Planalto vê renúncia de Peña como mais uma derrota de Trump
Interlocutores do governo Lula avaliam que crise no Paraguai reforça a tese de que pragmatismo e integração regional são caminho contra interferências dos EUA

Santiano Penã e Lula se encontram no Itamaraty, em janeiro de 2024 | Ricardo Stuckert/PR
A crise bancária que desembocou na renúncia abrupta do presidente do Paraguai, Santiago Peña, nesta quinta-feira (5) é vista pelo Palácio do Planalto como a terceira derrota consecutiva de Donald Trump em menos de duas semanas. A tríade considera a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a “onda azul” democrata que tomou conta do Congresso no pleito de meio de mandato dos EUA.
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Em condição de reserva, interlocutores do governo Lula disseram que a saída de Peña, um aliado de primeira hora dos EUA desde sua eleição em 2023, manda um sinal à América Latina sobre a fragilidade de adotar uma agenda excessivamente dependente de Washington e agressiva em relação ao Brasil. A avaliação é de que a embaixada americana em Assunção tentou a todo o custo evitar a renúncia.
Apesar disso, o Planalto está ciente de que segue cercado de uma vizinhança inclinada à direita, e portanto não é hora de cravar uma nova “onda rosa” a caminho. O termo definiu a ascensão de governos reformistas de centro-esquerda na primeira década dos anos 2000, a exemplo dos Kirchner na Argentina, de Michelle Bachelet no Chile e de Pepe Mujica no Uruguai.
O pêndulo ideológico que move o continente de tempos em tempos é visto como um padrão histórico que impõe uma missão de curtíssimo prazo: consolidar uma relação pragmática entre os governos regionais independentemente de alinhamentos ideológicos.
Nesse sentido, o Planalto vê gestos positivos vindo de figuras como a peruana Keiko Fujimori, o equatoriano Daniel Noboa, o boliviano Rodrigo Paz e o chileno José Antonio Kast. Todos reconheceram a vitória de Lula e evitaram seguir a linha de atacar o presidente brasileiro, como fez Javier Milei e a alta cúpula da Casa Rosada.
Mas esses mesmos presidentes da direita enfrentam crises de popularidade e arriscam não conseguir se manter no poder em breve, mantendo a tendência de eleições cada vez mais apertadas e decididas “no detalhe" – como o Planalto já espera que serão as eleições de 2030, quando Lula não poderá concorrer novamente.
O ponto mais urgente dessa agenda de integração é o combate ao crime transfronteiriço, sobretudo o narcotráfico. O Brasil quer barrar o protagonismo dos Estados Unidos e de seu programa Escudo das Américas, visto como uma brecha clara para operações militares americanas em regiões estratégicas, como a Amazônia.
Ações integradas de combate ao desmatamento e de promoção da América do Sul como pilar do desenvolvimento ambientalmente sustentável também têm, aos olhos do Planalto, potencial para aproximar os governos da região.
A orientação dada a Lula em seu quarto mandato é manter os gestos de aproximação com líderes regionais, recebendo todos os presidentes pelo menos a cada dois anos.
















