ou apresente queda de desempenho profissional. Para muitos usuários, a atividade permanece recreativa e eventual. O alerta surge quando a pessoa perde o controle sobre o tempo e o dinheiro destinados às apostas, tenta recuperar prejuízos sucessivamente e passa a comprometer sua vida financeira, familiar e profissional.
Primeiros sinais
No ambiente empresarial, os primeiros sinais costumam aparecer na forma de atrasos frequentes, distração, pedidos de adiantamento salarial, aumento do endividamento, irritabilidade, isolamento e dificuldades para cumprir prazos. No entanto, especialistas alertam que esses comportamentos, isoladamente, não permitem concluir que exista dependência em jogos, já que podem estar associados a diversos outros fatores pessoais ou profissionais.
Por isso, o papel das lideranças não é diagnosticar colaboradores, mas identificar mudanças consistentes no desempenho, oferecer acolhimento e encaminhar o profissional para canais de apoio quando necessário.
Na minha avaliação, a melhor estratégia para as empresas é investir em prevenção. Programas permanentes de educação financeira, treinamento das lideranças, canais confidenciais de apoio psicológico e orientação sobre os riscos das apostas tendem a produzir resultados mais consistentes do que medidas baseadas apenas em fiscalização ou punição.
Com as plataformas de apostas disponíveis 24 horas por dia e acessíveis por poucos cliques no celular, os efeitos ultrapassaram o ambiente doméstico e chegaram ao expediente. Quando as apostas começam a comprometer o orçamento, a concentração e a produtividade, deixam de ser apenas uma decisão individual e passam a representar também um desafio para a gestão das empresas.
Pense nisso.

























