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Internet na infância: presença dos pais é mais eficaz que aplicativos de controle, alerta especialista

Recursos como controle de tempo de uso e restrição de conteúdos podem gerar falsa sensação de segurança aos pais; veja o que fazer

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Internet na infância: presença dos pais é mais eficaz que aplicativos de controle | Freepick

Saber a senha do celular do filho não significa, necessariamente, entender possíveis embates emocionais enfrentados pela criança. A avaliação é da educadora parental Thelma Nascimento, especialista em escuta infantil, que alerta que monitorar telas sem diálogo pode criar uma falsa sensação de segurança aos pais.

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A avaliação ganha peso em meio a um cenário em que as crianças estão acessando a internet cada vez mais cedo. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, 92% das crianças e adolescentes entre nove e 17 anos já são usuárias da internet no país, sendo que 85% dos usuários dessa faixa etária possuem perfil em pelo menos uma plataforma digital, sobretudo no WhatsApp, Instagram e YouTube.

Em meio à hiperconectividade precoce, países têm discutido limites mais rígidos para o acesso de menores às plataformas digitais. Na Austrália, por exemplo, uma lei aprovada em 2025 proibiu o uso de redes sociais por menores de 16 anos. O mesmo foi feito na Espanha e na Dinamarca, enquanto parlamentares em países como Portugal, Reino Unido e França debatem medidas semelhantes.

No Brasil, o tema está avançando, sobretudo após a promulgação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em março. A lei é a primeira no país a propor regras e punições aplicáveis às plataformas digitais que infringirem os direitos de menores de 18 anos. O objetivo é mitigar os danos causados pelas redes sociais, já que muitos jovens são expostos a “conteúdos prejudiciais” na internet.

Em meio ao debate, Thelma chama a atenção para um ponto central: mais importante do que apenas proibir ou controlar o acesso à internet é garantir presença, escuta e acompanhamento real na vida digital dos filhos. Segundo ela, embora o controle de tempo de uso, histórico de navegação e restrição de conteúdos auxiliem no monitoramento das atividades, os recursos não resolvem o problema sozinhos.

“Essas ferramentas podem até ajudar, mas criam uma falsa sensação de segurança quando não vêm acompanhadas de diálogo e envolvimento real”, afirma. Para a especialista, a diferença central está entre controle parental e presença parental consciente. “O controle tenta limitar o acesso à tela; a presença tenta formar discernimento. Um olha para o dispositivo, o outro olha para a criança”, frisa.

Impacto no emocional

Além do comportamento, a internet pode acabar impactando o “mundo interno” de crianças e adolescentes. Conteúdos digitais podem despertar medo, vergonha, comparação, erotização precoce, raiva, fascínio ou confusão. Quando não há espaço seguro para conversar sobre essas experiências, o jovem acaba tentando elaborar tudo sozinho ou com base no que o algoritmo apresenta.

Thelma explica que muitas crianças não contam aos pais o que viram online não por má-fé, mas por medo de ouvir broncas, julgamentos ou frases como “eu avisei”. O medo de perder o acesso às telas também está entre os principais motivos dos jovens optarem pelo silêncio. “A criança aprende que, quando algo a assusta ou confunde, ela deve dar conta sozinha”, alerta.

Para mudar esse cenário, a especialista defende uma alteração de postura dos adultos. Em vez de agirem como “fiscais”, pais e mães precisam se apresentar como “porto seguro”. Na prática, isso significa transformar a conversa sobre internet em algo cotidiano, e não em um interrogatório que só acontece quando surge algum problema. Falar sobre vídeos, jogos, influenciadores, memes e trends deve fazer parte da rotina familiar.

Thelma sugere o uso de perguntas abertas, que convidem ao diálogo, no lugar de abordagens acusatórias. Questionamentos como “o que mais tem aparecido para você ultimamente?”, “tem algo online que te deixou desconfortável?” ou “qual foi a coisa mais estranha que você viu essa semana?” ajudam a criar um espaço de confiança. Também é importante deixar explícito que contar a verdade será sempre melhor do que esconder.

Como reagir a conteúdos sensíveis

Além da conversa, a educadora destaca a importância de organizar o ambiente familiar. Espaços compartilhados para uso de telas, momentos sem notificações, refeições sem dispositivos, cuidado com a rotina de sono e regras claras, ajustadas à idade, ajudam a recolocar a internet no lugar de ferramenta, e não de território sem presença adulta.

Quando surgem conteúdos sensíveis, como pornografia, misoginia, automutilação, violência ou discursos de ódio, Thelma defende uma abordagem firme, porém regulada emocionalmente. A orientação é acolher primeiro, compreender depois e só então conduzir a situação. Isso porque, segundo a especialista, a criança ou adolescente aprende melhor quando não está no modo defensivo.

“Acompanhar o que filhos consomem na internet não é entrar em guerra com a tecnologia. É não abandonar a criança e o adolescente dentro dela. O controle pode fechar algumas portas, mas é a presença parental consciente que ensina quais portas não devem ser atravessadas e por quê”, avalia Thelma. “Não dá para pedir conexão emocional estando ausente atrás da própria tela”, acrescenta.

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