Eleições

Reeleito, Lula governará isolado e terá Trump como rival

Quarto mandato do petista será marcado por poucos aliados na vizinhança e pressões dos EUA sobre comércio, soberania e minerais estratégicos

Avatar de Sofia Pilagallo
Sofia Pilagallo
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump | Fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil; e Daniel Torok/Official White House Photo

Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump | Fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil; e Daniel Torok/Official White House Photo

Reeleito pela 4ª vez, presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará o novo mandato com menos aliados ideológicos na América do Sul e uma relação de idas e vindas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — marcada por interesses econômicos e divergências políticas. Os desafios incluem a negociação comercial e a defesa da autonomia brasileira.

🤳 Notícias em primeira mão: baixe nosso aplicativo gratuito e leve o jornalismo do SBT News com você, onde estiver! Clique aqui

Na região da América do Sul, por exemplo, o avanço da extrema direita levou ao poder lideranças distantes do petista na Argentina, no Peru e na Colômbia. O argentino Javier Milei venceu a eleição de 2023. Aliado de Flávio, ele participou, em 25 de julho deste ano, da convenção nacional do PL em São Paulo que oficializou a candidatura do senador à Presidência.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT,Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung, LG e Roku.

Siga no Google Discover

Neste ano, as eleições peruana e colombiana ampliaram esse movimento. No Peru, Keiko Fujimori derrotou Roberto Sánchez no segundo turno de 7 de junho, por uma diferença de menos de 50 mil votos. Duas semanas depois, em 21 de junho, Abelardo de la Espriella venceu o esquerdista Iván Cepeda na Colômbia, também disputa que dividiu o país.

Entre os vizinhos do Brasil, poucos governos permanecem à esquerda ou à centro-esquerda: o Uruguai, com Yamandú Orsi, da Frente Ampla; a Guiana, com Irfaan Ali; e o Suriname, com Jennifer Geerlings-Simons. Lula mantém, assim, alguns interlocutores próximos, mas em um cenário regional menos favorável.

A Venezuela mantém um governo de origem chavista, comandado interinamente por Delcy Rodríguez, mas atravessa uma situação distinta. Ela assumiu após a operação militar dos Estados Unidos que capturou Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, em 3 de janeiro. Os dois respondem na Justiça americana a acusações de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e outros crimes.

Atritos com Argentina e EUA

Entre os líderes de direita da região, Milei foi o único que protagonizou embates diretos com Lula durante o terceiro mandato do petista. O argentino chamou o brasileiro de “corrupto” e “comunista” e, em junho de 2024, reiterou os ataques e recusou o pedido de desculpas cobrado por Lula. No mês seguinte, veio ao Brasil para um evento conservador e se encontrou com Jair Bolsonaro, sem se reunir com o presidente brasileiro.

Lula também acumulou atritos com Trump ao longo do terceiro mandato. Em julho de 2025, o americano anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou a medida, entre outros motivos, ao processo contra Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022. O republicano classificou o julgamento como perseguição política.

Uma nova frente foi aberta neste ano. Em 22 de julho, entrou em vigor uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974. O dispositivo permite investigar e adotar medidas contra práticas estrangeiras consideradas injustas, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio americano.

Nessa investigação, Washington questionou políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, ao Pix, à propriedade intelectual, ao etanol, ao combate à corrupção e ao desmatamento ilegal. O governo brasileiro rejeitou as acusações e anunciou que recorreria à Organização Mundial do Comércio (OMC), além de iniciar os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica.

Lula respondeu às pressões defendendo a soberania nacional e a independência do Judiciário. Embora tenha mantido disposição para negociar, afirmou que o Brasil não aceitaria interferência em assuntos internos. Durante a campanha, também declarou que o país estava preparado para enfrentar uma eventual tentativa de intervenção americana na eleição.

A atuação de Washington mobilizou parlamentares americanos. Em 24 de setembro, o senador Bernie Sanders e 30 deputados americanos enviaram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando explicações sobre medidas que viam como tentativas de favorecer Flávio Bolsonaro. O documento citava tarifas, sanções e o plano de enviar uma delegação ao Brasil para tratar do sistema eleitoral.

O tema também foi abordado pelo jornal “The New York Times”, que apresentou a eleição brasileira como um teste para a influência de Trump na América Latina. Segundo a reportagem, embora o presidente americano não tenha declarado publicamente apoio a um candidato, sua administração vinha beneficiando indiretamente Flávio.

Em resposta aos congressistas, o Departamento de Estado afirmou, em carta de 15 de outubro, apoiar o direito dos brasileiros a eleições livres e justas e manter o diálogo com o governo eleito. O documento, porém, não assumiu expressamente o compromisso de reconhecer o resultado certificado da disputa, como haviam solicitado os parlamentares.

Terras raras

Além das divergências políticas e comerciais, a relação com Washington envolve o interesse americano nas terras raras brasileiras. O país possui a segunda maior reserva mundial, estimada em 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. A dimensão dessas reservas coloca o Brasil entre os possíveis fornecedores para países que buscam diversificar suas cadeias industriais.

As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em componentes de eletrônicos, equipamentos de energia e outras tecnologias. Alguns deles são fundamentais para produzir ímãs de alto desempenho presentes em celulares, motores de veículos elétricos e turbinas eólicas.

O objetivo americano é reduzir a dependência da China, que domina a produção e o processamento desses materiais. Em fevereiro, o governo dos EUA apresentou o Brasil como parceiro estratégico para o setor. Em agosto, a empresa americana USA Rare Earth anunciou um aporte de US$ 750 milhões do governo Trump para concluir a aquisição da mineradora Serra Verde, em Goiás.

Em 16 de setembro, ao sancionar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), Lula criticou a entrega desses recursos em estado bruto aos EUA e defendeu seu processamento no Brasil. Na ocasião, ele afirmou que "nossa soberania não está à venda" e que "a riqueza do Brasil tem um único dono, o povo brasileiro."

Últimas notícias