Brasil

'Vulnerabilidade cura': os homens que vão na contramão do movimento red pill e discutem masculinidade saudável

Confrontados pelas próprias sombras, Fabio Manzoli e Thiago Oliveira optaram por olhar para dentro de si mesmos e hoje ajudam outros meninos e homens

Em meio a uma legião de "coaches" que despejam certezas rígidas e fórmulas prontas sobre como se relacionar com mulheres, frequentemente pautadas na ideia de que homens são vítimas de uma sociedade que os desfavorece, existem homens que têm ido na contramão desse movimento. Tomados pelo conflito em relação à própria masculinidade, eles optaram por olhar para dentro de si mesmos, em vez de reagir com ataques — e hoje ajudam outros meninos e homens a seguir pelo mesmo caminho.

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Fabio Manzoli, de 47 anos, "recalculou a rota" há cerca de uma década. Formado em administração pela tradicional Faculdade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, ele foi trabalhar no mundo corporativo, como todo bom "geveniano". Em 2016, após uma busca pela espiritualidade, iniciada em 2009, decidiu que era a hora de tomar outros rumos.

Durante a jornada por propósito e paz interior, Fabio descobriu que, além de sofrer de insegurança no mundo corporativo, que o impedia de prosperar no trabalho, tinha padrões de comportamento nocivos — para ele mesmo e para as mulheres com quem se relacionava. Apesar de ser um homem afetuoso, era "explosivo" com as mulheres, principalmente em relacionamentos amorosos.

"De vez em quando eu perdia a linha e acabava falando um monte de besteira. Não necessariamente aos gritos, mas eram falas com traços bem narcisistas, com o intuito de machucar a companheira. Depois eu 'voltava' e pedia desculpa. E isso se repetia, até que chegava uma hora que ela terminava comigo", conta Fábio.
"Por muito tempo, eu culpava as mulheres pelas minhas explosões, até amadurecer e perceber que nada justificava aquele comportamento. Continuo não sendo perfeito, mas não 'surto' mais em relacionamento amoroso há dez anos", acrescenta.

Durante esse processo, Fábio percebeu que suas questões se estendiam também à esfera sexual. Além de ter que lidar com a disfunção erétil, ele tinha problemas de libido. A atração acabava, ou diminuía, depois da "conquista". Via as mulheres ora como "prostitutas", ora como "santas", quando o relacionamento evoluía para namoro.

Relacionava suas questões sexuais também aos efeitos do consumo de pornografia, hábito que manteve até o fim de 2016. Hoje entende que a pornografia está diretamente ligada a um processo de desumanização da mulher e, indiretamente, também dos homens, que são ensinados a reprimir os próprios sentimentos e renegar tudo o que é socialmente associado ao feminino.

"A gente só pode sentir raiva, não pode ser sensível porque é 'mariquinha' ou 'mulherzinha', não pode ser afetuoso, não pode ser muito sorridente, tem que ser rígido, estar sempre em estado de prontidão sexual, resolver tudo na pancada e jamais falar em sentimentos. É desumanizante", afirma Fábio, que hoje se permite chorar e se emocionou várias vezes ao longo da entrevista.

Foi após um retiro de silêncio de três dias que Fábio decidiu dar início à transição de carreira. Teve certeza de que passaria o resto da vida trabalhando com homens.

À época, apesar de ser visto por amigos e conhecidos como alegre e bem resolvido, vivia internamente um sofrimento profundo, marcado, inclusive, por pensamentos suicidas recorrentes. A mudança começou a ganhar forma quando se permitiu ser vulnerável. Sentado em uma canga na grama no Parque Ibirapuera, na companhia de duas amigas, conseguiu se abrir sobre seus sentimentos pela primeira vez, aos 37 anos.

"Falei sobre traumas de infância e sobre como isso se conectava com atitudes machistas e momentos em que fui tóxico com mulheres. Lembro de ficar muito nervoso, imaginando como seria para elas ouvir aquilo de mim. Mas elas se emocionaram", relata. "Aquele momento virou uma chave na minha cabeça. Entendi que a vulnerabilidade é, de fato, um caminho de cura."

Atualmente, Fábio vive exclusivamente do trabalho que desenvolve com o público masculino, com foco no desenvolvimento emocional e na vivência da sexualidade. Ao longo dos anos, passou a atender diferentes demandas, como disfunção erétil, abandono do consumo de pornografia e dificuldades na intimidade e na comunicação afetiva, seguindo na contramão da cultura do "engole o choro" e dos filmes adultos.

Fábio é criador do "Hora H", programa online direcionado para homens adultos, e mantém uma comunidade digital para meninos mais jovens, voltada ao desenvolvimento emocional desde os primeiros anos da adolescência. Ele também conduz mentorias coletivas e atua em empresas com palestras e workshops, promovendo ambientes mais respeitosos e inclusivos.

'Homem sem Tabu'

Thiago Oliveira, de 42 anos, também aprendeu a lidar com sua masculinidade de um jeito mais saudável. Formado em biologia e estudante de psicologia que trabalha no ramo da comédia, ele começou a falar sobre tabus masculinos nas redes sociais há cerca de sete anos. Não por acaso, criou o vulgo "Homem sem Tabu". Hoje, acumula mais de 200 mil seguidores em seus perfis

A ideia de passar a abordar esse tipo de assunto surgiu a partir de uma conversa com um amigo, outro comediante, que à época tinha 25 anos. Esse amigo estava indo para um encontro com uma mulher e disse a Thiago que estava atrasado porque tinha que comprar Viagra. O comentário chamou a atenção do comediante, que perguntou por que ele precisava daquilo.

A resposta revelou uma experiência comum a muitos homens: o amigo havia broxado uma vez, depois outra, e o nervosismo acumulado fez com que ele passasse a comprar o medicamento sempre que achava que poderia fazer sexo. Com o tempo, passou a carregar o comprimido como uma espécie de "garantia".

A conversa se estendeu por horas e abriu espaço para reflexões mais amplas sobre tabus masculinos, inseguranças e as pressões associadas à construção do que significa "ser homem". Em determinado momento, o amigo se surpreendeu ao saber que Thiago nunca havia recorrido a esse tipo de recurso e quis saber se ele já havia enfrentado situações semelhantes. A resposta foi que, sim, já tinha acontecido — mas sem o mesmo peso.

"No final, ele me agradeceu e disse: 'Cara, obrigado, eu nunca tinha conversado sobre isso com nenhum amigo'. Aquilo me marcou", conta Thiago.
"Eu fiquei em casa pensando: 'Que loucura! Como assim, ele nunca falou disso com ninguém?' Resolvi gravar um vídeo sobre o tema, falando da minha própria experiência, de quando tinha passado por isso, e tentando mostrar que é algo mais comum e natural do que parece. Como eu não tinha onde postar, criei um perfil novo. Me veio a ideia de que aquilo era um tabu masculino, e daí surgiu o nome 'Homem Sem Tabu'", acrescenta.

Com o passar do tempo, o interesse pelo tema cresceu. Thiago iniciou uma especialização de dois anos em sexualidade humana e, paralelamente, começou a estudar por conta própria, buscando referências na psicologia e em autoras que discutem gênero, como Judith Butler e Simone de Beauvoir. Na pandemia, também fez lives com pessoas conhecidas, o que ampliou o alcance do projeto.

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Naturalmente, durante esse processo, Thiago passou por um movimento pessoal de transformação. Ele afirma que nunca se enxergou dentro do estereótipo do "homem babaca", mas reconhece que chegou a reproduzir comportamentos normalizados por muitos homens, como abordar mulheres de forma invasiva em festas, chegando a segurá-las pelo braço na tentativa de forçar um beijo.

Thiago teve essa atitude uma única vez, durante uma festa de Carnaval e, ao ser rejeitado de forma clara por uma mulher, percebeu o impacto da atitude e decidiu não repeti-la. Ele não se considera melhor ou mais "desconstruído" do que outros homens, nem pretende servir de exemplo, mas está em um processo contínuo de aprendizado e revisão de comportamentos.

Para Thiago, o avanço do movimento "red pill", da misoginia e da violência contra as mulheres pode ser explicado pelo fato de que muitos homens reagem de forma agressiva à rejeição, sendo incapazes de lidar com o "não" e com as próprias frustrações. Nesse cenário, jovens frustrados acabam encontrando na internet discursos que reforçam ressentimentos e oferecem respostas simplistas, baseadas no controle e na inferiorização das mulheres.

"Quando a gente vê notícias de um cara que esfaqueou uma mulher porque ela não quis ficar com ele [caso Alana Rosa], isso mostra o tamanho do problema. Já ouvi muitos 'nãos' na minha vida, e o que eu fiz foi sofrer, chorar. Uma vez meu pai chegou em casa e eu estava chorando em posição fetal porque tinha terminado um noivado. Falei: 'Me paga uma terapia, porque além de corno, estou desempregado'", disse.
"Claro que existem homens velhos fazendo coisas bizarras por aí, mas esse discurso 'red pill' afeta principalmente os jovens, que estão lidando com suas primeiras decepções amorosas. A verdade é: 'Meu amigo, você teve uma. Quer que eu te dê uma notícia? Você vai ter mais um monte. Um monte. Vá aprender a lidar com isso. Vá aprender a lidar com o 'não'", acrescenta.

Crise do capitalismo contemporâneo e da masculinidade

Na opinião do sociólogo Sandro Justo, doutor em serviço social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alguns pontos ajudam a compreender o crescimento do movimento "red pill" e de outros discursos da chamada "machosfera". O primeiro deles é que o fenômeno está conectado a um projeto político mais amplo, alinhado à ascensão da extrema direita em diferentes países, que propõe um determinado modelo de sociedade.

Em segundo lugar, aparece o fenômeno conhecido como "ressentimento de gênero". O conceito gira em torno da ideia de que meninas e jovens mulheres tendem a viver hoje em condições mais favoráveis do que as de gerações anteriores — com maior autonomia, liberdade e acesso a direitos —, enquanto muitos meninos percebem uma perda relativa de privilégios historicamente associados ao masculino.

A isso, soma-se ao que Justo define como uma "crise do capitalismo contemporâneo", marcada por desemprego, precarização do trabalho e instabilidade financeira. Nesse contexto, como o papel tradicional do "homem provedor" se torna cada vez mais difícil de ser sustentado, jovens da classe trabalhadora acabam sendo seduzidos pelos discursos da "machosfera".

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Não por acaso, observa Justo, a narrativa dos "red pills" costuma articular três elementos principais: misoginia, ostentação de riqueza e promessa de acesso facilitado às mulheres. Para homens da classe trabalhadora, que enfrentam baixos salários, precariedade e instabilidade no emprego, esse discurso se torna especialmente sedutor, por enxergarem nessas narrativas uma possibilidade de ascensão.

Justo observa ainda que o movimento "red pill" frequentemente se apresenta sob a roupagem de um suposto "autodesenvolvimento", ao transferir para o indivíduo a responsabilidade por todas as transformações em sua vida, causando ainda mais frustração. Nessa lógica, as dimensões estruturais dos problemas são deixadas de lado, enquanto se impõe uma explicação simplista, centrada na ideia de falta de "mindset" (mentalidade).

"Não podemos nos esquecer que, hoje, no Brasil, a classe trabalhadora é formada majoritariamente por trabalhadores informais, ou seja, trabalhadores sem direitos, que muitas vezes vivenciam condições extremamente precárias de trabalho, com jornadas longuíssimas. Hoje, um dos debates centrais do Brasil é o fim da escala 6x1. Olha o quanto estamos atrasados em termos de condições dignas de trabalho", afirma Justo.
"E então esses homens, que aprenderam durante toda a vida que devem ser o provedor da família, acabam traduzindo essa crise societária econômica como uma crise de sua masculinidade. Eles atribuem a culpa dessa crise ao movimento feminista, que 'desajustou' esses papéis sociais de gênero, e acreditam que, se enfrentam instabilidade no emprego, a culpa é das feministas, que ocuparam esses postos de trabalho", acrescenta.

Para Justo, conter o avanço da misoginia e dos discursos da "machosfera" exige a articulação de três pilares fundamentais. O primeiro é o letramento de gênero, com foco na reeducação dos meninos. Ele defende que essa formação seja incorporada de maneira transversal em toda a educação básica — e não restrita a disciplinas específicas —, além de ultrapassar os limites da escola e alcançar outros espaços da vida social.

O segundo ponto é o avanço na criminalização da misoginia, sobretudo diante da ampla disseminação, nas redes sociais, de conteúdos que incentivam a submissão feminina e podem se desdobrar em práticas violentas. Por fim, Justo aponta a necessidade de regulamentar as plataformas digitais, já que o próprio modelo de funcionamento dessas empresas tende a favorecer a circulação e o engajamento com esse tipo de discurso.

"Não há dúvida de que os homens são parte do problema — somos nós que agredimos, assediamos, estupramos e matamos. Por isso, é fundamental reconhecer essa responsabilidade", diz Justo. "Mas é preciso ir além: os homens também podem e devem ser parte da solução. As mulheres e os movimentos feministas sustentam essa luta há séculos; já passou da hora de os homens assumirem o seu papel nesse processo."

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