Sob pressão de preços, EUA liberam compra de petróleo russo
Medida é temporária e vale apenas para barris retidos no mar; objetivo é estabilizar mercado global de energia em meio ao conflito com Irã

Camila Stucaluc
Os Estados Unidos emitiram, na quinta-feira (12), uma licença de 30 dias que permite a países comprar petróleo e derivados da Rússia retidos no mar. Essa é a primeira vez que Washington suspende as sanções contra Moscou desde 2022, ano em que o país iniciou a invasão na Ucrânia.
A compra e venda vale para navios russos carregados até 12 de março. Segundo o Departamento do Tesouro, a medida visa estabilizar o mercado global de energia, abalado pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que se estendeu ao Estreito de Ormuz — por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial.
Em meio ao cenário de instabilidade, provocado pelos ataques a petroleiros e pelo fechamento da rota marítima pelo Irã, o preço do barril, geralmente fixado em US$ 90, ultrapassou US$ 100, atingindo o nível mais alto em quase quatro anos.
“Estamos tomando medidas decisivas para promover a estabilidade nos mercados globais de energia e trabalhando para manter os preços baixos enquanto enfrentamos a ameaça e instabilidade representadas pelo regime terrorista iraniano”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent. “O aumento dos preços do petróleo é temporário e de curto prazo”, acrescentou.
Bessent reforçou que a licença não proporcionará “ganho financeiro significativo” ao governo russo. A fala foi contrariada por Kirill Dmitriev, enviado do Kremlin, que afirmou que a medida permitirá a venda de cerca de 100 milhões de barris de petróleo russo atualmente retidos no mar.
“Isso, sem dúvida, atrairá críticas dos democratas no Congresso, que criticaram a administração por flexibilizar as sanções ao petróleo russo que permitiam vendas limitadas apenas para a Índia. A nova licença é muito mais ampla e permite vendas em qualquer lugar do mundo. A suspensão das sanções faz do [presidente Vladimir] Putin um dos principais beneficiários da guerra no Oriente Médio”, disse Dmitriev.
Temor de escassez
A volatilidade dos preços reflete a preocupação dos investidores com possíveis interrupções prolongadas no fornecimento global de petróleo. Segundo relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o conflito no Oriente Médio já provoca a maior interrupção de oferta registrada no mercado global, afetando cerca de 7,5% do suprimento mundial.
Em meio ao temor de escassez, os 32 países membros da IEA decidiram liberar 400 milhões de barris no mercado internacional. Ao mesmo tempo, governos estão anunciando suas próprias medidas para conter o possível aumento dos preços de alimentos e combustíveis.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) zerou o imposto sobre a importação do diesel (R$ 0,32 por litro) e assinou uma medida provisória (MP) com subvenção ao diesel para produtores e importadores. As medidas, que visam gerar um alívio de R$ 0,64 por litro do combustível nas bombas, foram anunciadas em caráter temporário – até dia 31 de dezembro deste ano.
O que está acontecendo no Oriente Médio?
O Irã foi alvo de um ataque coordenado entre Estados Unidos e Israel no 28 de fevereiro. O bombardeio, que deixou mais de 500 mortos, ocorreu em meio às negociações de Teerã com Washington sobre um novo acordo nuclear.
Restringir a capacidade nuclear do Irã tem sido uma das prioridades da política externa de Washington há décadas. Em 2015, o então presidente Barack Obama fez um acordo com o país, limitando as atividades nucleares e permitindo a inspeção das instalações para garantir que fossem usadas apenas para fins civis e não para a produção de armas. Em troca, o Irã recebia alívio nas sanções.
Tal acordo, no entanto, foi rasgado em 2018 por Donald Trump, que alegou que o acordo era benéfico demais para o Irã. Com isso, o país deixou de cumprir o acordo e elevou o grau de enriquecimento de urânio – que pode ser usado para fazer bombas nucleares. O governo de Joe Biden até tentou retomar o acordo, oferecendo novamente alívio nas sanções econômicas, mas não obteve sucesso.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vinha pressionando o governo iraniano a limitar ou abandonar o programa nuclear, sob a justificativa de que o país estaria próximo de desenvolver uma bomba atômica. A acusação é rejeitada por Teerã, que afirma que o programa tem fins pacíficos, voltados sobretudo à produção de energia.
Dias antes do ataque, representantes iranianos e norte-americanos se encontram na Suíça para debater um novo acordo nuclear. Eles haviam classificado o encontro como positivo, dizendo que o próximo passo envolveria equipes especializadas de ambos os países em Viena, na sede da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Na manhã de sábado, no entanto, Trump acusou o Irã de “voltar a perseguir suas ambições nucleares”, mesmo após os ataques de 2025, resultando em novos bombardeios, desta vez em parceria com Israel. Em retaliação aos ataques, Teerã lançou mísseis contra Israel e atacou bases militares norte-americanas no Oriente Médio. Um ataque direto aos Estados Unidos também foi prometido pelos iranianos.
O conflito se expandiu após o Hezbollah, aliado do Irã, lançar mísseis contra Israel, que respondeu atacando alvos em todo o Líbano, país onde o grupo é dominante. Além disso, drones iranianos atingiram bases militares europeias no Oriente Médio. A ação resultou em um comunicado conjunto entre França, Alemanha e Reino Unido, que sugeriram a possibilidade de entrar no conflito para "a defesa de seus interesses e de seus aliados".
As hostilidades entre Irã e Estados Unidos escalaram para o Estreito de Ormuz. Situada entre o Irã e Omã, a região é um ponto estratégico por ser a principal rota de saída para cerca de 20% do petróleo mundial. Por esse motivo, confrontos militares na região levantam sérias preocupações sobre a segurança energética e a estabilidade do mercado global de petróleo, o que pressiona a economia.









