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Entenda a crise que levou à renúncia do presidente paraguaio

Santiago Peña não resistiu a escândalo financeiro milionário envolvendo banco que controlava ativos previdenciários

A
Por André de Sena
Ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña |  César Olmedo/Reuters

Ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña | César Olmedo/Reuters

A crise no Paraguai envolvendo o banco digital Ueno Bank chegou a seu ápice nesta quinta-feira (5), com a renúncia do presidente do país, Santiago Peña. O episódio começou com o colapso de uma empresa que possuía quase três milhões de clientes e administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, e tomou proporções ainda maiores quando vieram a público ligações entre a instituição financeira e o chefe do Executivo paraguaio.

O que provocou o fechamento do Ueno Bank?

O Ueno Bank começou a operar em fevereiro de 2022, oferecendo aos clientes contas bancárias digitais, cartões de crédito e débito, transferências e pagamentos pelo celular, além do recebimento de pagamentos relacionados a benefícios sociais. Em poucos anos, a instituição financeira chegou perto da marca de três milhões de usuários. A população do Paraguai é de 6,4 milhões de pessoas.

Entre os ativos controlados pelo banco havia US$ 355 milhões relacionados ao Instituto de Previdência Social paraguaio. Além disso, cerca de 32 mil aposentados possuíam contas na instituição.

O Banco Central detectou graves irregularidades financeiras no Ueno Bank e determinou na terça-feira (3 de novembro) o início do procedimento de resolução da companhia. Na prática, isso significava que as autoridades iam transferir contas e ativos que ainda poderiam ser recuperados para outras instituições financeiras e liquidar o que restasse da empresa.

Entre as irregularidades detectadas estavam empréstimos milionários que o Ueno Bank fazia a empresas que pertenciam a integrantes do próprio conglomerado empresarial, o Grupo Vázquez. Quando os compromissos assumidos nesse tipo de operação não são pagos, a instituição financeira passa a acumular prejuízos.

Uma análise do banco Central apontou que o índice de solvência do Ueno Bank estava abaixo do mínimo exigido de 50%. Isso significa que a instituição não tinha capital suficiente para sustentar suas operações.

Por que o presidente do Banco Central renunciou?

No mesmo dia em que teve início o procedimento de resolução, começou a circular uma informação que agravou a crise: o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, já havia dirigido a Financeira Ueno, que posteriormente se tornaria o Ueno Bank. Isso aconteceu antes de ele assumir o cargo público, em agosto de 2023. Mesmo assim, parlamentares e críticos ao governo levantaram a suspeita de que houve favorecimento à empresa.

Também em 3 de novembro, Carvallo renunciou ao cargo de presidente do Banco Central. Ele disse que tomou a decisão para reduzir a controvérsia em torno da instituição e permitir que os órgãos de supervisão conduzam o processo sem interferências políticas e midiáticas. Mesmo assim, a crise continuou a se agravar.

Qual a ligação de Peña com o Ueno Bank?

Carvallo não era o único homem com poder no setor público que possuía ligações com o Ueno Bank. O presidente paraguaio, o conservador Santiago Peña, foi sócio do Grupo Vázquez antes e depois de assumir o comando do Executivo, em agosto de 2023. De acordo com a agência de notícias Reuters, essa relação empresarial durou até março de 2025.

O conflito de interesses fez com que a crise financeira se tornasse também uma crise de legitimidade política, levando parlamentares da oposição a protocolarem um pedido de impeachment contra Peña. Sua imagem foi tão prejudicada que até mesmo os governistas conservadores do Partido Colorado retiraram o apoio ao chefe do Executivo.

A situação levou o presidente a renunciar nessa quinta-feira, enquanto o Congresso dava continuidade ao processo de impeachment. “Faço isso tendo em mente a estabilidade do nosso país, a paz social e a necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, afirmou ele em um vídeo postado nas redes sociais. Com esse gesto, o vice de Peña, Pedro Alliana, deve assumir a presidência.

Peña e Carvallo podem ser responsabilizados criminalmente?

Mesmo renunciando a seus cargos, Peña e Carvallo ainda podem ser responsabilizados criminalmente pelo escândalo financeiro. De acordo com o jornal paraguaio ABC Color, o procurador-geral do Paraguai incluiu o ex-presidente em uma investigação da Unidade Especializada em Delitos Econômicos e Anticorrupção do Ministério Público.

Também existe uma denúncia contra Carvallo, feita por parlamentares e que pode gerar desdobramentos criminais. Na quarta-feira (4), o Ministério Público já havia solicitado medidas cautelares contra 27 pessoas investigadas pelo escândalo do Ueno Bank.

Os clientes do banco vão receber dinheiro de volta?

De acordo com o Banco Central, que foi assumido interinamente por Liana Caballero, os depósitos feitos pelos clientes do Ueno Bank estão protegidos pelo mecanismo legal de garantia, que prevê cobertura de até 75 salários mínimos, aproximadamente US$ 39 mil, por depositante.

Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, a prioridade do Legislativo é permitir que as famílias afetadas recuperem os recursos no menor prazo possível.

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