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Guerra na Ucrânia completa 4 anos com pressão dos EUA por acordo de paz

Impasse nas negociações pode levar países a um conflito prolongado, com impactos econômicos e de segurança na Europa

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Camila Stucaluc
24/02/2026, 07:41 • Atualizado em 01/04/2026, 05:40
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Presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, dos EUA, Donald Trump e da Rússia, Vladimir Putin | Reprodução

Presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, dos EUA, Donald Trump e da Rússia, Vladimir Putin | Reprodução

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Antes ansioso por um desfecho rápido que acabasse com a invasão russa na Ucrânia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, hoje acompanha um lento progresso nas negociações de paz. O impasse vem “testando a paciência” do republicano, que já ameaçou abandonar a mediação do diálogo caso os países não cheguem a um consenso para encerrar o conflito, que completa quatro anos nesta terça-feira (24), até junho.

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O principal obstáculo está nos termos para um possível acordo. A Ucrânia é contra a concessão de regiões ocupadas pelo Exército russo (Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson), bem como da península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. No caso de Luhansk e Donetsk, o objetivo russo é conquistar a bacia de Donbass, região economicamente valiosa para o Kremlin devido às grandes reservas de carvão e ferro.

Outro impasse está relacionado à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O governo de Vladimir Putin pede que a Ucrânia abandone a ambição de integrar a aliança militar, justificando que a expansão do grupo no Leste Europeu representa uma ameaça direta à segurança russa por englobar países fronteiriços. O presidente Volodymyr Zelesny já acenou abrir mão do plano, mas somente em troca de garantias de segurança para evitar uma nova invasão russa.

“Para a Ucrânia, aceitar perdas formais significaria legitimar uma agressão e comprometer sua soberania de maneira duradoura. Para a Rússia, abrir mão dos territórios ocupados após anos de mobilização seria politicamente custoso e estrategicamente incoerente. Há também o impasse em torno das garantias de segurança. Kiev quer assegurar que qualquer acordo não seja apenas uma pausa antes de uma nova ofensiva russa. Moscou rejeita qualquer arranjo que, na prática, aproxime a Ucrânia da Otan ou mantenha uma presença militar ocidental robusta em seu entorno”, explica Augusto Dall’Agnol, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS e ex-Presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE).

A divergência de opiniões se soma ao chamado “problema de sequenciamento”: cessar-fogo antes de acordo político ou acordo político antes de cessar-fogo? Esse dilema, segundo Dall’Agnol, é clássico em guerras prolongadas. Caso se encerre o combate antes de resolver as causas centrais do conflito, corre-se o risco de institucionalizar um impasse instável. Já se houver um acordo político completo antes de um cessar-fogo, a própria continuidade da guerra dificulta a construção de confiança mínima entre as partes.

“É um problema de credibilidade e de cálculo estratégico. Cada lado teme que o outro use a primeira concessão para consolidar vantagem”, pontua o especialista.

Para Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Universidade de São Paulo (USP), há ainda o fator de desinteresse. Ele afirma que, formalmente, a Rússia está aberta ao diálogo, mas, na prática, não há sinais de interesse em negociar com a Ucrânia. Moscou confirma isso, principalmente, ao não discutir a implementação de cessar-fogos, mesmo de curto prazo, durante as negociações.

“Enquanto isso, há uma alta recorrência de drones contra a Ucrânia, principalmente contra a infraestrutura energética. A Ucrânia tem chamado esses ataques de ‘atos de terrorismo’, porque milhares de ucranianos ficaram sem luz e aquecimento em pleno inverno. Um inverno extremamente rigoroso, com temperaturas que ultrapassam -20ºC. E nas cidades mais próximas ao fronte, sobretudo no sul e no leste do país, o cenário é de ampla destruição”, diz Ferraro.

Pressão dos EUA

O impasse nas negociações ocorre mesmo com pressão do presidente Donald Trump. No caso da Ucrânia, o republicano ameaça interromper a ajuda militar ao país. Já do lado russo, a intimidação é sobre a frota fantasma de Moscou — uma rede clandestina de petroleiros — e sanções primárias (impostas ao país) e secundárias (imposta a nações terceiras que negociarem com o país).

Dall’Agnol explica que a pressão não busca uma capitulação russa, mas sim encurtar o ciclo da guerra e reduzir seu custo acumulado para o Ocidente. O objetivo é impedir que a guerra se torne um compromisso indefinido de recursos financeiros, industriais e políticos.

“A lógica americana em 2026 parece mais pela estabilização do conflito em termos administráveis. A variável decisiva, nesse momento, é o tempo. Quanto mais longa a guerra, maior o desgaste fiscal, maior a polarização interna e maior a pressão sobre as cadeias industriais de defesa tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Não se trata de altruísmo, mas de cálculo político sobre o desgaste prolongado”, avalia o especialista.

Guerra prolongada

Segundo os especialistas, caso um acordo de paz não seja alcançado, o cenário mais provável não é uma escalada imediata para uma guerra ainda mais ampla, mas a consolidação de um conflito prolongado, com intensidade variável. Outra possibilidade é a cristalização de um “conflito congelado imperfeito”, com uma linha de frente relativamente estável, mas acompanhada por ataques de longo alcance, ciberataques e pressão econômica contínua.

“Isso não configuraria propriamente paz, mas também não seria o fim das hostilidades. Seria um equilíbrio instável, no qual a guerra permanece como instrumento de barganha e cada lado tenta melhorar gradualmente sua posição antes de qualquer negociação futura”, afirma Dall’Agnol.

O mesmo é dito por Ferraro, que assemelha o possível futuro da guerra na Ucrânia ao conflito entre Índia e Paquistão. Iniciado em 1947, o confronto é baseado numa disputa territorial, religiosa e geopolítica, centrada principalmente na região da Caxemira, com ataques esporádicos ao longo dos anos. Ele diz que o mesmo pode acontecer na Ucrânia, exceto pela tensão nuclear, já que Kiev não possui armas nucleares.

“Isso tem um custo social, humanitário e econômico muito alto, que talvez em algum momento possa fazer as partes repensarem e chegarem a um acordo. Um dos cenários que às vezes acaba sendo favorável a acordos, estudado na literatura da ciência política, é quando há um impasse, isto é, quando nenhum dos lados consegue avançar e ambos têm um custo muito alto”, pontua o especialista. “Importante mencionar que tanto a Ucrânia quanto a Rússia têm problemas em relação à crise demográfica, e a guerra acaba agravando isso”, completa.

Em caso de um conflito prolongado, os especialistas apontam para impactos econômicos e de segurança não apenas conjunturais, mas estruturais. A Europa já internalizou a necessidade de elevar gastos em defesa e reorganizar suas cadeias energéticas e industriais, o que altera prioridades fiscais, redefine políticas públicas e influencia o debate político interno.

O conflito também acelera uma reconfiguração da indústria de defesa, com aumento sustentado da produção de munições, drones e sistemas eletrônicos. Uma das principais preocupações está em possíveis invasões da Rússia em outros países europeus. É o caso da Estônia e Letônia, por exemplo, que possuem uma minoria russa significativa, fator que poderia ser utilizado por Moscou para iniciar uma nova “operação militar especial”.

Outro temor está voltado à tensão nuclear, uma vez que, apesar de ser um conflito direto entre Rússia e Ucrânia, a guerra envolve indiretamente potências ocidentais, inclusive nucleares. Em 2024, o Kremlin atualizou sua doutrina nuclear, permitindo a utilização de ogivas em retaliação a agressões de Estados apoiados por potências nucleares — caso da Ucrânia, apoiada pelos Estados Unidos.

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