Eleições

Lula se torna o primeiro presidente eleito para 4 mandatos

Petista permanecerá no cargo até janeiro de 2031, após nova vitória nas urnas; trajetória até o Palácio do Planalto foi marcada por dificuldades e perdas

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Sofia Pilagallo
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerra campanha das Eleições 2026 com caminhada na avenida Paulista | Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil - 24.10.2026

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerra campanha das Eleições 2026 com caminhada na avenida Paulista | Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil - 24.10.2026

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi declarado vencedor da eleição presidencial de 2026 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSF). Com o resultado, Lula é o primeiro presidente da história do Brasil eleito para quatro mandatos.

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Lula foi eleito presidente pela primeira vez em 2002, quando derrotou José Serra (PSDB). Conquistou a reeleição em 2006, ao vencer Geraldo Alckmin, que na época também compunha o PSDB.

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O petista governou o país entre 2003 e 2010, após reeleição, e voltou ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023, quando superou Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022. Com a nova vitória nas urnas em 2026, Lula permanecerá no cargo até janeiro de 2031.

A trajetória até o Palácio do Planalto foi marcada por dificuldades e perdas pessoais. Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco, Lula teve uma infância pobre. Segundo o próprio relato, ele tinha sete anos quando comeu pão pela primeira vez.

Em 1971, perdeu a primeira mulher, Maria de Lourdes, que morreu durante uma cesariana de emergência após contrair hepatite. O filho do casal também não sobreviveu.

Marisa Letícia foi a segunda esposa de Lula, com quem foi casado por mais de quatro décadas. Em 2017, o presidente voltou a ficar viúvo. A ex-primeira-dama morreu após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

Lula passou 580 dias preso em Curitiba, entre 2018 e 2019, após ser condenado no caso do tríplex do Guarujá. A prisão o impediu de disputar a eleição de 2018 contra Jair Bolsonaro e marcou um dos períodos mais difíceis de sua trajetória política. Aliados classificaram a medida como um golpe para impedir o retorno de Lula ao poder após anos do governo de Dilma Rousseff, sua aliada.

De líder sindical a presidente

Sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, a Dona Lindu, Lula deixou Pernambuco com a mãe e os irmãos em 1952, aos sete anos, rumo ao litoral paulista. A viagem, em um caminhão "pau de arara", durou 13 dias. A família se estabeleceu em Vicente de Carvalho, no Guarujá, antes de se mudar para a capital paulista, em 1956.

Em São Paulo, trabalhou em uma tinturaria como engraxate e office-boy. Mais tarde, ingressou na indústria e fez o curso de torneiro mecânico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Ainda jovem, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho com uma prensa na Metalúrgica Independência.

A aproximação com o movimento sindical ocorreu quando trabalhava nas Indústrias Villares, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, por influência do irmão José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico. Em 1969, Lula foi eleito suplente da diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Em 1975, Lula chegou à presidência da entidade.

Naquele mesmo ano, Frei Chico foi preso na fábrica onde trabalhava, em São Paulo, por agentes que se apresentaram como funcionários da prefeitura. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), então clandestino, o irmão de Lula foi levado ao DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, onde sofreu choques elétricos e outras torturas.

À frente do sindicato, Lula ganhou projeção nacional nas greves dos metalúrgicos do ABC no fim dos anos 1970, durante a ditadura militar. Em 1980, a categoria iniciou uma paralisação que durou 41 dias e tinha entre as reivindicações aumento salarial e redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução dos salários.

Em meio à repressão ao movimento, o governo decretou intervenção no sindicato e cassou a diretoria. Dois dias depois, em 19 de abril, Lula foi preso com outros dirigentes sindicais com base na Lei de Segurança Nacional. Permaneceu 31 dias no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo.

Durante a prisão, perdeu a mãe, Dona Lindu, que morreu em 12 de maio de 1980, aos 64 anos, em decorrência de um câncer no útero. Recebeu autorização para acompanhar o enterro sob escolta policial e foi recebido por cerca de dois mil trabalhadores, que pediam sua liberdade. Depois da cerimônia, retornou à carceragem do Dops.

Também em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), ao lado de outros sindicalistas, intelectuais e representantes de movimentos sociais. Em 1982, disputou o governo de São Paulo, mas não foi eleito. Dois anos depois, participou da campanha das Diretas Já, pela retomada das eleições diretas para presidente.

Em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo com a maior votação do país para o cargo. Exerceu o mandato de 1987 a 1991 e foi líder do PT na Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988. Foi seu único cargo eletivo antes de chegar à Presidência.

A primeira candidatura ao Palácio do Planalto veio em 1989, na primeira eleição direta para presidente desde 1960. Lula chegou ao segundo turno, mas perdeu para Fernando Collor. Voltou a disputar o cargo em 1994 e 1998, sendo derrotado por Fernando Henrique Cardoso nas duas ocasiões. A vitória veio em 2002, na quarta tentativa, quando venceu José Serra (PSDB).

A prisão

A ofensiva judicial contra Lula ocorreu em meio à crescente polarização política. Em junho de 2013, protestos contra o aumento das tarifas do transporte público se espalharam pelo país e incorporaram outras reivindicações. Nos anos seguintes, a crise econômica e as revelações da Lava Jato fortaleceram o antipetismo, com grandes atos pela saída da presidente Dilma Rousseff.

Reeleita em 2014, Dilma perdeu o mandato em agosto de 2016, após o Senado aprovar seu impeachment por acusações de "pedaladas fiscais" no Plano Safra e edição de decretos de crédito suplementar sem autorização do Congresso. A petista negou ter cometido crime de responsabilidade e classificou o processo como golpe parlamentar. O vice Michel Temer assumiu a Presidência.

Em 2016, Lula foi denunciado pelo Ministério Público Federal sob a acusação de receber vantagens indevidas da empreiteira OAS por meio da destinação e da reforma de um tríplex no Guarujá, em contrapartida a favorecimentos em contratos com a Petrobras. O petista negou as acusações e afirmou que o imóvel não lhe pertencia.

Em julho de 2017, o então juiz Sergio Moro — hoje governador eleito do Paraná pelo PL — o condenou a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em janeiro de 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês.

Lula foi preso em 7 de abril de 2018, após passar dois dias no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, cercado por apoiadores. Levado à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, permaneceu detido por 580 dias. Do lado de fora, militantes organizaram uma vigília pela sua liberdade.

Naquele ano, teve a candidatura à Presidência barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa e foi substituído por Fernando Haddad (PT). A eleição terminou com a vitória de Jair Bolsonaro, que ganhou força com um discurso antipetista e de combate à corrupção. Após a vitória, Bolsonaro escolheu Moro para comandar o Ministério da Justiça.

A volta por cima

Lula foi solto em 8 de novembro de 2019, um dia após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir, por 6 votos a 5, que condenados só poderiam começar a cumprir pena após o julgamento de todos os recursos. Com base na decisão, o juiz federal Danilo Pereira Júnior determinou sua libertação imediata.

Em 2021, o Supremo anulou as condenações de Lula na Lava Jato por considerar que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos, o que restabeleceu sua elegibilidade. Em outra decisão, a Corte reconheceu a parcialidade de Moro na condução do caso do tríplex.

De volta à disputa presidencial em 2022, Lula formou uma chapa com Geraldo Alckmin (PSB-SP), seu adversário em 2006, e reuniu uma aliança de partidos de diferentes campos políticos. No segundo turno, derrotou Bolsonaro com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10%, e conquistou o terceiro mandato.

Na eleição de 2026, o presidente chegou ao segundo turno em desvantagem: recebeu 45,16% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 47,03%, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. Nas semanas seguintes, a campanha reforçou a mobilização de apoiadores e ampliou sua presença nas redes sociais.

Uma das principais frentes de atuação foi o canal de WhatsApp "Exército do Lula", coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que organizou ações de compartilhamento de conteúdos e engajamento em publicações. Até o fim da campanha, o canal reuniu mais de 10 milhões de seguidores.

O canal chegou a ser alvo de disputas judiciais e suspenso pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. A campanha petista reverteu a suspensão, e as publicações foram retomadas em 14 de outubro, após o registro na Justiça Eleitoral e uma mudança nas regras de funcionamento.

A mobilização ganhou destaque pela capacidade de levar mensagens de apoio a Lula ao topo dos assuntos mais comentados do X (antigo Twiter). Janones classificou a iniciativa como uma "revolução digital" e afirmou que ela deixaria como legado uma maior presença da esquerda nas redes sociais.

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