Eleições

Lula pode ter que ceder articulação política ao centrão

Avanço do bolsonarismo no Congresso amplia pressão para Lula ceder o comando da articulação política e dar mais peso a figuras como Alckmin

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Ranier Bragon
Congresso Nacional | Arquivo/Agência Brasil

Congresso Nacional | Arquivo/Agência Brasil

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato coloca o petista diante do Congresso mais hostil de sua trajetória presidencial e pode forçá-lo a entregar a articulação política do seu governo ao centrão.

Seus principais interlocutores nessa largada são os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), políticos que ganham um considerável fôlego nas suas pretensões de continuarem nos cargos a partir de fevereiro do ano que vem.

O PL de Flávio Bolsonaro terá a maior bancada da Câmara, com 121 dos 513 deputados, e do Senado, com 28 dos 81 senadores. Na Câmara, a federação PT-PCdoB-PV terá 88 cadeiras. No Senado, há 45 parlamentares mais próximos do bolsonarismo, entre eles a mulher e um dos filhos de Jair Bolsonaro.

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Em seus três mandatos, Lula nunca contou com maioria parlamentar formada apenas por partidos de esquerda, mas manteve o PT no comando de sua articulação política durante a maior parte do período.

As exceções ocorreram nos dois primeiros governos: Aldo Rebelo (PCdoB), entre 2004 e 2005, e Walfrido dos Mares Guia e José Múcio (PTB), entre 2007 e 2009. Aldo já ocupava o cargo quando eclodiu o escândalo do mensalão, enquanto os dois petebistas foram nomeados depois do auge da crise.

Segundo a avaliação de aliados antes do resultado deste domingo, um governo Lula 4 terá que ampliar consideravelmente os nacos de governo entregues ao centrão.

Em Lula 3, o petista deu 11 ministérios a União Brasil, PSD, MDB, Republicanos e PP, mas nenhum deles da chamada cúpula do governo, como Casa Civil, Fazenda e Secretaria de Relações Institucionais.

O centrão, mesmo tendo perdido espaço nas urnas e mesmo tempo pulado em bloco dentro da candidatura de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno, continuará decisivo para a aprovação de projetos e para o funcionamento do governo. Sem ele, Lula não conseguirá aprovar nem projetos de maioria simples.

Desse bloco, PSD e MDB são mais próximos.

Uma opção também é dar peso, ou até mesmo a função, a políticos ao seu redor mais vinculados à centro-direita, em especial seu vice, Geraldo Alckmin (hoje no PSB, mas uma figura histórica do PSDB).

Lula, inclusive, deu a palavra primeiro a Alckmin no discuro de vitória neste domingo.

O resultado deste domingo também interfere na eleição para os comandos do Congresso, no início de fevereiro.

Na Câmara, a recondução de Hugo Motta ficará praticamente sacramentada. Ele já recebeu o apoio de um bloco de partidos do centro e do centrão que somará 252 deputados. Com a provável adesão do PT e de outras siglas da esquerda, passará a contar, em tese, com uma maioria confortável para vencer eventual candidatura do PL.

No Senado, o cenário também melhora para Davi Alcolumbre, mas a disputa continuará mais difícil. O presidente da Casa mantém boa relação com Lula e poderá contar com o apoio governista para tentar compensar o avanço bolsonarista.

Ainda assim, enfrentará a pressão do PL por um nome próprio, como Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, além das pretensões de outros senadores, como Tereza Cristina (PP-MS).

Antes da posse do novo Congresso, as negociações de novembro e dezembro serão dominadas pela aprovação do Orçamento de 2027, pelas diretrizes orçamentárias e por temas como a PEC da Segurança Pública, ainda pendente de votação no plenário do Senado.

A proposta é promessa de Lula para recriar o Ministério da Segurança Pública.

Outro movimento será a tentativa de alterar o próprio sistema eleitoral. Como revelou o SBT News, Motta articula uma votação ainda em novembro para substituir o modelo proporcional pelo distrital misto ou por variações como o distritão. O relator será Domingos Neto (PSD-CE).

A articulação é uma reação do centrão ao chamado "efeito Nikolas", caracterizado pelo crescimento de candidaturas de forte apelo pessoal e nas redes sociais, que reduziram o peso das estruturas partidárias tradicionais.

A partir de 2027, a segurança pública, as regras de execução do Orçamento, a agenda econômica e as propostas de mudanças no Judiciário estarão entre os principais pontos de conflito com a nova composição parlamentar.

Um dos pontos da agenda econômica será a pressão por um ajuste robusto das contas públicas, o que o governo não indica por ora que fará, mantendo a tentativa de reduzir despesas obrigatórias apenas de forma pontual.

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