Grafiteiras criadoras de mural em SP usam arte de rua contra feminicídio
'Memorial pela Vida das Mulheres' foi pintado na Marginal Tietê, por onde Tainara Souza Santos foi arrastada por mais de um quilômetro em novembro

Sofia Pilagallo
Ir a um museu ou a uma galeria de arte é uma escolha. Já ver uma obra de grafite pintada em um muro ou um lambe-lambe afixado em um poste, não. É algo que se impõe aos olhos e "atravessa" as pessoas, quer elas queiram, quer não. Esse é o poder da arte de rua, que pode ser um grande aliado na luta contra o feminicídio, pauta central deste domingo (8), Dia Internacional da Mulher.
O ponto de vista é das grafiteiras Simone Siss, de 53 anos, e Katia Lombardo, de 54 anos, idealizadoras do "Memorial pela Vida das Mulheres", um mural de mais de 180 metros pintado na Marginal Tietê, em São Paulo, em homenagem a Tainara Souza Santos e a todas as vítimas de feminicídio, inaugurado no último domingo (1). Em 29 de novembro, a jovem foi arrastada por mais de um quilômetro na via por um ex-ficante, caso que chocou o país pela brutalidade.
Tainara teve as duas pernas amputadas, passou por cinco cirurgias e morreu quase um mês depois, em 24 de dezembro. O mural foi construído no mesmo trecho por onde a jovem foi arrastada, tornando-se um símbolo da luta contra o feminicídio. O trabalho contou com a participação de mais de 30 artistas convidadas, de diferentes vertentes, gerações e lugares da cidade.
"Quando você vai a uma galeria, você sabe mais ou menos o que vai encontrar. Na rua, não, você vira a esquina e se depara com um paredão gigantesco, com uma imagem que, às vezes, pode até te agredir, sabe? A pessoa vê, querendo ou não", afirma Simone. "Você pode pensar: 'Nossa, não gostei disso'. Ou: 'Amei'. Ou: 'Mexeu comigo'. Alguma coisa ela vai causar."
"A arte de rua pode ser muito política. O simples ato de estar na rua já é muito político, porque a rua não é tida como um local adequado para um corpo feminino", diz Katia. "A arte de rua também democratiza a arte", acrescenta a artista, ressaltando que Simone participou de um projeto em que criou releituras de obras de Tarsila do Amaral em prédios no centro de São Paulo.
Simone e Katia se conheceram em 2012. À época, Simone produziu a capa do single "Superstar", da Madonna — e Katia, que trabalha também com fotografia, fez registros da colega para uma revista. Elas então se tornaram amigas e hoje tocam projetos em conjunto, entre eles, o Lar Galeria, idealizado por Katia, e o "Murão das Manas", que já teve duas edições.
O "Murão das Manas" levou 12 artistas mulheres para pintar um muro no Beco do Batman, na Vila Madalena — considerado um museu de arte de rua a céu aberto — e mais de 20 artistas para pintar muros e casas na Casa Verde, zona norte de São Paulo. Foi a partir desse projeto que surgiu o convite, do Ministério das Mulheres, para pintar o mural em homenagem às vítimas de feminicídio.
O mural
O mural foi pintado entre 28 de fevereiro e 1º de março, quando foi inaugurado com um ato com a presença de movimentos sociais, sindicais, moradores da região e parlamentares. Estiveram presentes também as ministras Márcia Souza, das Mulheres, Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, e o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.
O trabalho conjunto combina elementos sutis com frases de efeito e poesia. Um dos principais elementos do mural é uma imagem de Tainara em tamanho aumentado, de cerca de quatro metros de altura, pintada por Simone. Em uma de suas mãos, foi colocada uma planta, representando seu renascimento, e, logo ao lado, as frases "Mulheres vivas", "Brasil contra o feminicídio" e "Proteja, denuncie, ligue 180 [central de atendimento à Mulher]".
"Acho que tenho mais de duas mil frases, que escrevo em momentos de inspiração, e fiz questão de colocar nesse muro uma delas, que já joguei em tudo quanto é lugar: 'Sou Maria e vou com as outras', bem grandona", diz Simone. "Sempre escutei: 'Não seja Maria vai com as outras'. E hoje a gente tem que fazer o contrário. A gente tem que ser Maria e ir com as outras, porque somos todas Marias."

A mãe de Tainara, Lúcia Aparecida da Silva, esteve presente nos dias de confecção do mural e, no sábado, fez questão de falar com cada uma das artistas individualmente. Segundo Simone e Katia, ela chegou chorosa, com um semblante triste, mas à medida em que conversava com as mulheres ali presentes, mudou o astral e abriu um sorriso.
Para Katia, a vontade de todas as artistas, num primeiro momento, era de extravasar, adicionando ao mural imagens agressivas e frases como "Parem de nos matar". Apesar disso, o consenso foi de que o mural deveria trazer uma mensagem de força, mas também de acolhimento, pensando nos moradores locais e em dona Lúcia. Inevitavelmente, o trabalho contém ainda elementos que tocam em pontos sensíveis.
"Eu estava lá pintando quando um rapaz passou e disse: 'Poxa, você poderia acrescentar o nome da minha prima? Ela foi vítima de feminicídio em 2017.' Então, quando alguém passar por lá e vir aqueles nomes, como os de Tainara e de Eloá [Eloa Cristina Pimentel, vítima de feminicídio em 2008], junto a todas aquelas imagens e mensagens, vai ficar muito claro do que se trata", afirma Katia.
"Ainda assim, todas as imagens 'falam' de um jeito que não agride a comunidade. No meu trabalho, por exemplo, eu fiz um abraço para dizer: 'Vocês não estão sozinhas, vamos nos unir, e homens, se unam também a nós'", acrescenta a artista, ressaltando que o projeto recebeu o apoio de todos os colegas grafiteiros, homens que reconhecem a urgência da pauta e ofereceram apoio.
'Causa urgente'
As artistas tiveram cerca de duas semanas para pensar na arte que fariam no mural. Como Tainara gostava muito de futebol de várzea e era torcedora apaixonada do time Apache Vila Maria, Katia resolveu pintar um time de mulheres abraçadas de costas. A artista queria escrever na camiseta a frase "Todas Tainara", mas dona Lúcia sugeriu que os nomes de outras vítimas fossem incluídos.
No período dessas duas semanas, uma amiga de Tainara também foi vítima de feminicídio, e Katia teve de acrescentar ao mural o nome de Priscila Versão. Ela morreu aos 22 anos, em 23 de fevereiro, após ser espancada pelo então companheiro, David Bezerra Pereira, de 35 anos. O homem levou Priscila, já sem vida, a uma unidade de saúde e ameaçou atear fogo ao próprio corpo.

Simone conta que só nos últimos dias conseguiu digerir o "misto de sentimentos" que a atravessou após a conclusão do trabalho. Por um lado, muito amor. Por outro, uma tristeza profunda. Ela lembra que todas as artistas para quem ligou choraram junto com ela e diz que foi importante conseguir dar vazão às emoções por meio da arte.
"O caso da Tainara e tudo que vem acontecendo está mexendo muito com todas as mulheres. E a gente conseguiu colocar todas juntas e botar isso para fora. Foi muito importante, muito emocionante, mexeu muito com todas nós", afirma Simone. "Eu tinha certeza de que iria dar certo porque essas artistas maravilhosas que a gente contatou estavam com o coração aberto e deixaram um pedaço do coração delas nesse muro."
Uma dessas artistas é Aline Ribeiro, de 38 anos, conhecida como "Tuka". Para ela, fazer parte do projeto também gerou um misto de emoções — coincidentemente, a falecida mãe dela tinha o mesmo nome da mãe de Tainara. No primeiro dia de trabalho, ela conta ter ficado improdutiva, tentando assimilar, ao mesmo tempo, a perda de dona Lúcia e a ausência da mãe.
Aline revela que tem uma amiga, também grafiteira, que está vivendo um relacionamento abusivo, e que essa foi outra questão que mexeu com ela durante a execução do trabalho. Ela se define como uma "ativista social lutando pela igualdade de gênero" e sempre traz personagens femininas em suas obras. Neste projeto, pintou duas mulheres servindo de escudo para uma terceira, a personagem principal.

"O tema que quis dar a esse projeto é: 'Protejam suas amigas'", diz Aline. "Sabemos de uma amiga que está passando por abuso, agressões e torturas psicológicas, e é muito difícil defendê-la. A gente sabe que ele está entrando na mente dela para que ela o perdoe. Geralmente, as mulheres pensam: 'Ele me bate, mas fora isso, ele é legal.'"
Segundo a pesquisa "Retratos dos Feminicídios no Brasil", divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na quarta-feira (4), só em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a tipificação da lei do feminicídio, em março de 2015, ao menos 13.703 mulheres já foram assassinadas por sua condição de ser mulher.
Entre 2021 e 2024, 59,4% das vítimas de feminicídio foram mortas pelo companheiro e 21,3% pelo ex-companheiro. Familiares respondem por 10,2% dos casos, enquanto desconhecidos representam 4,9% das ocorrências. Isso significa que mais de 8 em cada 10 feminicídios foram praticados por homens que mantinham ou já tinham mantido vínculos afetivos com a vítima.
"Não dá mais para esconder, está escancarado", afirma Simone. "A gente abre as redes sociais e vê cada absurdo. Não tem mais como falar: 'Não estou vendo.' Está lá. E é uma causa de todos, dos homens e das mulheres. Todos com quem conversamos sobre o projeto o apoiaram muito e disseram: 'É necessário. É uma causa urgente.' Contem comigo.'"
"São Paulo precisa de uma ação vinda do governo, do Estado, do município, porque a situação é grave. O feminicídio virou uma doença", diz Katia. "A gente faz um apelo por mais ações de conscientização para a população, porque não pode continuar do jeito que está. Ninguém suporta mais tanta violência."









