"Irã não estava perto de construir arma nuclear", diz ex-chefe de contraterrorismo dos EUA
Joe Kent afirmou ainda que falecido líder supremo iraniano era quem estava moderando o programa nuclear do país


Camila Stucaluc
O ex-chefe de contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent, afirmou que o Irã não estava perto de desenvolver uma arma nuclear. A fala rejeita as alegações do presidente Donald Trump, que justificou a evolução do programa nuclear de Teerã para lançar um ataque coordenado com Israel contra o país.
Kent, que renunciou ao cargo nesta semana por discordar da guerra no Irã, disse que não há informações de inteligência sugerindo que o Irã violou seu antigo decreto religioso contra armas nucleares. Ele afirmou que, desde 2004, a liderança iraniana segue uma fatwa — parecer jurídico ou opinião religiosa emitida por um especialista em lei islâmica — que proíbe o desenvolvimento dessas armas,
“A estratégia iraniana é muito pragmática devido à história da região. Eles estavam se prevenindo de desenvolver uma arma nuclear, mas queriam ter a habilidade para fazer isso. Nós sempre estimamos que eles estavam a alguns meses ou a dois anos de desenvolver uma arma nuclear”, disse Kent, em entrevista ao podcast do apresentador Tucker Carlson.
O ex-chefe de contraterrorismo norte-americano citou o ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morto no primeiro dia de ataques em Teerã. Segundo ele, o religioso era quem estava moderando o programa nuclear iraniano. “Não sou fã do ex-líder supremo, mas ele os impedia de obter uma arma nuclear”, disse.
Kent ainda afirmou que não havia informações de inteligência de que o Irã lançaria um "grande ataque surpresa" contra os Estados Unidos, semelhante ao 11 de setembro ou a Pearl Harbor, como dito pelo Secretário de Estado, Marco Rubio. “Novamente, voltando ao que sabemos sobre os iranianos, eles são muito, muito deliberados na escalada do conflito", afirmou.
Questionado sobre o motivo de Trump lançar um ataque contra o Irã, o Kent disse que a Casa Branca criou uma nova narrativa, sobretudo por influência e pressão de Israel, com quem Washington compartilha informações de inteligência. Ele afirmou que o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parecia confiante de que poderia iniciar uma ação militar contra Teerã, esperando que os Estados Unidos interviessem.
“O que devemos fazer, provavelmente com uma nova equipe de diplomatas, é ir até os israelenses e dizer: ‘Chega, nós defenderemos você, mas chega de ofensiva. Esta é a nossa guerra, e se vocês optarem por continuar com essa ofensiva, começaremos a retirar recursos do seu sistema de defesa. Assim, vocês ficarão por conta própria’. Se não abordarmos nossa relação com os israelenses, mesmo que consigamos um cessar-fogo temporário, voltaremos à mesma situação em pouco tempo”, disse Kent.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.









