Irã ataca setor energético do Golfo após Israel atingir campo de gás em Teerã
Bombardeios foram registrados em instalações no Catar e no Kuwait; tensão provocou aumento de 35% nos preços do gás europeu


Camila Stucaluc
A Guarda Revolucionária do Irã lançou mísseis e drones contra instalações de energia em países do Golfo Pérsico, nesta quinta-feira (19). Os ataques acontecem em retaliação ao bombardeio realizado por Israel contra o campo de gás South Pars, no Irã, no dia anterior.
Até então, os alvos iranianos no Golfo eram bases militares dos Estados Unidos. Depois do ataque em South Pars, o exército mudou a mira para refinarias de petróleo e produtoras de gás, começando pelo Catar. Pelas redes sociais, a QatarEnergy reportou “danos extensos” após mísseis atingirem a cidade industrial de Ras Laffan.
“Além dos ataques à Cidade Industrial de Ras Laffan, confirmamos que várias instalações de Gás Natural Liquefeito (GNL) foram alvo de ataques com mísseis, causando incêndios de grande porte e danos adicionais extensos. Equipes de resposta emergencial foram enviadas imediatamente para conter os danos resultantes, sem relatos de vítimas”, disse a estatal.
Bombardeios também foram observados no Kuwait, onde um drone atingiu a refinaria de petróleo Mina Al-Ahmadi — uma das maiores do Oriente Médio —, provocando um pequeno incêndio. Na Arábia Saudita, um drone caiu na refinaria Samref, da gigante petrolífera Saudi Aramco, no porto de Yanbu. Segundo o Ministério da Defesa, um míssil lançado ao mesmo local foi interceptado.
Em meio ao cenário, os preços do gás europeu aumentaram 35% nesta manhã, totalizando uma alta de 60% desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Um relatório da agência Reuters apontou ainda que o preço do petróleo Brent – o padrão global de referência – também subiu para US$ 112 por barril. Na noite de quarta-feira (18), o valor estava fixado em US$ 107,38.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.









